Aos que partem, aos que ficam

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Publicado segunda-feira, 22 de março de 2021 as 09:32, por: CdB

 

Todos os dias parte alguém próximo a alguém. Um irmão, um aluno, uma amiga da faculdade, o pai do vizinho, a filha do conhecido, o camarada antigo, o camarada novo, todos os dias, alguém próximo de alguém, parte para não mais voltar.

Por Joan Edesson de Oliveira – de Brasília

Todos os dias parte alguém próximo a alguém. Um irmão, um aluno, uma amiga da faculdade, o pai do vizinho, a filha do conhecido, o camarada antigo, o camarada novo, todos os dias, alguém próximo de alguém, parte para não mais voltar.

Todos os dias parte alguém próximo a alguém

Nossos dias têm sido esse contar os mortos, macabra matemática. Passamos de mil por dia, passamos de 2 mil por dia, logo deixaremos a marca dos 3 mil para trás. Somos uma nação em luto permanente, uma nação que chora de norte a sul, de leste a oeste. Somos uma nação ferida de morte, a sangrar lentamente, em longa e desesperadora agonia.

Já não sabemos por quem choramos, antes mesmo de prantear um, já recebemos a notícia de que outro se foi, e depois mais outro, e mais outro, e mais outro, numa sequência infinita de mortes. A dor, o pranto, o desespero constante, o não dormir, o não conseguir pensar em mais nada, apenas raro em raro uma alegria, ao saber que o amigo tomou a vacina, que o sogro recebeu as duas doses, que o velho professor e amigo está imunizado. Pequenas alegrias, minúsculas gotas de alegria neste oceano de dor que tomou conta da nação.

Enquanto choramos, enquanto pranteamos os que partem, somos atacados por alguns dos vivos. Enquanto a nação sangra e sofre há alguns que pisoteiam a dor coletiva, que escarnecem do sofrimento da multidão, que riem da desgraça imensa que se abate sobre o povo.

Uma caricatura demoníaca, olhos cuspindo ódio e preconceitos, boca babando mentiras e tolices, as narinas resfolegando o fogo de trinta infernos, (des) governa o país, empurra todos nós para o abismo mais profundo. É seguido de perto por uma legião de pequenos demônios, criaturas vis, desprezíveis, que dançam sobre as cinzas dos que partiram, que amassam com suas patas deformadas a terra sobre as covas que não cessam de engolir os mortos, as covas dotadas de insaciável fome.

Cenário de destruição

Com tal cenário de destruição somos obrigados a buscar, no mais fundo de nós, forças para resistir. Precisamos enterrar e chorar os nossos mortos pensando em como salvar os vivos. Precisamos ter empatia com os que sofrem pelos seus mortos, enquanto somos solidários com o sofrimento e com a fome dos que ficam. Precisamos inventar uma força nova dentro de nós, para sermos capazes de frear a destruição do país, para sermos capazes de fazer frente à rapinagem, para por fim ao bombardeio de mentiras.

É necessário interromper a conta dos mortos, é preciso defender a vida, é urgente garantir ao menos um prato de comida na mesa de milhões de brasileiros que passam fome em silêncio, obrigados ainda a suportar o sarcasmo e o cinismo dos urubus que sobrevoam à espera que os corpos esfriem.

Quando esta tormenta passar, e ela passará, não sabemos quantos faltarão à reunião da família, não sabemos quantas cadeiras vazias haverá no encontro dos amigos, não temos ideia de quantos terão tombado ao nosso lado.

Mas a tormenta só passará se a dor virar indignação, se o desespero der lugar à coragem, se o pranto virar luta. Honraremos os nossos mortos se lutarmos para libertar os vivos, para garantir a vida, a vacina para todos, o fortalecimento da saúde pública e, acima de tudo, se expulsarmos os demônios que nos atacam, se pusermos para correr essas hienas que hoje mordem os nossos calcanhares.

É necessário que lutemos, pelos que partem, pelos que ficam.

Joan Edesson de Oliveira, é educador, mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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