Ativismo Net e a prática cotidiana da militância política: Um casamento ideal

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Publicado quarta-feira, 1 de agosto de 2018 as 14:31, por: CdB

Um clicar de compartilhamento e pronto! O nosso modo de desenvolvimento virou sustentável e durável.

 

Por Marilza de Melo Foucher – de Paris

Nos países que não garantem a pluralidade dos meios de comunicação a expansão da internet é saudável. Para as jovens democracias, tal como a brasileira, pode ser um instrumento estimulador ao exercício da cidadania. Entretanto, a internet não substitui a prática da política no quotidiano. Deve-se levar em conta que o “fazer política” na esfera da comunicação virtual tem seus limites! Ela é um meio e não uma finalidade.

Em um mundo cada vez mais conectado, a militância poli1tica tambe1m precisa se modernizar

As redes sociais e a internet são muitas vezes apresentadas como um catalisador para a mobilização ou difusão de uma mensagem política. Porém, o trabalho de campo é também necessário, assim como, os debates e as reuniões para tomada de posição. A Internet é uma ferramenta de informação, um meio de comunicação necessária, mas não suficiente.

Uma questão interessante para abrir o debate com os “internautas” seria: A comunicação política virtual teria por vocação substituir a prática política no campo da ação?

Será possível mudar o modo de desenvolvimento no Brasil e ter acesso aos serviços públicos de qualidade a partir de uma militância virtual apenas “clicando” e, em poucos minutos, a revolução virtual estará pronta para a ação transformadora? Será que basta convocar a galera no Facebook e dizer que o modo atual de desenvolvimento não corresponde à sociedade que queremos construir?

Aprendizado

Um clicar de compartilhamento e pronto! O nosso modo de desenvolvimento virou sustentável e durável. Assim, estamos dispostos a criar uma relação mais fraternal em nossas cidades, um meio ambiente urbano mais saudável, com menos poluição, com transportes limpos e eficazes, com cidades dotadas de ciclovias e calçadões para se caminhar. Em poucas minutos centenas de pessoas irão clicar “eu amo” ou compartilhar com outros ativistas virtuais e ganhar adesão de milhões e a “ciberutopia” de uma cidade melhor será realizada!

Este debate sobre o novo ativismo social virtual, faz lembrar o livro do pesquisador Morozov da Universidade de Georgetown sobre A desilusão da Net, o autor denuncia a “ciberutopia” que envolve a tecnologia numérica de virtudes emancipadoras intrínsecas como vetor de democracia, desde que as informações circulem sem entraves. O pesquisador, cronista jornalista Evegny Morozov acrescenta que a ignorância e a preguiça intelectual levam nossos contemporâneos à “web centrismo”, pensando que todos os problemas que afetam nossa sociedade podem ser resolvidos pelo ativismo net, o “webdourado”. Com certo cepticismo o autor exprime a capacidade do ativismo na Net de mudar o mundo. Segundo ele, não é com um smartphone ou iPod que os cidadãos vão se mobilizar e se organizar.

Penso que o ativismo Net e a militância no terreno da ação são aliados fundamentais na prática política. Talvez o militante, a militante Net seja mais individualista, prefere não correr risco ao ir para uma confrontação direta na defesa de suas ideias, talvez não goste de realizar intercâmbios diretos, de ter verdadeiros amigos(as) pra debater. Ele/Ela deve preferir a solidão do escritório, do quarto, da sala de sua casa. O(A) militante que está num sindicato, numa ong de desenvolvimento solidário, num partido político, parece ser mais sociável optando pelo contato direto. Será mais aberto ao aprendizado da troca de pontos de vistas ou o sedutor que usa do saber e da experiência para ganhar adesão às suas causas.

O ideal seria promover um elo, uma passarela entre os dois mundos: o do ativismo virtual e o da militância real. Muitos de minha geração que tiveram uma militância ativa, parecem hoje preguiçosos-ativistas Net, alguns preferem alimentar o debate via blog, via web ou lista de e-mails no lugar de participar de reuniões com os jovens militantes. Usam deste espaço para socializar seus aprendizados e experiências. Hoje, infelizmente, a autora desse artigo se encontra entre os preguiçosos-ativistas…

O fazer política na era do ativismo virtual- realidade política do Brasil

Se a imagem dos parlamentares brasileiros já estava deteriorada há muitos anos, nestes últimos dois anos ela se agravou ainda mais. O espetáculo dado no congresso no momento da destituição da Presidente Dilma Rousseff mostrou a verdadeira face da crise da política brasileira: um parlamento não representativo dos segmentos da sociedade brasileira transformou o congresso nacional em picadeiro digno de uma republiqueta bananeira. Lamentavelmente, muitos eleitos republicanos, há anos vêm contribuindo para o descrédito político. A maioria dos parlamentares não têm compromisso partidário, aliás, a maioria dos partidos não tem base filosófica, nem programa político, são legendas de aluguel. Esses políticos fazem parte da banda de políticos do “é dando que se recebe”. Impunemente abusam do poder político para nomeações dos afiliados, usam do apadrinhamento na distribuição de cargos. Estes políticos fisiológicos defendem interesses paroquiais em detrimento do interesse nacional. Para eles, tudo isto é normal. Eles sempre repetem: “faz parte do jogo político”! Em razão desta realidade, só uma boa reforma do sistema político pode provocar um choque de seriedade junto à opinião pública. Ela contribuirá sem dúvida na melhoria da imagem do Parlamento brasileiro.

