Boulos avança na corrida pela prefeitura da maior capital do país

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Publicado quinta-feira, 26 de novembro de 2020 as 14:54, por: CdB

Enquanto Boulos cresce entre os indecisos e começa a reverter votos no campo conservador, Covas estacionou em um limite perigoso para seus planos de permanecer à frente da maior cidade do país.

Por Redação – de São Paulo

A pesquisa XP/Ipespe divulgada nesta quinta-feira encheu o comitê do candidato Guilherme Boulos (PSOL) à prefeitura de São Paulo de otimismo, enquanto caiu feito um balde de água fria na campanha de seu opositor, o prefeito Bruno Covas (PSDB), que concorre à reeleição. Segundo o estudo, Boulos e Covas chegaram a um empate técnico, no limite da margem de erro. Boulos passou de 32% a 41%, enquanto Covas permaneceu estável em 48%. Como a margem de erro é de 3,5 pontos percentuais, ambos seguem empatados em 44,5%.

Guilherme Boulos (PSOL) discursa após a fala do ex-ministro Amaral (E), antecedido por Saturnino Braga
Guilherme Boulos (PSOL) discursa após a fala do ex-ministro Amaral (E), antecedido por Saturnino Braga, ex-prefeito do Rio de Janeiro, em recente encontro

Enquanto Boulos cresce entre os indecisos e começa a reverter votos no campo conservador, Covas estacionou em um limite perigoso para seus planos de permanecer à frente da maior cidade do país. O tucano deu sinais de que percebeu o risco e acusou o desespero ao patrocinar anúncios na internet para esconder o seu candidato a vice-prefeito, Ricardo Nunes, acusado de agressão à mulher. Covas também concordou em pagar o auxílio-emergencial proposto por Eduardo Suplicy, do PT, às vésperas das eleições.

Diante do desempenho de Boulos na corrida eleitoral, o ex-ministro Roberto Amaral, em artigo divulgado nesta manhã sob o título São Paulo pode ditar a nova política brasileira, observa que “comentaristas da política do dia a dia, anunciados como expertos em análises de campanhas eleitorais, e por isso mesmo muito presentes nos grandes meios, redescobriram a ‘matemática frívola’ a que se referia Roberto Campos nos seus tempos  de mago, para, a partir de números, percentagens e cálculos engenhosos, modas médias e medianas, demonstrar vitórias e derrotadas políticas somando laranja com banana”.

Siglas sem caráter

“Assim, medem o desempenho das diversas siglas (mediante escolhas não aleatórias) segundo o percentual  de prefeituras conquistadas ou vereadores eleitos, e a partir desses números apurados estabelecem o ranking partidário brasileiro, e anunciam, em cima deles,  os vários matizes pelos quais passará a ser desenhado o corpo eleitoral, como se o amontoado de siglas sem caráter, que é o nosso sistema partidário,  anunciasse algum sentido político ou ideológico”, acrescentou.

Ainda no artigo, Roberto Amaral ressalta que, “segundo o modelo desses comentaristas, o vereador Eduardo Suplicy (o mais bem votado em São Paulo e no Brasil) e seu colega de Borá (pequeno município no interior paulista) pertencem ao mesmo conjunto, e assim, são somados. São, apenas, dois vereadores. Um número. Se nos voltarmos para outras estatísticas, a dos prefeitos eleitos, a deformação de novo saltará à vista”.

“São igualmente prefeitos — portanto podendo ser igualmente somados, divididos e transformados em percentuais estatísticos — ao mesmo tempo, o prefeito eleito de Granjeiro, no Ceará, cidade com 5.265 eleitores,  e o prefeito a ser eleito no próximo dia 29 em Fortaleza, com 1.782.925 eleitores. Ou seja, os “especialistas” somam alhos com bugalhos, o que dá boa rima, mas não é uma solução.

Bolsonarismo

Amaral lembra que “a metodologia aritmética não dispõe de sismógrafos, para, por exemplo, medir a potência política que em si significou a ida de Guilherme Boulos para o segundo turno paulistano, e muito menos saberá identificar a diferença nada sutil entre as candidaturas de Marília Arraes (PT) e João Campos (PSB) no Recife, que deve retornar ao campo  da esquerda, nada obstante os equívocos do PCdoB. Assim se revela inútil  a pura arquitetura dos números, se pretendemos tomar o pulso do processo político-ideológico”.

“Noves fora as elucubrações aritméticas, a política nos diz que o primeiro turno conformou (independentemente do desenho partidário) três blocos: a grande esquerda (compreendendo também a centro-esquerda), a direita (desapartada do bolsonarismo) e a extrema-direita (cuja melhor ilustração é o bolsonarismo). O chamado “centrão”, que não tem autonomia ideológica, é uma fração de negócios,  importante sem dúvida, da direita, mas nada além disso. É, fundamentalmente, sua milícia congressual, alimentada pelas tetas da república. O centro, como conhecido até as eleições de 2018, com elas sucumbiu, e ainda não ressuscitou, nada obstante o ingente esforço de manipulação da grande imprensa”, analisa.

Segundo turno

O ex-ministro da Ciência e Tecnologia no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acrescente que, “apurado e assimilado o primeiro turno, após as eleições de Belo Horizonte e Salvador (trágicas para as esquerdas, particularmente para o PT), o que definirá a real ossatura dos partidos e os horizontes do processo político, daqui em diante, são as eleições em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife, Fortaleza e Belém, que reúnem 18.816.243 eleitores os quais (dados de 2017) representam, mais de 20% do PIB nacional.

“O que seremos politicamente, portanto, só estará escrito a partir do dia 29, com esses resultados, mas, principalmente, com o resultado das eleições paulistanas, decisivas para o futuro imediato da esquerda e das forças democráticas de um modo geral. Ouso afirmar que o fato político mais importante desde a posse do capitão desvairado foi a ida de Guilherme Boulos e Luiza Erundina (PSOL) ao segundo turno em São Paulo”, observa.

“Não se trata, tão-só, de apreciar a vitória dessa dupla inexcedível, mas de compreender a resolução pedagógica do eleitorado da mais importante capital do país, realizando, nas ruas e nas urnas, a grande frente política democrática que as direções partidárias, burocratizadas, não souberam levar a cabo”.

Para concluir, Amaral acentua que “o fato sociológico-político já se deu, e vai produzir os desdobramentos que a ação coletiva e as contingências construirão. Mas ele pode ir muito adiante, porque, se o bom desempenho de Boulos já é uma conquista dada, a eleição no dia 30 é uma possibilidade que não pode ser descartada; ao contrário: nela devemos investir com todas as forças”.