Bolsonaro usa Pazuello como escudo, no escândalo da Covaxin

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Publicado quinta-feira, 24 de junho de 2021 as 14:13, por: CdB

Pazuello e Bolsonaro reuniram-se, na noite passada, para combinar o discurso que, na manhã desta quinta-feira, chegou à imprensa. O encontro não constava na agenda oficial do presidente, que o convocou logo após a entrevista do servidor Luís Ricardo Miranda e seu irmão, o deputado federal Luís Miranda.

Por Redação – de Brasília

A compra de vacinas indianas a preços muito acima daqueles praticados, no país, denunciada ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) por um funcionário do Ministério da Saúde como um ato suspeito, foi comunicada ao então ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello. Essa é a nova versão do Palácio do Planalto, na tentativa de eximir o mandatário da acusação de prevaricar, o que poderia lhe custar o mandato.

O general Eduardo Pazuello foi citado por Bolsonaro, no escândalo da vacina indiana Covaxin

Pazuello e Bolsonaro reuniram-se, na noite passada, para combinar o discurso que, na manhã desta quinta-feira, chegou à imprensa. O encontro não constava na agenda oficial do presidente, que o convocou logo após a entrevista do servidor Luís Ricardo Miranda e seu irmão, o deputado federal Luís Miranda, à mídia conservadora. Ambos disseram sofrer pressões de dentro do governo para a importação da Covaxin e que haviam levado as informações sobre supostas irregularidades a presidente, quando Pazuello ainda comandava o Ministério da Saúde.

Esquema

O escândalo que eclode no Palácio do Planalto envolve negociações do governo Jair Bolsonaro para aquisição da vacina indiana Covaxin e coloca o presidente, pela primeira vez, no foco central da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid.

— Acabamos de encontrar um esquema corrupto no âmbito do Ministério da Saúde para a aquisição de uma vacina que não tinha eficácia comprovada e estava condenada pela Anvisa. No ápice de uma segunda onda, o governo se omite em relação a algumas vacinas e adquire uma totalmente temerária. Inclusive com indícios dessa empresa Madison Biotech, de que é lavagem de dinheiro esculpida — disse o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da comissão, à TV Senado.

A empresa receberia US$ 45 milhões adiantados pela compra da vacina da Índia, indicada pela Precisa Medicamentos. O valor envolvido na transação com o governo é de quase R$ 1,6 bilhão. O deputado Luís Miranda (DEM-DF) afirmou aos jornalistas ter apresentado a Bolsonaro “provas contundentes” de irregularidades na compra da vacina indiana. Também disse ter avisado o ministro Onyx Lorenzoni, da Secretaria-Geral da Presidência da República, e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).

— O próprio presidente da República estava diretamente envolvido na operação, por ter mandado mensagens e telefonado ao primeiro-ministro da Índia — afirmou o senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI.

Corrupção

Ainda segundo o senador Rodrigues, “se formos aprofundar, acaba sendo inevitável a prorrogação da CPI”. Ele afirmou que o colegiado está entrando na terceira fase, com a necessidade de apurar crimes de corrupção ativa e passiva. Oposicionistas e independentes se reuniram nesta quarta-feira com técnicos da Polícia Federal, Tribunal de Contas da União, Receita Federal e Banco Central para detalhar os sigilos que já estão chegando à CPI, como o do ex-chanceler Ernesto Araújo.

O empresário Francisco Emerson Maximiano, sócio-administrador da Precisa Medicamentos (suspeita de ser intermediária nas negociações pela Covaxin) também teve sigilos telemático e telefônico quebrados. O depoimento do empresário estava previsto para esta quarta (23), mas foi adiado, porque ele alegou estar de quarentena após retornar de viagem à Índia.

A CPI também pediu ao Ministério da Saúde a documentação sobre o contrato relativo à compra da vacina, produzida pelo laboratório Bharat Biotech. Além disso, a comissão está quebrando os sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático do tenente-coronel Alex Lial Marinho. O militar era assessor de Logística durante a gestão do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Ele coordenava aquisições de insumos para a pasta e era chefe do servidor que reportou ao Ministério Público ter sofrido pressões para fechar a compra da Covaxin.

Investigação

Inicialmente citando a Bíblia e com semblante furioso, o ministro Onyx Lorenzoni concedeu entrevista coletiva no início da noite passada, garantindo que o governo não gastou “um centavo” na aquisição da vacina. Lorenzoni prometeu um “procedimento administrativo disciplinar junto à Controladoria Geral da União (CGU) para investigar a conduta do servidor”, em referência ao irmão do deputado Luis Miranda, Luis Ricardo Fernandes Miranda.

— Quero alertar o deputado que o que foi feito hoje é, no mínimo, denúncia caluniosa. E isso é crime — afirmou o ministro.

Onyx acrescentou que Bolsonaro mandou a PF investigar a fala de Miranda e que o governo vai pedir à PGR a abertura de investigação do parlamentar e seu irmão, que devem depor na CPI na sexta-feira.

No Twitter, Randolfe Rodrigues apresentou fac-símile da “nota de empenho” do Departamento de Logística da Saúde, no valor de R$ 1,614 bilhão, em favor da Precisa Medicamentos, para pagamento das doses da vacina Covaxin.

— Só não houve pagamento porque o servidor denunciou. Já estava tudo pronto! — resumiu o senador.

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