Bolsonaro aposta na radicalização do Brasil, avalia especialista

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Publicado quinta-feira, 14 de novembro de 2019 as 15:49, por: CdB

Vice-presidente de estudos do think tank Carnegie Endowment for International Peace, Thomas Carothers afirma que o Brasil evitou a polarização severa nas primeira décadas após a democratização.

 

Por Redação, com DW – de Berlim

 

Especialista em polarização política afirma que presidente está inflamando divisões ideológicas e culturais existentes no país. Na outra ponta do espectro político, Lula só terá sucesso se priorizar alianças, diz.

— Ausência de polarização é ruim, alguma polarização é normal, mas excesso também é ruim — afirma o advogado norte-americano Thomas Carothers, especialista em democracia e governança que acaba de lançar o livro Democracies Divided: The Global Challenge of Political Polarization (Democracias Divididas: O Desafio Global da Polarização Política, em tradução livre).

Thomas Carothers aponta para o risco do uso de redes sociais no processo de disseminação do ódio, na sociedade brasileira
Thomas Carothers aponta para o risco do uso de redes sociais no processo de disseminação do ódio, na sociedade brasileira

Vice-presidente de estudos do think tank Carnegie Endowment for International Peace, ele afirma que o Brasil evitou a polarização severa nas primeira décadas após a democratização. Mas o cenário mudou quando escândalos de corrupção afastaram os eleitores das forças políticas tradicionais e abriram caminho para Jair Bolsonaro chegar ao poder. Carothers descreve o atual presidente como um “demagogo” com potencial para “polarizar o país de forma não vista anteriormente”.

Ódio

Em entrevista à agência alemã de notícias DW Brasil, ele afirma que, ao longo dessa mudança de cenário na política brasileira, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva perdeu popularidade aos olhos de parcela dos brasileiros e, agora livre da prisão, só terá sucesso político se construir uma “coalizão ampla” em vez de contar somente com os seguidores de seu núcleo tradicional.

Preocupado com o aumento de casos de polarização severa, fenômeno em que lados antagônicos ficam tão distantes que sobra pouco terreno em comum e se tornam grupos identitários, Carothers aponta como elementos aceleradores dessa dinâmica as redes sociais e, em alguns casos, a desigualdade social.

“Quando a política se torna um confronto de identidades, as pessoas de um lado olham para o outro lado e deixam de dizer apenas ‘eu não concordo com você nisso’, mas dizem ‘eu sou diferente de você’. Isso rapidamente se transforma em ‘eu não gosto de você’, e logo depois em ‘na verdade, eu te odeio’”, diz.

Partidos

O especialista afirma não ter respostas prontas para reduzir a polarização severa. Um possível caminho, diz, são movimentos criados para construir espaços de convergência, citando a Bridge Alliance, nos Estados Unidos, que tenta reverter o antagonismo na sociedade americana.

Sobre o grau de polarização ser positivo, ou negativo, às democracias, Carothers afirma ser “importante que os cidadãos tenham opções políticas diferentes, e normal que os partidos apresentem programas distintos”.

— Isso pode envolver diferenças significativas em termos de ideologia. Só quando a separação entre os diferentes lados políticos se torna muito ampla e intensa é que ocorrem problemas — acrescentou.

Grupo identitário

O especialista define quatro características na polarização severa.

— Em primeiro lugar, os dois lados se separaram a uma distância tão grande que dividem pouca base em comum. Além disso, essa divisão prevalece sobre posições que as pessoas dos dois grupos possam ter em comum. Ela se ramifica da elite da sociedade para as massas. E é uma polarização sustentada, ao longo do tempo, e não em apenas um episódio — enumera.

Na polarização severa, acrescenta o entrevistado da DW, “a política se torna um confronto de identidades em vez de um confronto sobre preferências de políticas públicas”.

— Em uma sociedade assim, os dois lados se veem como um grupo identitário, e as opiniões das pessoas sobre os assuntos são formadas pelo grupo, em vez do contrário — sublinha.

Ele também repara que a polarização severa está crescendo ao redor do mundo.

— Há, certamente, um aumento, mas ele não é abrupto, tem ocorrido ao longo dos últimos 20 anos. Com o surgimento da política de polarização à esquerda na América Latina, o novo nacionalismo religioso na Índia, a polarização no Oriente Médio, tanto na política israelense como na palestina, a polarização se intensificando firmemente nos Estados Unidos, e agora a preocupação sobre polarização severa na Europa — aponta.

Mídias sociais

Entre os fatores da polarização; além da etnia, religião e ideologia, segundo Carothers, há os problemas econômicos.

— Sobretudo, o aumento da desigualdade e da exclusão. (Tais fatores) estimularam a polarização em alguns lugares, como na América Latina. Mas nem toda polarização resulta de estagnação ou declínio econômico. A Turquia, por exemplo, se polarizou bastante durante os anos de seu maior sucesso econômico — lembra.

Ainda segundo Carothers, “o desenvolvimento de mídias sociais claramente tem um papel e acelera esses processos”.

— Mídias sociais permitem que líderes polarizadores falem diretamente aos seus seguidores, e os encorajam a usar mensagens simplistas e carregadas de emoção. Mídias sociais também permitem que cidadãos entrem em bolhas de informação nas quais eles aprendem pouco sobre outros pontos de vista. E elas encorajam os cidadãos a clicarem em artigos que estão mais próximos dos extremos políticos do que do centro. E, claro, mídias sociais são terreno fértil para desinformação e manipulação da informação com objetivos extremistas — concluiu.

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