Al Fatah enfrenta desafio político na ausência de Arafat

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Publicado domingo, 7 de novembro de 2004 as 10:18, por: CdB

O movimento nacionalista Al Fatah, cada vez mais dividido, enfrenta um desafio decisivo para sua sobrevivência e hegemonia política na ausência de seu presidente e fundador, Yasser Arafat, além da ameaça do Hamas.

O Al Fatah, ao contrário do Hamas, é um movimento que não tem uma ideologia e se manteve unido graças à lealdade incondicional ao seu chefe, uma dependência alimentada pelo próprio Arafat.

Talvez por isso, o Al Fatah começou a tomar medidas para evitar que o caos tome conta desse movimento com a morte de Arafat.

Na última quinta-feira, Moussa Arafat, chefe das forças de Inteligência Militar, e Rashid Abu Shibak, chefe das forças de Segurança Preventiva, se reuniram na cidade de Gaza para acabar com suas diferenças.

As duas forças de segurança vinham se enfrentando há meses, em um conflito que representava a tensão entre a velha guarda de Arafat e a ala reformista.
Segundo algumas informações, a reunião tinha sido planejada pelo presidente palestino antes de sua ida para o hospital militar de Percy em Paris, mas o fato de ser realizada após a piora do estado de saúde de Arafat não passou despercebido.

Agora que Arafat está agonizando, o movimento Hamas se abstém de dar sinais de mobilização para não ser criticado como oportunista.

No entanto, mantém – frente ao público -, uma postura desafiante como demonstrou ontem seu porta-voz em Gaza, Sami Abu Zuhri, que expressou seu compromisso de continuar os ataques contra Israel.

– A etapa atual não permite falar em um cessar-fogo – disse antes de se reunir no sábado com o primeiro-ministro da ANP, Ahmed Qorei (Abu Alá), em uma conferência da qual participaram 13 facções palestinas e os chefes das forças de segurança em Gaza.

Além disso, Abu Zuhri afirmou que a Autoridade Nacional Palestina (ANP), e especialmente o Al Fatah, não podem exigir que o Hamas pare os ataques com mísseis Qassam contra Israel, enquanto eles continuarem com suas lutas internas.

– Antes que nos peçam para parar o lançamento de mísseis ‘Qassam’ eles deveriam acabar com sua disputa interna, proteger a pátria e seus cidadãos – disse Abu Zuhri.

O Hamas, apesar do assassinato de seus principais dirigentes por Israel, recebeu, em particular na Faixa de Gaza, um apoio popular por seus ataques contra Israel.

Além disso, a possível retirada unilateral de Israel da faixa, planejada pelo primeiro-ministro, Ariel Sharon, para meados de 2005, será considerada uma vitória do Hamas.

Segundo membros do Hamas em Gaza, um fator fundamental que impede o desencadeamento de lutas internas, em particular entre os membros do Al Fatah, que poderia beneficiar o Movimento Islâmico, é a campanha de agressão de Sharon contra os palestinos.

Enquanto isso, nas ruas de Gaza, há muitas especulações sobre o estado de Arafat e o que aconteceria se o “rais” morresse.

Uns acreditam que o presidente já está morto e o tempo para fazer o anúncio está sendo aproveitado por um grupo de seus próximos para garantir uma sucessão com o mínimo alvoroço.

Outros concordam que apesar dos vários fracassos nos últimos anos, Arafat tem que ser respeitado por seu sacrifício pessoal e seu trabalho histórico pela causa palestina.

– A administração de Arafat nestes últimos anos foi um fracasso, o país está um caos, e nós precisamos de um Estado de direito. No entanto, nenhum palestino quer sua morte por mais que odeiem sua política e o sistema corrupto que temos agora – diz Fadi Muhana, de 31 anos, guarda-civil na Faixa de Gaza.

No entanto, muitos parecem concordam na necessidade de uma mudança e aguardam com otimismo esta próxima etapa.

Isso é porque os últimos anos são os piores que lembram, devido ao número de mortos e o tamanho da destruição, e devido ao assédio a esse território, transformado em uma prisão ao ar livre.