Bolsonaro tenta se descolar de denúncia do ex-ministro Sérgio Moro

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Publicado quarta-feira, 13 de maio de 2020 as 14:26, por: CdB

Diante da ameaça real de ser afastado da Presidência da República, caso a Procuradoria-Geral da República (PGR) aceite a denúncia e o Congresso a autorize a investigação, Jair Bolsonaro (sem partido) busca negar ameaça de demissão do ex-ministro Sérgio Moro.

Por Redação – de Brasília

Na tentativa de se adiantar à possível divulgação do vídeo, na íntegra, em que palavrões, ameaças e bravatas dominam uma reunião ministerial, em 22 de abril, na qual o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) trata do que diz ser a segurança da sua família no Rio de Janeiro, o mandatário afirmou, no portão do Palácio da Alvorada, nesta quarta-feira, que poderá publicar uma parte da gravação. Perguntado por jornalistas se poderia divulgar o vídeo, Bolsonaro disse que iria levar a “sugestão” ao advogado-geral da União, José Levi.

Bolsonaro encontra-se cada vez mais premido pelas exigências do Judiciário
Bolsonaro encontra-se cada vez mais premido pelas exigências do Judiciário e corre o risco de ser afastado do cargo

— Por mim, eu divulgo. Se eu não me engano, o Celso de Mello (na véspera) oficiou o advogado do Moro, a AGU e a Justiça exatamente para ver se a gente entra nessa linha para divulgar, mesmo com os palavrões que eu falo sempre — disse o presidente a jornalistas ao deixar o Palácio da Alvorada.

Bolsonaro alega que não falou as palavras “Polícia Federal”, “superintendência” e “investigação” na reunião gravada em vídeo, e sim tratou dos riscos e a necessidade de melhorar a segurança dos filhos no Rio. Esta reunião ministerial foi citada pelo ex-ministro da Justiça Sergio Moro no depoimento que deu no âmbito do inquérito aberto, cujo relator é o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), para investigar as acusações feitas por Moro ao anunciar que pediu demissão do cargo de que Bolsonaro tentou interferir politicamente na Polícia Federal.

Documento

Ainda na saída do Alvorada, o presidente afirmou que o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, “se equivocou” ao falar em depoimento que ele teria citado a Polícia Federal ao cobrar relatórios de inteligência de diversos órgãos durante reunião ministerial do mês passado que está no centro de um inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF).

— O Ramos se equivocou. Mas como é reunião, eu tenho o vídeo. O Ramos, se ele falou isso, se equivocou — afirmou o mandatário.

Em seu depoimento, Ramos disse que por várias ocasiões Bolsonaro reclamou da velocidade e da qualidade dos relatórios que recebia do Serviço Brasileiro de Inteligência — que inclui a PF e a Abin, de acordo com documento a que a agência inglesa de notícias Reuters teve acesso.

Ramos disse ainda que, na reunião de 22 de abril, Bolsonaro cobrou todos os ministros e disse:

— Vocês precisam estar comigo.

De acordo com o chefe da Secretaria de Governo, o presidente citou, a título de exemplo, que se estivesse insatisfeito com sua segurança pessoal no Rio de Janeiro trocaria o chefe responsável por ela e, se não resolvesse, trocaria o ministro, olhando neste momento em direção a Heleno, que estaria sentado do lado oposto de Moro.

Segurança

A reunião ministerial do dia 22 de abril foi citada pelo ex-ministro Moro no depoimento que deu no âmbito do inquérito aberto, cujo relator é o ministro Celso de Mello, do STF, para investigar as acusações feitas por ele ao anunciar sua demissão do cargo de que Bolsonaro tentou interferir politicamente na Polícia Federal.

Nesta quarta-feira, Bolsonaro reafirmou que não tratou de troca na Polícia Federal ou de investigações.

— Eu falo sobre segurança da minha família e dos meus amigos. Eu não falei o nome dele no vídeo. Não existe a palavra Sergio Moro. Eu cobrei a minha segurança pessoal no Rio de Janeiro. A PF não faz minha segurança pessoal, quem faz é o GSI… Quem trata de segurança? O ministro é o Heleno — desconversou.

Perguntado diretamente se então cogitou a demissão de Heleno, um de seus ministros mais próximos, Bolsonaro disse que não iria entrar em detalhes.

— Quem faz a minha segurança é ele. O vídeo está bem claro, a reunião está clara — acrescentou.

Moro

O presidente acrescentou ainda que decidiu não fazer mais reuniões semanais do Conselho de Ministros, como ocorria todas as terças-feiras. Daqui para a frente, disse, será um encontro mensal, um café da manhã de confraternização depois do hasteamento da bandeira do Brasil em frente ao Alvorada.

Em linha com a afirmação do superior imediato, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, afirmou que o presidente Jair Bolsonaro disse na reunião ministerial do dia 22 de abril que, se sua segurança pessoal estivesse falha, “tentaria trocá-la” e que, “se não conseguisse, trocaria o chefe podendo chegar ao diretor e até o ministro”.

No depoimento de Heleno não há nenhuma menção expressa a eventual troca na Superintendência da Polícia Federal do Rio de Janeiro, conforme havia alegado o ex-ministro da Justiça Sergio Moro.

Moro acusa Bolsonaro de ter cobrado naquela reunião a troca do superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, sob ameaça de sua demissão assim como a do então diretor-geral da PF, Maurício Valeixo.