Autor de ataque ao Porta dos Fundos reúne-se, na Rússia, com crítico de Bolsonaro

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Publicado domingo, 5 de janeiro de 2020 as 15:00, por: CdB

O discurso de Fauzi é valorizado e bem remunerado por um setor obscuro do pensamento totalitário, para disseminar o discurso de ódio do qual o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), e sua família utilizam-se, cotidianamente, no exercício do poder.

 

Por Redação, com agências internacionais – de Curitiba, Moscou e São Paulo

 

Um grupo muito maior até do que previam os analistas mais céticos quanto à presença do pensamento nazifascista junto à sociedade brasileira junta-se, agora, para apoiar e patrocinar o terrorista assumido Eduardo Fauzi, atualmente foragido na Rússia. Neste sábado, circulou nas redes sociais uma nova atividade do procurado pela Polícia Federal (PF).

No perfil Ala Esquerda/Left wing, do Twitter, os autores citam:

Fauzi e Dugin encontraram-se em local não sabido, nesta sexta-feira, na Rússia
Fauzi e Dugin encontraram-se em local não sabido, nesta sexta-feira, na Rússia

“Na foto (…) vemos Eduardo Fauzi, integralista suspeito do atentado contra o Porta dos Fundos, ao lado de Aleksandr Dugin, teórico da extrema-direita russa e guru da organização Nova Resistência”.

Flanelinha

O discurso de Fauzi é valorizado e bem remunerado por um setor obscuro do pensamento totalitário, para disseminar o discurso de ódio do qual o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), e sua família utilizam-se, cotidianamente, no exercício do poder. Ao fugir para a Rússia, Fauzi deixou para trás, em seu apartamento, no Rio de Janeiro, a quantia de R$ 160 mil, em dinheiro vivo, reunida por investigadores ao inquérito em curso.

Somados os custos de passagens, alimentação, traslados e hospedagens em território russo, ao longo dos últimos dias, segundo o consultor de uma agência de viagens, ouvido pela reportagem do Correio do Brasil, “essa fuga já custou, até agora, algo perto de US$ 60 mil (o equivalente a mais de R$ 240 mil)”. Fauzi, em um vídeo recém-divulgado, se autodeclara “guardião de automóveis”, mais conhecido como “flanelinha” ou, na melhor das hipóteses, “manobrista”.

Para reunir esta quantia, por lançar coquetéis Molotov na portaria da produtora Porta dos Fundos; além de disseminar mensagens desconexas sobre religião e liberdade de pensamento, Fauzi conta com o apoio de alguns milhares de colaboradores. A maioria deles é branca, de classe média e eleitora do atual presidente.

Intolerância

“Nós já havíamos alertado sobre a proliferação de organizações fascistas no Brasil, inclusive que o Casa Pound (organização fascista italiana) foi recebido pela Frente Integralista Brasileira, pela Accale, pela Nova Resistência e pela Legião Nacional Trabalhista”, acrescenta o perfil Left Wing, no Twitter.

No WhatsApp, na internet profunda (deep web) ou em outras redes sociais, os militantes da extrema-direita reúnem-se e colaboram, financeiramente, para apoiar atos terroristas — a exemplo deste, cometido por Fauzi contra o grupo de humoristas — e disseminar o discurso de ódio e intolerância contra negros, judeus, homossexuais e outros alvos do dogma que defendem.

No vídeo, que o Correio do Brasil se exime da veiculação para não colaborar com as forças de ultradireita, Fauzi afirma que o ataque à produtora não se trata de um ataque terrorista. Foi apenas “um foguinho de m.”… Segundo afirma, “não houve nenhum (sic) dano material, ninguém foi colocado em perigo, e por isso o ato não se caracteriza como criminoso diante da blasfêmia contra Cristo”.

Neoconservador

Organizações nazifascistas reúnem-se, regularmente, em várias regiões do país, e apoiam atos extremistas em solo brasileiro
Organizações nazifascistas reúnem-se, regularmente, em várias regiões do país, e apoiam atos extremistas em solo brasileiro

O criminoso confesso, uma vez na Rússia, em boas condições financeiras para se locomover livremente naquele país; e com amplo respaldo dos veículos de comunicação conservadores, no Brasil, que passam a cobrir cada um de seus passos como se fosse uma celebridade, esteve reunido, na véspera, com o cientista político ultraconservador Aleksandr Dugin. Acontece que o intelectual russo de extrema-direita está na linha de tiro de outro líder dos conservadores brasileiros, o astrólogo Olavo de Carvalho; além de ser um crítico tenaz do presidente Bolsonaro.

