Brasil vai perceber o gosto amargo do conflito entre EUA e Irã, afirma Belluzzo

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Publicado sábado, 4 de janeiro de 2020 as 18:32, por: CdB

Para Belluzzo, se o preço do petróleo seguir uma trajetória de alta rápida, certamente “o Brasil vai sofrer um efeito desagradável”.

 

Por Redação, com Eduardo Maretti/RBA – de São Paulo

As consequências do conflito entre Estados Unidos e Irã para a economia brasileira – após o ataque que matou no Iraque o principal líder do setor de inteligência e das forças de segurança iranianas, Qassem Soleimani, nesta sexta-feira – ainda não estão claras, mas os preços dos combustíveis devem subir ainda mais.

— Como no Brasil se reajusta o preço da gasolina quase imediatamente quando o petróleo sobe, certamente vamos ter um efeito negativo internamente. Isso porque a lógica deles (do governo brasileiro e gestores da estatal) é fazer com que a Petrobras tenha o máximo de rentabilidade, com vantagens aos acionistas — diz o economista Luiz Gonzaga Belluzzo.

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Ormuz

Para Belluzzo, se o preço do petróleo seguir uma trajetória de alta rápida, certamente “o Brasil vai sofrer um efeito desagradável”.

Em sua opinião, se o primeiro problema para a economia do Brasil é com o preço do petróleo, há o risco geral se o conflito se agravar.

— Certamente as bolsas vão sofrer no mundo inteiro, inclusive no Brasil.  Petróleo, dólar e bolsas. Mas, por enquanto, temos que fazer hipóteses. Por exemplo, se eles fecharem ou afetarem o trânsito pelo estreito de Ormuz, certamente vai ser um choque muito grande no preço do petróleo — acrescentou.

‘Quietinho’

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (sem partido), nada falou sobre o conflito. Em Brasília, questionado por jornalistas, limitou-se a dizer que vai discutir o impacto no Brasil com o ministro da Economia, Paulo Guedes, e com o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco. Ele acrescentou:

— Que vai impactar, vai. Agora, vamos ver nosso limite aqui. Porque, se subir, já está alto o combustível, se subir muito complica.

Bolsonaro estaria sendo aconselhado por membros da alta cúpula militar a não se envolver na questão por enquanto.

— Acho que ele não vai se envolver nisso, porque os custos são muito altos. Imagino que o Brasil vai ficar numa posição de prudência. Já fez tanta besteira, vai fazer mais uma? Do ponto de vista do comportamento dele, você pode esperar qualquer coisa, mas acho que o melhor é ficar quietinho, porque não tem nem bala, nem nada para entrar nessa disputa — constata Belluzzo.

Conflito

Estima-se que no mínimo um terço do petróleo produzido no Oriente Médio passe pelo estreito de Ormuz, situado entre o golfo de Omã e o golfo Pérsico.

— Não dá para fazer no momento uma avaliação sobre possibilidades de reação do Irã – continua Belluzzo –, mas certamente a obstrução do estreito de Ormuz é uma das mais óbvias, até mesmo com ataques que possam fazer a refinarias na Arábia Saudita, por exemplo. Eles têm capacidade militar para isso — exemplifica.

Para o economista, o conflito também pode se refletir na queda das exportações brasileiras para os países da região, que têm um “peso intermediário” no comércio exterior do Brasil.

— Isso está mais distante, mas imediatamente o que está claro é que os riscos são grandes — pontua.

Devagar

De janeiro a novembro, o Brasil exportou para o Oriente Médio (exceto Israel) US$ 10,008 bilhões, e importou 4,615 bilhões. A participação das exportações brasileiras à região é de 4,86%.

No geral, a balança comercial brasileira apresentou o pior resultado desde 2015, com superávit de US$ 46,7 bilhões no ano. Em 2015, o superávit foi de US$ 19,5 bilhões. O resultado se deve ao ritmo lento do comércio internacional, avalia Belluzzo.

— Estava devagar, praticamente numa trajetória de contração. Tanto que a queda das exportações foi maior do que a queda das importações. Tivemos um efeito ruim da queda do comércio internacional. E se o conflito entre Estados Unidos e Irã se alastrar, o efeito vai ser bem maior sobre o comércio exterior — conclui.

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