Boulos conta com o apoio de Lula mas ainda precisa convencer PSOL

Arquivado em: Brasil, Política
Publicado segunda-feira, 5 de março de 2018 as 18:32, por: CdB

Proximidade entre líder nas intenções de voto e nome apoiado por movimentos sociais gera conflitos. É o caso entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Guilherme Boulos, coordenador do Movimentos dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

 

Por Redação – do Rio de Janeiro e São Paulo

A recente manifestação de apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao dirigente do PSOL e coordenador do Movimentos dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) Guilherme Boulos tem gerado uma onda de aplausos em parcela da esquerda brasileira, mas uma série de embates políticos nas duas legendas. Prestes a ter o pedido de prisão decretado no Tribunal Regional Federal da Quarta Região (TRF-IV) e sob o risco de perder a condição civil para se candidatar a um cargo público, Lula insiste na tese de que concorrerá à terceira reeleição. Mas o simples elogio a Boulos e, anteriormente, à deputada Manuela D’Ávila (PCdoB-RS), tem sido suficiente para gerar um novelo de conjecturas

Líder do MTST, Guilherme Boulos têm realizado atos de protesto contra o golpe imposto ao país

Para o articulista do Correio do Brasil Val Carvalho, “o vídeo de Lula manifestando admiração e solidariedade à candidatura de Boulos enlouqueceu, literalmente, a base psolista. Totalmente alienados da realidade do Brasil e do golpe contra a democracia, os setores psolistas mais estreitos querem fazer nas próximas eleições uma espécie de ajuste de conta final com o PT”.

“Gritam contra Boulos e o ‘Fora Lula do PSOL’, como se Boulos fosse realmente se incomodar com isso. Ao se abrir para um nome da base popular, mas politicamente amplo, como Boulos, grande parte do PSOL está procurando dialogar com o povo em geral. E não apenas tentar representar setores identitários que, sozinhos e separados, não conseguem mudar a realidade nacional. Vamos esperar os próximos capítulos dessa novela que quase sempre termina em mais um racha na esquerda”, escreveu Val Carvalho.

Esquerda combativa

Candidato a uma cadeira no Senado e fundador do PSOL, o jornalista Milton Temer é uma das vezes dissonantes na orquestra de apoio a Boulos. Em uma rede social, Temer se confessou “perplexo” com o anúncio da pré-candidatura de Boulos.

“Chegado a esta altura da vida, não acreditava na hipótese de ver algo novo nos métodos de fazer política institucional”, disse.

E acrescenta:

“Pois me surpreendi nessa noite de sábado ao tomar conhecimento, via seção política de blogs dos principais jornalões do Rio e São Paulo, que meu camarada e amigo Guilherme Boulos já estaria lançado pré-candidato à Presidência da República pelo PSOL. Com Sonia Guajajara ocupando a vice da chapa. Numa instância partidária? Não. Numa assembleia odara, aberta a quem bem aprouvesse lá estar, a despeito de ter, ou não, compromisso com as propostas de governo de uma esquerda combativa, e avessa à conciliação pactuada com o grande capital.

Solidariedade

“E, mais impactante, num lançamento autorizado e abençoado por Luiz Inácio Lula da Silva, suposto concorrente, que teria dado a Boulos, não de corpo presente, mas, em vídeo disponível no YouTube, o aval que já havia concedido também à candidata do PCdoB (Manuela D’Avila) que, certamente, vai mesmo é apoiar Lula, caso sua inscrição se confirme.

“O vídeo revela o maquiavelismo lulista. Avaliza a candidatura como mais um instrumento na luta contra o ataque a que a democracia estaria sendo submetida, promovido por um conjunto de agentes; mas omitindo o mais ativo e desprezível. Omitindo o atual ocupante golpista do Palácio do Planalto, que o golpeou através do impeachment de Dilma e da denúncia de obstrução da Justiça quando ela o indicou para a Casa Civil. E a quem, recentemente, dedicou uma insólita solidariedade.

Avaliza a candidatura, enfim, com o ar paternalista de quem aceita linhas auxiliares à sua própria campanha; que mantém acesa, proibindo que se cogite de plano B.

Carnaval

“Vocês podem subir no meu palanque, como eu subirei no de vocês’. Minimizando-as.