Defensor dos movimentos antiglobalistas, Dugin destacou “o papel nefasto da influência intelectual que o escritor neoconservador Olavo de Carvalho exerce sobre a política brasileira” e aponta para a necessidade da constituição “de uma frente de oposição a Bolsonaro”. Logo após o início do atual governo, Dugin sugere que o vetor da oposição, no Brasil, encontra-se ao lado da esquerda brasileira.

Após minha polêmica com Olavo de Carvalho e, hoje, com a vitória do ultraliberal-autoritário Bolsonaro, adquiri uma forte certeza de que, no Brasil, eu apoio a esquerda. “Apesar de você…”, escreveu Dugin, em uma rede social.

Esquerda liberal

Ao perceber, no entanto, que sua posição poderia ser interpretada, erroneamente, como uma apologia às forças liberais e de esquerda (as quais ele coloca entre suas maiores inimigas), Dugin acrescentou, logo em seguida, um esclarecimento quanto às suas posições. Nele, o professor russo aponta para a necessidade de uma união entre esquerda e direita autênticas, ou melhor, para a necessidade de uma frente populista unificada, transcendendo os conceitos de direita e esquerda, sobre o projeto de uma Quarta Teoria Política.

Esta opção, no entanto, ainda não existe. A eleição de Bolsonaro (“o pior da direita”, segundo Dugin) somente foi possível como reação ao “pior da esquerda”, e essa oposição “expressa um elevado grau de adoecimento da sociedade brasileira”, avalia.

Alguns dos meus amigos brasileiros ficaram um pouco incomodados com minha declaração a favor da esquerda brasileira. Talvez eu tenha formulado minha posição de uma maneira genérica demais. Sendo um tradicionalista, sou favorável à esquerda antiliberal e antiglobalista, que luta por justiça social e pela libertação da América Latina da dominação (norte-)americana. Eu realmente odeio ditadores liberais pró-americanos – marionetes do capitalismo”, acrescenta.

“Assim, não tenho qualquer simpatia por Bolsonaro, haja visto que ele se enquadra exatamente nesse perfil. Mas isso não quer dizer que eu apóie a “esquerda” liberal financiada por Soros, com sua agenda sacrílega, anti-religiosa e voltada para questões de gênero. Tudo isso, na verdade, nos mostra a forte necessidade de irmos além da direita e da esquerda o mais rápido possível”, continua.

Direita autêntica

“Se Trump é pragmaticamente ‘bom’ de alguma maneira (ele fratura o establishment norte-americano e o enfraquece), Bolsonaro é absolutamente ruim em todos os sentidos. Ele representa a alienação total. Uma frente anti-Bolsonaro deve começar hoje, e é da maior importância lutar contra ele unindo a esquerda e a direita autênticas, ou melhor ainda, uma oposição populista unida, para além de direita ou esquerda”, indica.

“A Quarta Teoria Política seria a melhor solução, mas se a sociedade escolheu uma pessoa como Bolsonaro, é sinal de que ela está adoecida demais para avançar na direção da Quarta Via. Bolsonaro é o que há de pior na direita: e ele só é possível como protesto contra o que há de pior na esquerda. Precisamos nos unir em torno de outro eixo”, prega o cientista político russo que recebeu o militante integralista, afiliado ao PSL, mesmo partido que Jair Bolsonaro usou para concorrer ao cargo que ocupa. Pesam na ficha corrida de Fauzi outros 15 registros criminais.

Longe de ser uma unanimidade nos movimentos à direita, até o apresentador ultraconservador Boris Casoy, na Rede TV, fez questão de criticar o ‘barriga verde’, como são conhecidos os integralistas brasileiros

— Esse terrorista, pelo linguajar que vomitou em um vídeo, demonstrou ser um radical de uma ignorância astronômica. Além de tudo um covarde, que fugiu pela porta dos fundos — resumiu Casoy, noite passada.

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