Assessor de Bolsonaro leva vida simples, apesar do saldo milionário na conta

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Publicado terça-feira, 11 de dezembro de 2018 as 16:57, por: CdB

O ex-assessor do deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL), filho do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), ao contrário do que evidencia o saldo bancário, tem uma vida simples.

 

Por Redação – do Rio de Janeiro

 

Ninguém sabia dizer, até o início da tarde desta terça-feira, onde se encontra o policial militar Fabrício José Carlos de Queiroz. Ele tem evitado o contato com as múltiplas equipes de reportagem que o procuram para que ele explique como funcionava o esquema de pagamentos montado enquanto ele servia de motorista, guarda-costa e entregador de encomendas para a família do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL).

Queiroz, ao lado do deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL), é alvo de investigação policial
Queiroz, ao lado do deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL), é alvo de investigação policial

Queiroz foi apontado em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) como responsável pela movimentação atípica de R$ 1,2 milhão ao longo de 2016. O ex-assessor do deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL), filho do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) e futuro titular de uma cadeira no Senado, ao contrário do que evidencia o saldo em sua conta bancária, tem uma vida simples.

O policial militar mora com a família em uma casa humilde, na Zona Oeste do Rio, com tijolos aparentes e localizada na rua secundária de uma conjunto habitacional com cerca de 70 outras unidades, no bairro da Taquara. A fiação do imóvel e os canos de esgotamento sanitário ficam à mostra, juntos com os dos vizinhos de parede.

Ao contrário do assessor, que tem uma existência humilde, o capitão da reserva Jair Bolsonaro (PSL) e seus três filhos, o senador Flávio (PSL-RJ), de 37 anos, o vereador Carlos, 36, e o deputado federal Eduardo, 34, tiveram uma sequência próspera nos últimos anos; a ponto de ampliar os bens em escalas muito acima da evolução patrimonial da quase totalidade dos brasileiros.

Uma série de denúncias, nos últimos dias, no entanto, colocam em risco o bordão de campanha usado pela família de políticos fluminenses, de luta contra os corruptos.

Aos 63 anos, o líder do clã Bolsonaro declarou um crescimento na fortuna pessoal em uma década, segundo declaração de bens apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na ordem de 168%, a contar de 2006, quando ocupava uma vaga na Câmara Federal e era dono de um carro popular. Seu filho Eduardo, hoje deputado, ficou 432% mais rico em apenas quatro anos. E Flávio, eleito senador, multiplicou em 55% o seu patrimônio, desde 2010.

Relatório do Coaf

Embora não tenham esclarecido aos eleitores a receita de tamanho sucesso, os três, à exceção de Carlos, que chega agora ao primeiro mandato, disseram a jornalistas que aplicaram no mercado imobiliário; com a compra e venda de casas e apartamentos.

Bolsonaro e seus três filhos declaram a propriedade de 13 imóveis. A preço de mercado, valem cerca de R$ 15 milhões. A maioria dos imóveis está situada em pontos altamente valorizados do Rio de Janeiro; como Copacabana, Barra da Tijuca e Urca.

Apesar de inconsistências entre os valores pagos, efetivamente, e aqueles registrados em cartório, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) levanta dúvidas quanto à origem dos lucros.

Flávio Bolsonaro, quem teve maior crescimento patrimonial nos últimos anos, é citado em relatório do Coaf por seu relacionamento com o sargento Queiroz, sobre as movimentações financeiras entre contas dele e da filha, Nathalia Melo de Queiroz.

Capital seguro

O ex-assessor é pessoa muito próxima à família Bolsonaro, há mais de 12 anos. Ele é citado no documento do Coaf por movimentar, em um ano, R$ 1,2 milhão, sem renda ou patrimônio compatíveis. Entre as pessoas que receberam recursos de Queiroz também está a primeira-dama Michelle Bolsonaro. Ela descontou um cheque de R$ 24 mil que lhe foi destinado pelo motorista do enteado.

