Brasil, um país que caminha rumo ao passado

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Publicado quarta-feira, 28 de novembro de 2018 as 12:48, por: CdB

No Brasil, está na moda um anti-intelectualismo que lembra a Inquisição. Seus representantes preferem Silas Malafaia a Immanuel Kant. Os ataques miram o próprio esclarecimento, escreve o jornalista Philipp Lichterbeck.

 

Por Philipp Lichterbeck/DW – do Rio de Janeiro

 

É sabido que viajar educa o indivíduo, fazendo com que alguém contemple algo de perspectivas diferentes. Quem deixa o Brasil nos dias de hoje deve se preocupar. O país está caminhando rumo ao passado.

O 'Grande Irmão', da obra de George Orwell, ameaça tomar corpo na gestão de Bolsonaro
O ‘Grande Irmão’, da obra de George Orwell, ameaça tomar corpo na gestão de Bolsonaro

No Brasil, pode ser que isso seja algo menos perceptível, porque as pessoas estão expostas ao moinho cotidiano de informações. Mas, de fora, estas formam um mosaico assustador. Atualmente, estou em viagem pelo Caribe – e o Brasil que se vê a partir daqui é de dar medo. Na história, já houve momentos frequentes de regresso.

Jared Diamond os descreve bem em seu livro Colapso: Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Motivos que contribuem para o fracasso são, entre outros, destruição do meio ambiente, negação de fatos, fanatismo religioso. Assim como nos tempos da Inquisição, quando o conhecimento em si já era suficiente para tornar alguém suspeito de blasfêmia.

Comunismo

No Brasil atual, não se grita “herege!”, mas “comunismo!”. É a acusação com a qual se demoniza a ciência e o progresso social. A emancipação de minorias e grupos menos favorecidos: comunismo! A liberdade artística: comunismo! Direitos humanos: comunismo! Justiça social: comunismo! Educação sexual: comunismo! O pensamento crítico em si: comunismo!

Tudo isso são conquistas que não são questionadas em sociedades progressistas. O Brasil de hoje não as quer mais.

Porém, a própria acusação de comunismo é um anacronismo. Como se hoje houvesse um forte movimento comunista no Brasil. Mas não se trata disso. O novo brasileiro não deve mais questionar, ele precisa obedecer: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Está na moda um anti-intelectualismo horrendo, “alimentado pela falsa noção de que a democracia significa que a minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento”, segundo dizia o escritor Isaac Asimov. Ouvi uma anedota de um pai brasileiro que tirou o filho da escola porque não queria que ele aprendesse sobre o cubismo.

Inquisição

O pai alegou que o filho não precisa saber nada sobre Cuba, que isso era doutrinação marxista. Não sei se a historia é verdade. O pior é que bem que poderia ser.

A essência da ciência é o discernimento. Mas os novos inquisidores amam vídeos com títulos como Feliciano destrói argumentos e bancada LGBT. Destruir, acabar, detonar, desmoralizar – são seus conceitos fundamentais. E, para que ninguém se engane, o ataque vale para o próprio esclarecimento.

Os inquisidores não querem mais Immanuel Kant, querem Silas Malafaia. Não querem mais Paulo Freire, querem Alexandre Frota. Não querem mais Jean-Jacques Rousseau, querem Olavo de Carvalho. Não querem Chico Mendes, querem a “musa do veneno” (imagino que seja para ingerir ainda mais agrotóxicos).

Dá para imaginar para onde vai uma sociedade que tem esse tipo de fanático como exemplo: para o nada. Os sinais de alerta estão acesos em toda parte.

Subversivos

O desmatamento da Floresta Amazônica teve neste ano o seu maior aumento em uma década: 8 mil quilômetros quadrados foram destruídos entre 2017 e 2018. Mas consórcios de mineradoras e o agronegócio pressionam por uma maior abertura da floresta.

Jair Bolsonaro quer realizar seus desejos. O próximo presidente não acredita que a seca crescente no Sudeste do Brasil poderia ter algo a ver com a ausência de formação de nuvens sobre as áreas desmatadas. E ele não acredita nas mudanças climáticas. Para ele, ambientalistas são subversivos.

Existe um consenso entre os cientistas conhecedores do assunto no mundo inteiro: dizem que a Terra está se aquecendo drasticamente por causa das emissões de dióxido de carbono do ser humano e que isso terá consequências catastróficas. Mas Bolsonaro, igual a Trump, prefere não ouvi-los. Prefere ignorar o problema.

Para o próximo ministro brasileiro do Exterior, Ernesto Araújo, o aquecimento global é até um complô marxista internacional. Ele age como se tivesse alguma noção de pesquisas sobre o clima. É exatamente esse o problema: a ignorância no Brasil de hoje conta mais do que o conhecimento. O Brasil prefere acreditar num diplomata de terceira categoria do que no Instituto Potsdam de Pesquisa sobre o Impacto Climático, que estuda seriamente o tema há trinta anos.

Karl Marx

Araújo, aliás, também diz que o sexo entre heterossexuais ou comer carne vermelha são comportamentos que estão sendo “criminalizados”. Ele fala sério. Ao mesmo tempo, o Tinder bomba no Brasil. E, segundo o IBGE, há 220 milhões de cabeças de gado nos pastos do país. Mas não importa. O extremista Araújo não se interessa por fatos, mas pela disseminação de crenças. Para Jared Diamond, isso é um comportamento caraterístico de sociedades que fracassam.

