Ascensão, queda e morte de Cony

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Publicado terça-feira, 9 de janeiro de 2018 as 18:52, por: CdB

O hábito é só se lembrar das coisas boas ditas, feitas e deixadas pelo finado. Nosso colunista Lungaretti, que costuma atormentar os petistas no seu blog Náufrago da Utopia, quebra esse hábito ao fazer o necrológio do escritor e jornalista Carlos Heitor Cony. Não posso criticar porque, fã do autor do colunista do Correio da Manhã, leitor de seus livros, e do seu libelo contra os militares – O Ato e o Fato – tive uma decepção ao conhecê-lo pessoalmente em Paris. Mais tarde, colega de Cony na CBN, que entrava, pouco antes do meu boletim, com Xexeu, não recebi nenhum apoio no episódio de minha demissão por Marilza Tavares e Heródoto Barbeiro, por denunciar as contas secretas de Paulo Maluf na Suíça. Prefiro, por isso, me lembrar só do escritor do Ato e o Fato. O texto de Lungaretti é duro, mas verdadeiro. Leiam com atenção. (Nota do Editor, Rui Martins)

Por Celso Lungaretti, de São Paulo:

Da conivência de Cony

Carlos Heitor Cony morreu no final da noite de 6ª feira (dia 5), aos 91 nos, em decorrência da falência de múltiplos órgãos.
 
Se eu seguisse a norma geralmente adotada nos círculos dos intelectuais e das celebridades, resumida numa conhecida máxima latina de Quilão (De mortuis nil nisi bene, algo como Não se deve falar dos mortos senão benevolamente), esqueceria que cheguei a admirar muito a obra de Cony mas depois me decepcionei na mesma medida com certas posturas por ele adotadas a partir da década de 1970.
 
Pensei, pensei e não consegui me inspirar para escrever algo mais benevolente, confesso. Ele, para mim, já não passava ultimamente de mais um afeto que se encerrou; e, como tal, uma página virada.
Este Cony aqui…
Então, decidi apenas reproduzir o artigo no qual fiz em 2009 um balanço nada benevolente, mas sincero, da trajetória do Cony: O ato: Cony sepultou os ideais. O fato: agora apóia até censura! 
 
 
Na verdade, tal texto já equivaleu a uma espécie de necrológio precoce. Nada de muito importante sucedeu, desde ele, que me fizesse reconsiderar os juízos que emiti então. [E até a fonte de seus escritos mais ambiciosos secou, pois, daí em diante, Cony se limitou a escrever as crônicas publicadas na imprensa, algumas inspiradas, a maioria repetitiva.]
 
Infelizmente, a chama que o inflamou um dia foi consumida pelos desencantos que se sucedem na vida dos brasileiros mais sensíveis e idealistas. Foi guerreiro um dia, mas morreu como um idoso melancólico, disfarçando o amargor com o brilho intelectual.
 
Foi, claro, um dos melhores escritores brasileiros de todos os tempos. E, como ser humano, merece respeito principalmente pelos anos que viveu perigosamente, assumindo os riscos de navegar contra a corrente. 
 
Constatou, no entendo, que não possuía a têmpera dos imprescindíveis a que aludiu Brecht. Então, conformou-se em ser apenas outro privilegiado desfrutando seus privilégios, a ponto de envergar sem pudor o fardão da torre de marfim, com a atenuante de haver conquistado sua posição graças a real talento e não por herança ou velhacarias.
…decerto se envergonharia deste aqui…
 
O ATO: CONY SEPULTOU OS IDEAIS. O FATO: AGORA APÓIA ATÉ CENSURA!
Pete Townshend, o guitarrista e compositor das músicas do The Who, produziu em 1965 uma canção-manifesto, My Generation, que trazia um verso fortíssimo: “Prefiro morrer antes de envelhecer”.
 
Só que ele não morreu, envelheceu. E se tornou o oposto dos jovens rebeldes de outrora, capaz de proferir verdadeiras catilinárias contra os downloads gratuitos do MP3 e até de rasgar seda para o então presidente George W. Bush: “Bush se esforça para dar uma vida digna ao povo dos Estados Unidos, e não tenho o direito de dizer como ele deve dirigir o país”.
 
Daí o sarcástico cala-boca que levou de Kurt Cobain, do Nirvana: “Prefiro morrer antes de virar Pete Townshend”.
…e respectiva turma.
Como tenho duas filha que amo demais e quero ver crescerem, não irei ao ponto de afirmar que prefiro morrer antes de virar Carlos Heitor Cony. Não se brinca com essas coisas.
 
Mas, a minha decepção com Cony deve equivaler à de Cobain com Townshend.
 
Antes mesmo de aderir ao marxismo, eu já o admirava. Tive uma fase existencialista, lá pelos 14 anos, e o Cony era o escritor que, no Brasil, seguia os passos de meus ídolos Jean-Paul Sartre e Albert Camus.
 
Li muita coisa da sua fase despolitizada e gostei, principalmente, de Antes, o Verão e Informação ao Crucificado.
 
E ele mudou de postura a partir do golpe de 1964.
 
Até então sua matéria-prima era a impossibilidade de realização plena dos indivíduos de classe média na sociedade burguesa, focada no plano pessoal.
 
A partir daí ele tomou lugar na trincheira dos que lutavam diretamente contra a burguesia e seus cães de guarda, os militares.
 
Mas, não foi uma opção tão ideológica assim, pelo menos de acordo com o que ele mesmo afirmou.
Antonio Callado: outra decepção!
 
Disse que, como benjamim de uma extraordinária redação do Correio da Manhã (RJ), na qual pontificavam grandes jornalistas de esquerda como Otto Maria Carpeaux, Paulo Francis, Antonio Callado, Jânio de Freitas, Sérgio Augusto, Márcio Moreira Alves e Hermano Alves, sentia-se desobrigado de abordar temas políticos, pois havia quem o fizesse melhor do que ele.
 