“Não ‘criminalizo’ Boulos pela decisão. Mais grave do que o ‘crime’, na vida política, é o erro. Mas critico os experientes quadros partidários que, eventualmente, tenham comparecido ao ato (não quais, pois não são citados nas reportagens) por não brecarem a apresentação. Por não evitarem o erro. 

“Boulos agiu de forma coerente com sua tradição movimentista, de assembleias abertas, plurais e não definidas ideologicamente. Assim se construiu como ente público de expressão nacional. Os quadros partidários é que deveriam atentar para a inoportunidade do passo que estava sendo dado; até por respeito aos demais pré-candidatos que vêm percorrendo as instâncias estaduais do Partido.

Sobre desdobramentos, não vou comentar. Em clima de grandes nomes, cito o imprescindível Chico, “vou me guardando para quando o carnaval da campanha eleitoral chegar”.

Militante do PT

Temer comenta, ainda, o discurso de Boulos na Conferência Cidadã ocorrido neste fim de semana. Após elogiar o tom “incisivo e politizado” do pre-candidato do PSOL, o jornalista afirma que o fato não o impede de “manter a crítica quanto à inoportunidade e a essência do vídeo com a intervenção de Lula na Conferência de sábado”.

“Boulos nunca foi militante do PT. Nunca conviveu com métodos e guinadas impostas de cima para baixo por conta do superdimensionamento do personagem em relação ao Partido. Quem conviveu, e sentiu na pele a traição da entrega da macroeconomia de um governo dito popular-democrático a Henrique Meirelles (então apresentado como “companheiro”), tem outra visão.

“Não acata, politicamente, quem tem projeto próprio afirmado na auto-definição de ‘metamorfose ambulante’, que ‘nunca foi de esquerda’; e sob cujo governo ‘nunca os banqueiros lucraram tanto’.

Moradia digna

Agora, na condição de pré-candidato a presidente da República; Guilherme Boulos, parte para uma agenda interna de defesa dos movimentos sociais. Fez duras críticas ao projeto de lei do deputado Jerônimo Goergen (PP-RS), que apresentou projeto de lei que classifica o MTST e o MST como entidades terroristas. 

“Alguns parlamentares aproveitam-se do ambiente conservador que predomina no Congresso Nacional para fazer passar encomendas das bancadas ruralista e imobiliária. Trata-se, na verdade, de um terrorismo legislativo. Grupos de interesse sem nenhum compromisso com o país e com os direitos fundamentais do povo; em busca de impor um ambiente de criminalização contra quem se organiza e se mobiliza”, diz Boulos em artigo na edição dessa semana da revista de centro-esquerda Carta Capital.

Ele lembra que a Constituição prevê claramente a função social da propriedade e o direito à moradia digna, e que no Brasil, temos atualmente 6,2 milhões de famílias sem casa, segundo dados do IBGE. Ao mesmo tempo, existem 7,05 milhões de imóveis vazios, em situação de abandono. Há mais casa sem gente do que gente sem casa.

Alternativa

“A escalada contra os movimentos sociais é progressiva. É preparada pela narrativa de desmoralização da luta; tentando vinculá-la a vantagens pessoais ou benefícios corporativos: os movimentos ‘querem boquinha’, buscam cargos e dinheiro. Essas ideias têm sido marteladas nos últimos anos incessantemente; pela imprensa oficial ou por grupos de direita nas redes. A desmoralização antecede a criminalização”, diz Boulos.

Segundo ele, se o Projeto de Lei nº 9.604 for aprovado, o Parlamento “criará um monstro”. “Crime é, em pleno século XXI, haver tanta gente que tem negado um direito tão básico. É o Brasil nunca ter feito uma reforma agrária e urbana e perpetuar uma das maiores concentrações fundiárias do planeta. Escandaloso não é ocupar, é o drama de não ter alternativa a não ser ocupar”, afirmou.

“A sociedade precisa estar atenta para que, na esteira da intervenção federal no Rio de Janeiro; o Congresso não se aproveite para surfar na onda do populismo de farda, pautando agendas de endurecimento penal e restritivas de liberdades. O preço para o que resta de democracia pode ser alto”, concluiu.

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