Bloco das Mulheres Rodadas desfila contra feminicídio e assédio no Rio

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Publicado quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018 as 14:54, por: CdB

O primeiro bloco feminista do carnaval carioca foi para as ruas “rodar e sambar na cara do machismo, racismo e homofobia”, segundo os integrantes

A Quarta-feira de Cinzas amanheceu com chuva no Rio de Janeiro, o que não impediu a saída do bloco das Mulheres Rodadas, que fez seu quarto desfile a partir do Largo do Marchado, na Zona Sul, em direção ao Parque do Flamengo. O primeiro bloco feminista do carnaval carioca foi para as ruas “rodar e sambar na cara do machismo, racismo e homofobia”, segundo os integrantes.

O bloco feminista Mulheres Rodadas saiu no Largo do Machado

Tendo como lema os versos de Doces Bárbaros – Com amor no coração / preparamos a invasão / cheios de felicidade / Entramos na cidade amada – homens e mulheres seguiram com atabaques; sopros e muita purpurina,glitter e flores. Em pernas de pau, mulheres se vestiram de personagens da história, como Dandara, Chiquinha Gonzaga, Rita Lee, Gal Costa, Maria Bonita, Gabriela e Elke Maravilha.

Repertório

No repertório, músicas como Marinheiro só(Clementina de Jesus), Alguém me avisou (Dona Ivone Lara), Ô abre alas (Chiquinha Gonzaga) e Lenda das Sereias (Marisa Monte). Uma das fundadoras do bloco; a jornalista Renata Rodrigues; lembrou; que o bloco foi um dos incentivadores iniciais das campanhas contra o assédio no carnaval; que neste ano reuniu 23 blocos; em sete cidades do Brasil, para extravasar e dizer para a sociedade; que “quem decide sobre o corpo de uma mulher é ela”.

– Antes, as mulheres estavam nos blocos em menor quantidade,. Hoje temos repercussão do que falamos; o que é uma faca dois gumes, porque quanto mais a gente aparece; mais atraí esse tipo de coisa. O problema é que você esbarra em limitações sociais; com muita gente com intolerância muito grande, e problemas do poder público; de não haver políticas de repressão. Mas isso não tem volta, a gente não vai retroceder por causa disso.

Segundo Renata, o limite entre a cantada e o assédio é o “não”. E Não é não, como diz o lema da campanha.

– As mulheres estão mais informadas sobre isso, estão menos tolerantes. Ainda temos muito; o que caminhar em relação a isso. As pessoas fazem muita confusão, ‘é só um elogio’, ‘é só uma cantada’, ‘qual é a diferença entre assédio e cantada’. E nessa suposta confusão, aproveitam para passar de vários limites. Há pouco tempo,foi divulgada uma pesquisa em que a maioria dos homens achava que mulher; que está nas ruas no carnaval não pode reclamar de ser assediada. O que eu acho que melhorou foi o nível de informação e a discussão. Mas para isso ter impacto, mesmo na diminuição do número de casos, ainda vai longo tempo.”

Vestido de noiva, o ator Alê Arruda se preparava para tocar percussão com as Mulheres Rodadas. Ele disse que toca em 14 blocos e está há três com as feministas; contribuindo para a luta contra o machismo estrutural da sociedade brasileira.

– É super importante a poder ajudar nessa causa, divulgar e fazer com que as mulheres tenham os mesmos direitos; nunca menos. Já passou da hora desse momento acontecer e do machismo cair; ruir, desaparecer. Isso é cultural. Então, vira e mexe a gente se pega com um detalhe de machismo aqui e outro ali; mas estamos tentando melhorar dia após dia. Como é coisa cultural, então isso vai demorar muito tempo; mesmo até que as pessoas entendam e a cultura se transforme.

Conscientização

Vestida de Frida Khalo, a enfermeira Niédia Melo dos Santos levou a filha Gabriela; de dois anos e meio, para rodar com as mulheres e aprender sobre a importância de uma sociedade igualitária e sem preconceitos nem intolerâncias.

É a conscientização desde cedo, para ela ver estilo de pessoas, de grupos. Levei para o ato contra a intolerância religiosa também. Sei que ela não entende ainda, mas é para ir participando; e aos poucos entender a complexidade da nossa sociedade e das pessoas”.

Niédia diz que não percebeu a diminuição do assédio, na prática; mas acha as mulheres estão mais conscientes sobre o problema. “É uma conscientização que tenho percebido por parte das mulheres. Os homens ainda estão bem resistentes; tentam questionar o porquê desse movimento, acham exagerado. E a gente vai no dia a dia tentando abrir e expandir a ideia também; para os homens; para chegar junto, não afastar e tentar ter a mesma ideia de sociedade igualitária”.

Homenagem

O Bloco das Mulheres Rodadas saiu mais triste este ano. Em setembro, a integrante Márcia Benevides, que tinha se juntado ao grupo em 2017 e estava participando das oficinas de percussão para aprender a tocar agogô; foi assassinada pelo ex-companheiro, em uma briga, durante o processo de separação. “Para nós é muito chocante, porque é uma de nós. Uma de nós foi morta, ela estaria aqui hoje; disse Renata, emocionada, explicando que a primeira música do cortejo;  Folhas secas, de Nelson Cavaquinho, foi uma homenagem a Márcia, que era mangueirense.

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