Belluzzo: Operação Lava Jato atinge a espinha dorsal da economia brasileira

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Publicado quarta-feira, 4 de julho de 2018 as 16:56, por: CdB

“O juiz Sergio Moro, por exemplo, não tem consciência das consequências da destruição das empresas para os brasileiros que dependiam de seu trabalho para sobreviver. Isso é a marca registrada da sociedade em que vivemos”, afirma Gonzaga Belluzzo.

Por Redação, com Carta Capital – de São Paulo

 

Economista reconhecido no Brasil e no exterior, o também escritor e professor Luiz Gonzaga Belluzzo destaca, em artigo publicado nesta quarta-feira, que um dos resultados da Operação Lava Jato foi causar “graves danos aos funcionários das construtoras e colocar em risco o cabedal técnico que elas acumularam durante anos”. Estas empresas, segundo Belluzzo, “compunham uma indústria que representava a espinha dorsal da economia brasileira”.

Belluzzo aponta a ação dos integrantes da Operação Lava Jato contra a economia nacional
Belluzzo aponta a ação dos integrantes da Operação Lava Jato contra a economia nacional

Neste caso, quem lucrou foram “os ‘especialistas’ da Goldman Sachs”, que apostaram “na desvalorização de seus próprios papéis, carimbados com grau de investimento pelos serviçais das agências de classificação de risco”, diz Belluzzo, na edição da revista Carta Capital, na internet.

Multas

“Na era dos mandos e desmandos da finança, o Departamento de Justiça foi ‘leniente’: cobrou US$ 1,4 bilhão pelas avaliações, digamos, precipitadas. A Securities and Exchange Commission sapecou uma multa de US$ 77 milhões à Standard & Poors, penalidade acompanhada da proibição imposta à agência de avaliar por um ano ‘securities’ lastreadas em empréstimos imobiliários”, afirma.

Ainda segundo o economista, nas “apurações da Lava Jato, os procuradores e juízes não cuidaram de separar a punição das pessoas físicas dos efeitos nefastos derramados sobre as empresas. Não seria excessivo repetir que, nos Estados Unidos, o Departamento de Justiça e a Securities and Exchange Commission aplicaram multas, mas preservaram as empresas”, observa.

“No Brasil, os agentes da lei encarregados de vigiar e punir infligiram graves danos aos funcionários e colocaram em risco o cabedal técnico acumulado ao longo dos anos pelas empresas”, acrescentou.

Infraestrutura

Ainda segundo Belluzzo, “no capitalismo real, a concorrência entre as grandes empresas e as trapaças ideológicas dos mercados financeiros não só arrastam o Estado para a arena dos negócios como também atraem a rivalidade privada para o interior das burocracias públicas com propósito de cooptar cumplicidade, influenciar as formas de regulação e capturar recursos fiscais”.

“É falsa a afirmação: ‘As grandes construtoras e operadoras nos projetos de infraestrutura organizam cartéis para vencer as concorrências”, pontua. E explica.

“A afirmação é falsa por duas razões:

1. Os projetos de infraestrutura em todo o planeta são operados por grandes empresas por conta da existência de economias de escala na construção e na operação.

2. Assim, essas empresas não organizam cartéis, elas são um cartel. Basta passar os olhos nas estruturas de mercado em todos os setores da economia global para perceber que os acordos são constitutivos da concorrência “cartelizada” entre as megaempresas”, enumera.

Confiança

Na passagem de 2014 para 2015, segundo o professor da Faculdade de Campinas ( Facamp), “a economia brasileira resfolegava na desaceleração do exuberante ciclo de crescimento global, episódio que a bafejou com os generosos preços das commodities e as demandas de produtos industriais dos países da América Latina”.

“Os sabichões dos mercados recomendaram um tratamento de choque para ajustar o desequilíbrio fiscal que acompanhou a desaceleração. Em vez de aliviar seus incômodos, os encarregados de “botar ordem na casa” lhe desferiram um choque de juros e cortes desordenados dos gastos de investimento. Isso tudo com o propósito de restaurar a confiança de empresários sem demanda e consumidores sem renda”, escreve.

“Aplaudidos por seu empenho em combater a corrupção, os rapazes de Curitiba entraram de sola nas empresas brasileiras que mantinham contratos com a Petrobras, com as demais empresas públicas e instâncias do governo, desde o âmbito federal até a esfera municipal.

Graves danos

No desenvolvimento das apurações da Lava Jato, os procuradores e juízes não cuidaram de separar a punição das pessoas físicas dos efeitos nefastos derramados sobre as empresas. Não seria excessivo repetir que, nos Estados Unidos, o Departamento de Justiça e a Securities and Exchange Commission aplicaram multas, mas preservaram as empresas”, lembra.

“No Brasil, os agentes da lei encarregados de vigiar e punir infligiram graves danos aos funcionários e colocaram em risco o cabedal técnico acumulado ao longo dos anos pelas empresas”, aponta Belluzzo.

“O juiz Sergio Moro, por exemplo, não tem consciência das consequências da destruição das empresas para os brasileiros que dependiam de seu trabalho para sobreviver. Isso é a marca registrada da sociedade em que vivemos. Tanto Moro quanto os que deflagraram o ajuste fiscal não têm consciência das consequências de seus atos e decisões. Há estudos muito aprofundados sobre o caráter performático da informação econômica e jurídica”, critica.

Automação

Ainda segundo Belluzzo, “no livro And – Phenomenology of the End, o filósofo italiano Franco ‘Bifo’ Berardi descreve a ‘automação psíquica que contamina os indivíduos na sociedade contemporânea. A sociedade de massa envolve os indivíduos nas cadeias automáticas do comportamento, manipuladas por dispositivos técnico-linguísticos’.

“A automação do comportamento de muitos indivíduos afetados e concatenados por interfaces técnico-linguísticas resulta nos efeitos manada. O homem é um animal que molda um ambiente que, por sua vez, molda seu próprio cérebro. O efeito manada é, portanto, o resultado da transformação humana do ambiente tecnológico, o que conduz à automação dos processos mentais”, cita Belluzzo.

Na ‘automação psíquica’ os processos conscientes são substituídos por reações imediatas, simplificadoras e simplistas, quase sempre grosseiras, corpóreas. Nesses soluços de presunção, a consciência inteligente, o pensamento e os próprios sentimentos desempenham um papel modesto”, adiciona.

Nazismo

Convencidos da universalidade do seu particularismo, os indivíduos mutilados executam os processos descritos por Franz Neumann em Behemoth, seu livro clássico sobre o nazismo:

‘Aquilo contra o que os indivíduos nada podem e que os nega é aquilo em que se convertem”, cita.

“O que aparece sob a forma farsista de um conflito entre o bem e o mal está objetivado em estruturas que enclausuram e deformam as subjetividades exaltadas. A indignação individualista e os arroubos moralistas são expressões da impotência que, não raro, se metamorfoseia em desvario autoritário”, conclui o professor.