Tudo que vem ocorrendo de grave e maléfico na nação brasileira desde a destituição da Presidente Dilma Rousseff até a recente prisão arbitrária de Luís Inácio Lula da Silva, ainda não provocou uma grande mobilização nacional, exceto certa participação de ativistas nas redes sociais que descobrem perplexos o espetáculo grotesco de seus representantes. A imprensa nacional e a rede Globo de televisão destacam este procedimento de destituição normal. Tentam convencer que não houve golpe. O ativismo net que se alarmava com a situação do golpe, não conseguiu mobilizar a sociedade contra o atentado à democracia.

A democracia brasileira embora ferida e moribunda continua seu caminho como se tudo fosse normal. Fora do ativismo net, nada acontece de novo no horizonte do Brasil e o governo ilegítimo se instala e cria sua ponte para o futuro! Podemos elencar muitos motivos que justificavam e justificam até hoje uma articulação para uma mobilização de massa promovendo uma junção entre o ativismo virtual e a militância real.

Resta uma questão fundamental aos internautas ativistas:

Por que a maioria dos brasileiros ficou passiva diante da primeira grande medida tomada pelo governo conspirador de Temer depois do golpe parlamentar-judiciário-midiático? A denominada proposta de emenda constitucional PEC 241 congelou os gastos públicos por 20 anos. Ela diminuiu os investimentos de modo drástico na educação, saúde, e assistência social. A PEC, considerada prioritária pelo governo Temer, decretou o fim da obrigação do Estado com os direitos sociais. Todas as reformas aprovadas pela maioria dos conspiradores golpistas do congresso não provocaram nenhum impacto positivo na economia brasileira e pior, diminuiu o poder aquisitivo da classe média aumentando de modo brusco a pobreza no Brasil.

A corrupção galopa na impunidade. Receber subornos virou moeda corrente. Quase todos os ministros de Temer são acusados de corrupção. Desde que assumiu o governo, Temer retira direitos sociais com leis que prejudicam milhares de brasileiros, a oportunidade de trabalho diminuiu enormemente, a violência urbana e rural aumenta cada vez mais, riquezas naturais e sua biodiversidade estão ameaçadas, o patrimônio nacional está sendo delapidado, as grandes empresas nacionais estão sendo vendidas, cedidas ao capital estrangeiro. Entretanto, apesar do ativismo net cada vez mais presente, nada conseguiu despertar indignação.

Muitos tiram o sinal de alerta através dos meios de comunicações alternativos, das redes sociais no Net, porém, não suficiente para tirar o povo da letargia e promover uma grande mobilização nacional. E, todavia, o momento eleitoral é propicio!

O que fazer diante do caos político?

Diante desta situação agravada com a prisão do maior líder político da América Latina só resta uma solução: Casar o ativismo net com a militância de ruas. Somente, o ativismo social articulado com a “militância” de base pode abrir uma oportunidade que talvez seja promissora para reabilitar outro modo de fazer política no Brasil. É urgente estabelecer o diálogo direto para tirar o exercício da cidadania da letargia. Somente este modo de ação pode resgatar a esperança, no momento, prisioneira. A crença no despertar da aurora do belo amanhã no Brasil está na mobilização geral!

Uma democracia não pode ter ruptura com a política. A política é a atividade pela qual os homens e mulheres através da diversidade de interesses, opiniões, paixões podem se opor, convergir e se organizar para dar um funcionamento ordenado à sociedade. A democracia é o projeto pelo qual este trabalho de organização da sociedade se realiza por ela mesma. Daí a definição de “um governo do povo, pelo povo, para o povo.” Ou seja, a política é o trabalho que visa a organização do poder. A democracia é a ideia de que o poder pertence ao povo.

Não vamos deixar que o processo de eleições seja usurpado pela exclusão política de Lula. Não existe democracia sem o restabelecimento do estado de direito. Infelizmente, não é a representação máxima da justiça brasileira que levará o Brasil a sair do abismo em que se encontra. O Judiciário é protagonista deste caos, foram eles que criaram a judicialização da política e deixaram o espaço político ser dominado pelos juízes e promotores. Eles mudaram as regras do direito para prender o futuro presidente do Brasil, criando um estado de exceção que levou à prisão arbitrária do maior estadista brasileiro, o Lula da Silva.

Valores coletivos

Hoje o candidato preferido do povo brasileiro está proibido de continuar semeando grãos que combateram a fome de alimentos, a fome de justiça social, a fome da liberdade de existir fora da invisibilidade social, a fome de cultura, de beleza e estética, a fome de educação, a fome de inclusão social, a fome de uma democracia com cidadania ativa. Mais do que nunca chegou a hora de consolidar o casamento entre essas duas formas de participação política. Vamos usar a ferramenta virtual Net para resgatar a pratica da política no quotidiano.

Temos que reencontrar o sentido nobre da política, que permite a uma comunidade agir sobre si mesma, sem perder a visão do interesse geral. Nesse período eleitoral é urgente fazer uma limpeza eleitoral na Casa do Povo. Eleger candidatos que sejam representativos da sociedade brasileira, comprometidos com os interesses coletivos do povo, com o estado de direito e a defesa da soberania nacional e do meio ambiente.

A democracia precisa de cidadãos realmente ativos, de líderes e representantes dotados de capacidade de ação para o bem comum e de senso político. As instituições republicanas precisam ser sólidas e respeitadas, dando vida aos valores coletivos e garantindo sua transmissão. Se a democracia representativa vai mal, a culpa não é só dos políticos, a política é inseparável do exercício da cidadania.

Marilza de Melo Foucher é economista, jornalista e correspondente do Correio do Brasil e Brasil 24/7 em Paris. Colaboradora e blogueira do jornal Mediapart-Paris.

O original deste artigo foi publicado em 21 de agosto de 2013, hoje atualizado para relançar o debate dado o contexto eleitoral.

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