Após 36 horas, desde que o escândalo foi divulgado na mídia conservadora, Bolsonaro concedeu uma breve entrevista na tentativa de explicar que os recursos depositados na conta da mulher provinham de um empréstimo de R$ 40 mil a Queiroz, pagos em 10 cheque de R$ 4 mil. Nas redes sociais, porém, “ficou pior a emenda do que o soneto”, opinam internautas.

Vice de Bolsonaro, o general Hamilton Mourão não esconde o aborrecimento que o escândalo tem levantado no meio militar. Além de cobrar explicações “convincentes” sobre a movimentação atípica do ex-assessor, os militares ligados ao presidente eleito não escondem o constrangimento com os fatos.

Saques

Segundo apurou o Coaf, no relatório, os maiores saques feitos em 2016 pelo policial militar Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), foram precedidos, geralmente na véspera, de depósito de valores de mesmo patamar.

A movimentação caracteriza, segundo os técnicos do Conselho, uma conta de passagem. Nela, real destinatário do valor creditado não é o seu titular. A manipulação de dinheiro vivo, nas duas pontas da operação, reforça o indício observado no documento.

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPE-RJ) instaurou, nesta terça-feira, uma investigação criminal sigilosa com base no relatório. O inquérito cita membros do gabinete de 22 deputados estaduais — entre eles Flávio Bolsonaro.

Cheques

Do total movimentado, R$ 324,8 mil se referem a saques e R$ 216,5 mil a depósitos em espécie — os demais valores são transferências identificadas, entre outras operações.

Ao longo de 2016, dos 176 saques realizados por Queiroz, 50 foram de valores acima de R$ 2.000. Apenas um foi superior aos R$ 10 mil. Nesse caso, a comunicação ao Coaf ocorre automaticamente.

Na maioria dos casos pesquisados, o saque era precedido de um depósito, também em espécie, de valor semelhante. Nenhum, todavia, acima dos R$ 10 mil. Nos dias 16 e 17 de fevereiro, para se ter uma ideia de como o esquema funcionava, Queiroz fez três saques de R$ 5 mil cada, no total de R$ 15 mil.

Sincronia

O movimento foi acompanhado de cinco depósitos em espécie feitos em sua conta entre os dias 15 e 17 de fevereiro, que somam R$ 15,3 mil. O movimento sincronizado também ocorreu em junho, quando nos dias 14 e 15 ele fez dois saques de R$ 5 mil, tendo recebido no mesmo período em depósito de dinheiro vivo R$ 13,2 mil.

A ocorrência desses saques maiores mantém como padrão o fato de ocorrerem poucos dias após depósito em espécie de patamar semelhante. Em 35 dos 50 casos de retiradas acima de R$ 2 mil, depósito acima do mesmo valor ocorreu até um dia antes — algumas vezes, no mesmo dia. Numa rápida projeção, com o intervalo entre o depósito e o saque para três dias, a sincronia se repete em 40 dos 50 maiores saques de Queiroz.

A correlação entre depósitos em dinheiro vivo e saque imediato também fica evidenciado em dezembro, quando o total sacado aumenta muito, assim como a entrada de dinheiro vivo.
No último mês do ano, por 12 vezes ele fez retiradas de dinheiro vivo acima de R$ 2.000, num total de R$ 58 mil. O volume de entrada também cresce e alcança R$ 41,6 mil distribuído em oito depósitos em espécie.

Procuradores, policiais federais e auditores fiscais afirmam que o uso de dinheiro vivo em transações bancárias costuma ter como objetivo ocultar o destinatário ou remetente dos recursos. A prática dificulta a identificação dos responsáveis pelas transações.

Manobra ilegal

Uma das hipóteses levantadas na investigação é a de que o ex-assessor recolhesse uma parcela dos salários de assessores do gabinete de Flávio Bolsonaro — sete deles aparecem no relatório transferindo recursos a Queiroz.

Trata-se de uma prática comum no Legislativo, ainda que ilegal e passível de punição severa. Os recursos arrecadados também poderiam irrigar as campanhas eleitorais da família. Até agora, porém, não há uma explicação plausível para o destino do dinheiro movimentado por Queiroz.

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