Bolsonaro aplica ‘drible da vaca’ no Supremo ao colocar amigo na PF

Arquivado em: Política, Últimas Notícias
Publicado segunda-feira, 4 de maio de 2020 as 13:54, por: CdB

O ministro da Corte Suprema via risco de interferência do chefe do Executivo em inquéritos na Polícia Federal (PF) sobre possíveis atividades criminosas de seus familiares. Por isso, nomeou nesta segunda-feira o delegado Rolando Alexandre de Souza como novo diretor-geral da Polícia Federal.

Por Redação – de Brasília

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) aplicou o ‘drible da vaca’ e contornou determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo o Dicionário Informal, trata-se do drible em que o jogador engana o seu oponente “de forma que ele passe por um lado e a bola por outro lado”.

Rolando de Souza (D) assume a direção-geral da PF, após a posse-relâmpago ocorrida no Palácio do Planalto
Rolando de Souza (D) assume a direção-geral da PF, após a posse-relâmpago ocorrida no Palácio do Planalto

O ministro da Corte Suprema via risco de interferência do chefe do Executivo em inquéritos na Polícia Federal (PF) sobre possíveis atividades criminosas de seus familiares. Por isso, nomeou nesta segunda-feira o delegado Rolando Alexandre de Souza como novo diretor-geral da Polícia Federal.

Ocorre, no entanto, que Souza é o braço direito de Alexandre Ramagem, o delegado da PF e chefe da Agência Brasileira de Informações (Abin) bloqueado para a chefia da PF pela liminar concedida por Moraes, na tentativa de evitar o que denunciou o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro ao deixar o cargo, na semana passada. Moro apresentou provas, em seu depoimento, de que Bolsonaro objetiva controlar a polícia judiciária do país, em benefício próprio e de seus filhos.

Nomeação

O ato foi publicado em edição extra do Diário Oficial da União, nesta segunda-feira. Souza era diretor de Planejamento da Abin, o número três da agência, mas um dos principais assessores de Ramagem, que o nomeou para o cargo em setembro do ano passado.

Depois de ter tido sua nomeação barrada por liminar do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo, Ramagem participou diretamente da indicação do novo diretor-geral. A intenção de Bolsonaro, já declarada publicamente, era de indicar novamente Ramagem para o posto. No entanto, uma nova nomeação poderia ser vista como descumprimento de determinação legal — o que seria crime de responsabilidade. Além disso, uma nova ação contra a indicação cairia novamente com Moraes, o que deveria levar a um mesmo resultado.

Bolsonaro ainda não desistiu da nomeação de Ramagem. Mas o presidente não queria deixar a direção-geral do órgão por muito tempo nas mãos da equipe anterior, montada pelo ex-diretor Maurício Valeixo e o ex-ministro Moro. O inquérito contra Bolsonaro ganha velocidade no STF, sob o comando do ministro Celso de Mello, decano da Corte Suprema.

Rondônia

Com a derrubada da nomeação de Ramagem, estava à frente da PF Disney Rossetti, ex-número dois de Valeixo. Rossetti chegou a ser indicado para assumir a PF por Moro, quando ficou claro que Bolsonaro exigiria a troca do diretor-geral.

Segundo o próprio ex-ministro, ele chegou a indicar Rossetti para que não houvesse uma quebra de continuidade, apesar de afirmar que não conhecia bem o delegado. O presidente negou. A saída de Valeixo e a determinação de Bolsonaro de indicar um nome seu para a PF levaram à demissão do ex-ministro da Justiça, que acusou o presidente de interferência política.

Souza foi chefe do núcleo de operações da PF em Rondônia e corregedor do órgão no mesmo Estado, onde conheceu Ramagem, então superintendente da PF. Também foi chefe do Serviço de Repressão a Desvio de Recursos Públicos da PF, em Brasília, e superintendente em Alagoas, onde estava até setembro, quando foi chamado por Ramagem para a Abin.