Com a quartelada, entretanto, essas figurinhas carimbadas não puderam dar sequência ao seu trabalho costumeiro, pois se tornaram alvos prioritários de prisões, intimidações e todo tipo de cerceamento.
 
Cony teria entrado nesse vácuo, substituindo-as na missão de denunciar a nudez do rei. Como tinha prestígio literário (seu livro de estréia, O Ventre, foi sucesso de crítica e de vendas) e reputação de apolítico, os milicos acabaram engolindo seus arroubos de indignação. Devem ter pensado que a fase seria passageira.
OPÇÃO PELA LUTA ARMADA
 
Mas Cony perseverou. Depois desses artigos combativos que escreveu no pós-golpe e reuniu no livro O Ato e o Fato, faria a opção pela luta armada.
Cony-vente com Adolpho Bloch na Manchete
 
Cheguei a vê-lo discursar numa manifestação estudantil aqui em São Paulo, em meados de 1968, quando afirmou que a vitória contra o arbítrio não seria conquistada nas cidades. Apontava-nos, implicitamente, o caminho da guerrilha rural.
 
Esta guinada foi expressa em seu livro de 1967, Pessach, a Travessia. O personagem principal é uma óbvia projeção dele mesmo: um escritor de meia idade, em crise existencial, que envolve-se casualmente com um grupo guerrilheiro.
 
O que ele quer mesmo é sair dessa fria. Mas, no final, mortos os combatentes, ele tem a chance de transpor a fronteira e pôr-se a salvo. Prefere empunhar a arma de um deles e permanecer no Brasil para dar sequência à sua luta.
 
A travessia pessoal do Cony, infelizmente, não foi tão altaneira. Algumas prisões (sem maus tratos, claro, pois era vip) e o desemprego quebraram sua espinha.
 
Ainda fez um último grande romance, o melhor de sua carreira: Pilatos (escrito em 1972 e publicado dois anos depois). Mostra, com jeitão de pesadelo, um Brasil desumanizado, em que as pessoas são movidas apenas por apetites e ambições, sem nenhum sentimento nobre.
 
Era, claro, o Brasil do milagre econômico.
 
Pilatos sinalizou o fim do bom combate de Cony
CURVANDO-SE À EVIDÊNCIA DOS FATOS
 
E Cony deixou evidenciados seus sentimentos ao derivar o título destes versos do Samba Erudito, de Paulo Vanzolini: “Aí me curvei/ Ante a força dos fatos/ Lavei minhas mãos/ Como Pôncio Pilatos”.
 
Ou seja, se é nessa pocilga que vocês optaram por viver, voltando as costas a quem combatia por um Brasil melhor, então chafurdem à vontade. Não tenho nada a ver com isso.
 
O desencanto com o País e as mágoas por não encontrar companheiros de esquerda que o socorressem quando ficou na rua da amargura tiveram, como resultado, uma nova travessia, desta vez negativa, de Cony. Tornou-se, ele próprio, um homem sem ideais.
 
Pediu emprego a Adolfo Bloch que, talvez em nome da ascendência judaica comum, o acolheu muito bem em sua editora.
 
 
De vez em quando, uma frase contundente. Fogo fátuo?

Mas, o diabo sempre exige algo de quem lhe vende a alma: além de cuidar de uma revista, Cony era obrigado a redigir, como ghost writer, os editoriais arquirreacionários de Bloch, fazendo apologia da ditadura. Seus colegas de redação, pelas costas, referiam-se a ele como Cony-vente.

 
No ano 2000 ingressou na Academia Brasileira de Letras, que decerto lhe provocaria náuseas em 1958, quando iniciou a carreira.
 
Em 2004, embora seja profissional muito bem pago como jornalista e escritor, fez questão de obter reparação de ex-preso político.
 
Pior: foi duplamente favorecido, passando à frente de quem estava mofando há anos na fila e recebendo uma pensão mensal (e respectiva indenização retroativa) extremamente exagerada, segundo os próprios critérios do programa. Tratamento vip, de novo!
 
Ele foi grande um dia, mas teve final melancólico

“CERTOS SETORES
DA IMPRENSA”

 
E chegamos aos dias de hoje, quando não só defende fervorosamente seu colega de Academia, José Sarney, do clamor público pela justa punição dos delitos em que foi flagrado, como chega a apoiar a censura de jornais!
 
Isto mesmo, está na sua coluna desta 5ª feira [20/08/2009] na Folha de S. Paulo:

Acho exagerado o fervor de certos setores da imprensa em reclamar de processos ou de sentenças da Justiça, considerando violação de uma liberdade a qual todos têm direito, desde que não fira direito de terceiros.

Afinal, a imprensa não é uma vestal inatacável, acima de qualquer valor da sociedade. Ela está sujeita ao Estado de Direito, que dá liberdade a qualquer cidadão, jornalista ou não. O fato de um juiz aceitar um processo não é uma violação.

Ou seja, um juiz ligado a José Sarney proíbe um jornal de noticiar um inquérito envolvendo falcatruas da família Sarney e a única coisa que Cony encontrou para criticar foi… a solidariedade que O Estado de S. Paulo está recebendo de “certos setores da imprensa”!

 
Pensando bem, eu não preciso mesmo dizer que preferiria morrer antes de virar Carlos Heitor Cony. Por um motivo simples: nem que viva 100 anos decairei tanto.
 
 
Celso Lungaretti, jornalista e escritor, foi resistente à ditadura militar ainda secundarista e participou da Vanguarda Popular Revolucionária. Preso e processado, escreveu o livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial). Tem um ativo blog com esse mesmo título.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

 
 

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