As incertezas do capitão Bolsonaro

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Publicado quarta-feira, 14 de novembro de 2018 as 12:20, por: Rui Martins
As primeiras palavras tranquilizadoras vieram do juiz Sérgio Moro, logo depois de premiado com o Ministério da Justiça. O medo geral era do presidente eleito ser um bicho papão autoritário. Mas continua a impressão de seu despreparo, com o anúncio de decisões, anuladas alguns dias depois.
Por Rui Martins, de Genebra:
A valsa das incertezas – Sim; acho que Não; Talvez

As primeiras palavras tranquilizadoras vieram do juiz Sérgio Moro, logo depois de premiado com o Ministério da Justiça. Muita gente estava tendo pesadelo com as definições alarmantes sobre o capitão Bolsonaro, feitas no final da campanha eleitoral.

As de ser racista, homofóbico, machista até que passavam. Na verdade, e isso não é nenhum mistério, a maioria dos brasileiros também são, como provaram seus eleitores.
O medo geral era do homem ser autoritário, violento e perigoso e de querer dar logo um golpe militar e nos tirar a liberdade de falar ou escrever textos como este. Por críticas deste tipo, há uns 50 anos, precisei fazer as malas e sair de mansinho para o exílio.
Felizmente, chegou Sérgio Moro e colocou os panos quentes, dizendo mais ou menso assim: “nada disso, o homem é boa praça e vai governar respeitando a lei e a Constituição, não há risco nenhum de golpe militar. A prova é que aceitei entrar no seu governo. dou minha garantia de que será um governo democrático”.
Ninguém entendeu direito como o juiz “mani puliti” da Lava Jato aceitou tão depressa a mirabolante oferta de subir de Curitiba para Brasília, com o bonus prometido de saltar da primeira instância para o Supremo Tribunal Federal. Mas como ele tem crédito e respeito depois de trancafiar na prisão um presidente e umas dezenas de políticos e empresários, a maioria considerados corruptos de esquerda e outros também de direita, com provas e deduragem dizem os entendidos, sem provas só com deduragem, dizem os petistas, o jeito é acreditar e parar de tomar calmante para dormir.
Então, o presidente eleito Bolsonaro não vai ser nenhum bicho papão. Promessa do único bolsonarista conceituado, os outros já disseram abobrinhas, fizeram ameaças e deram chance para a imprensa internacional rotular o futuro governo brasileiro como populista de extrema-direita e, muito pior, de fascista.
Será exagero rotular Moro de bolsonarista? Bom, se não tivesse nenhuma simpatia pelo “mito” e mesmo que detestasse o Haddad não teria aceitado na velocidade de um TGV o dourado convite. Ou foi simples picada da mosca azul?
Veremos, o importante é saber que na hipótese de desacordo, Moro sairá do governo. Mais ou menos a mesma coisa, me disseram alguns populares bolsonalistas, outro dia, quando perguntei: “vocês sabem o que estão fazendo?” – e me responderam: “sim, sinão nóis tira ele de lá!”.
Nem bem me tranquilizei e deixei de temer um retorno aos 21 anos de ditadura, alguns colegas me alertaram: “esse presidente não tem nenhum preparo, um dia diz sim, no dia seguinte diz não, quando não fica na dúvida e balança a cabeça com um talvez. Um bolha”. Ainda bem, ainda bem que metade daquelas ameaças poderão se tornar bravatas.
A última meia-volta volver, depois daquela de acabar com o Ministério do Trabalho, é relacionada com a mudança da embaixada brasileira em Israel de Telavive para Jerusalém. A fim de agradar principalmente os evangélicos ligados em Israel, Bolsonaro prometeu essa transferência, mas logo foi informado do prejuízo econômico a ser causado ao Brasil, se essa medida for efetivada.
O Brasil exporta o equivalente a 5 bilhões de dólares em carne bovina, dos quais um bilhão para os países árabes, e outro bilhão em carne de frango também para os árabes, sendo os animais abatidos segundo os princípios do Corão. O  Brasil é o primeiro país exportador dessa carne, chamada halal, para os países árabes.
E então? A embaixada vai para Jerusalém e o Brasil perde dois bilhões de dólares para agradar aos evangélicos? Talvez não, o capitão das incertezas parece já ter mudado de opinião.

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e RFI.

Editor do Direto da Redação.

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