Bolsonaro enfrenta momentos difíceis agora, com a derrota de Trump, dizem analistas

Arquivado em: Brasil, Destaque do Dia, Últimas Notícias
Publicado sábado, 7 de novembro de 2020 as 15:50, por: CdB

Sem um dos únicos aliados, no mundo — ainda que não tenha trazido qualquer benefício econômico ou político ao país —, o ex-militar Jair Bolsonaro (sem partido), que chegou ao poder sob uma onda de notícias falsas, tende a experimentar dois anos difíceis, doravante.

Por Redação, com Sputnik Brasil – do Rio de Janeiro

Ainda sob o impacto da derrota de Donald Trump, o presidente dos EUA que não conseguiu a reeleição, o mandatário Jair Bolsonaro (sem partido) não teve tempo para calcular o estrago produzido na própria tentativa de se manter no Palácio do Planalto, a partir de 2022. Sem um dos únicos aliados, no mundo — ainda que não tenha trazido qualquer benefício econômico ou político ao país —, o ex-militar que chegou ao poder sob uma onda de notícias falsas tende a experimentar dois anos difíceis, doravante.

Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro (sem partido) ainda não cumprimentou o presidente eleito dos EUA, Joe Biden, ainda sob o impacto da derrota de seu aliado Donald Trump

Esta é a expectativa de analistas em política internacional ouvidos pela agência russa de notícias Sputnik Brasil. Entre eles, o professor e pesquisador do Cefet-RJ Alessandro Biazzi Couto, para quem a mudança de governo nos EUA “pode se traduzir em um isolamento ainda maior do Brasil” no cenário internacional. Couto especifica, principalmente, a questão ambiental. 

Isolamento

Neste sábado, o candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, Joe Biden, derrotou o rival republicano, Donald Trump, segundo a projeção da agência Associated Press e demais veículos da mídia norte-americana.

Para Alessandro Couto, o atual alinhamento brasileiro aos EUA é uma questão de afinidade ideológica entre os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump, mais do que políticas de Estado. Por isso, a saída do republicano da Casa Branca pode prejudicar o governo brasileiro e afastar os EUA de seu aliado na América do Sul.

— O alinhamento com os Estados Unidos nesse período esteve vinculado diretamente às ações de Trump. Logo, a mudança pode se traduzir em um isolamento ainda maior do governo brasileiro, tanto nas pautas de gênero, sexualidade e proteção do meio ambiente, quanto em relação ao conflito Israel-Palestina. A tendência é de que os democratas revisem em grande medida a posição isolacionista adotada por Trump e, com isso, as relações com o presidente do Brasil — calcula Biazzi.

Abertura

Ainda segundo o especialista, mesmo quando era candidato, Bolsonaro, “de forma inédita na política externa brasileira, estabeleceu um vínculo pessoal, ideológico e até familiar com a administração Trump e segmentos da  extrema-direita conservadora e militarista dos Estados Unidos”.

Na outra ponta, Couto afirma que as negociações para a entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e as vantagens econômicas que a aproximação com os EUA poderia trazer foram “bastante limitadas, mesmo no governo Trump”. Além disso, Biazzi diz que a administração democrata pode exigir uma “abertura ainda maior do mercado brasileiro”.

— Acredito que uma administração democrata, além de buscar uma proteção de segmentos sensíveis da economia estadunidense, vincule possíveis avanços na pauta comercial com o Brasil a um maior comprometimento com a proteção da Amazônia e do meio ambiente, como parte dos países Europeus adotaram recentemente no acordo com o Mercosul, ou mesmo exija uma abertura ainda maior do mercado brasileiro, no setor industrial e de serviços, como era proposto na ALCA — refletiu.

‘Estado pária’

O professor diz que Biden “já sinalizou uma posição crítica sobre a política ambiental brasileira, de forma similar a líderes europeus”.

— Sem o ponto de apoio da administração conservadora dos Estados Unidos, o governo brasileiro ficaria ainda mais isolado no tema ambiental, quase que como um Estado pária. Haveria uma perda ainda maior do prestígio, credibilidade e influência construídos no passado recente, por exemplo, na liderança brasileira na participação das COPs, no âmbito do G-20 e na organização da RIO+20 em 2012 — afirmou.

Para outro especialista, o doutor em Ciências Políticas pela Unicamp Pedro Vasques, a administração democrata deverá “recuperar o protagonismo dos Estados Unidos nas arenas multilaterais marginalizadas pelo governo Trump”, o que pode forçar os EUA a agirem na temática ambiental.

— Mesmo caso Biden se distancie dessa agenda ao longo de sua administração, ele deverá ser pressionado em várias frentes, que incluem desde representantes de seu partido até os atuantes movimentos ambientalistas, compelindo-o a agir em favor da temática ambiental — resumiu o pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-Ineu).