Obviamente, está claríssimo que a restrição do pensamento começa na escola. Por isso, os novos inquisidores se concentram especialmente nela. A “Escola Sem Partido” tenta fazer exatamente isso. Leandro Karnal, uma das cabeças mais inteligentes do Brasil, com razão descreve a ideia como “asneira sem tamanho”.

A Escola Sem Partido foi idealizada por pessoas sem noção de pedagogia, formação e educação. Eles querem reprimir o conhecimento e a discussão.

Karl Marx é ensinado em qualquer faculdade de economia séria do mundo, porque ele foi um dos primeiros a descrever o funcionamento do capitalismo. E o fez de uma forma genial. Mas os novos inquisidores do Brasil não querem Marx. Acham que o contato com a obra dele transformaria qualquer estudante em marxista convicto. Acreditam que o próprio saber é nocivo – igual aos inquisidores. E, como bons inquisidores, exortam à denúncia de mestres e professores.

Torquemada

A obra 1984, de George Orwell, está se tornando realidade no Brasil em 2018.

É possível estender longamente a lista com exemplos do regresso do país: a influência cada vez maior das igrejas evangélicas, que fazem negócios com a credulidade e a esperança de pessoas pobres. A demonização das artes (exposições nunca abrem por medo dos extremistas, e artistas como Wagner Schwartz são ameaçados de morte por uma performance que foi um sucesso na Europa). Há uma negação paranóica de modelos alternativos de família. Existe a tentativa de reescrever a história e transformar torturadores em heróis. Há a tentativa de introduzir o criacionismo. Tomás de Torquemada em vez de Charles Darwin.

E, como se fosse uma sátira, no Brasil de 2018 há a homenagem a um pseudocientista na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, que defende a teoria de que a Terra seria plana, ou “convexa”, e não redonda. A moção de congratulação concedida ao pesquisador foi proposta pelo presidente da AL e aprovada por unanimidade pelos parlamentares.

Brasil, um país do passado.

Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele mantém uma coluna na agência alemã de notícias Deutsche Welle; colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para os jornais Tagesspiegel (Berlim); Wochenzeitung (Zurique) e Wiener Zeitung. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.

2 thoughts on “Brasil, um país que caminha rumo ao passado

  1. Nunca vi um texto tão raso e sem objetividade como esse, só pra constar, terra plana não tem nada a ver com grupos evangélicos. Mais uma prova de como a esquerda é preconceituosa e ignorante, mas o preconceito da esquerda é lindo não é?

    Se quer fazer uma crítica, o faça sem preconceito e falácias, a esquerda e o progressismo não fala mais a voz do povo, a maior parte dos meios de comunicação, universidades e políticos pertencem a elites que odeiam o povo, quando Bolsonaro foi eleito a elite progressista corrupta e preconceituosa foi pega de surpresa, mas ao invés de agir com inteligencia partira com sua burrice rotineira de xingar e rotular ao invés de analisar.

    Ensinar Darwin e Marx? dois lixos que causaram milhões de mortos, Marx causou a USSR, Darwin causou o Nazismo com suas teses de eugenia, Marx não é ensinado nas principais escolas do mundo já que é um filósofo ultrapassado que serve mais de critica do que solução. O problema da educação Brasileira não é que ela vá trocar Marx por Torquemada, é que ela não ensina Platão, Aristóteles, Shakespeare, Einstein e Newton. Ao invés de divulgar Mozart e Bach divulgam Funk com a desculpa da opressão cultural. Agora a esquerda perdeu a batalha acadêmica se apegam aos paladinos europeus, que hipocrisia, não era a esquerda que dizia que deviamos jogar Shakespeare no lixo e ensinar poetas negros?, mas pra esquerda tudo pode se tal coisa se encaixar na visão dela, ensinar ideologias nocivas como Marxismo e Darwinismo é legal, mas ensinar o Cristianismo (mesmo como questão histórica) que faz parte da cultura e de 90% da fé Brasileira, que molda as leis e os costumes do ocidente, é uma ameaça a educação, ora faça-me o favor! foi o Cristianismo (seja católico ou protestante) o grande criador das universidades dais quais o marxismo e darwinismo se escoram como dois parasitas, mas pra esquerda é democrático excluir 90% das pessoas do espaço público e educacional, como querem ser levados a sério com isso?

    A questão da eleição no Brasil e a derrota da esquerda é que o povo foi excluído do debate politico, a esquerda e os meios de comunicação progressistas fizeram de tudo pra ganhar a antipatia da classe pobre já que se tornaram elitistas e preconceituosos e não entendem dos problemas socials na prática, mas apenas em seus teoremas de faculdade. Enquanto a população pobre sofre com a violência a esquerda ensina que o crime é causa social e não prática comum da esperteza humana independente da classe, que não existe criminoso branco, que negros tem que votar na esquerda como gado em currais, que mulheres tem que ser feministas histéricas, que as drogas que destroem famílias inteiras devem ser legalizadas, enquanto a maior parte da população odeia bandido e tem ojeriza a direitos humanos a esquerda tratou isso como politica nacional de combate a desigualdade social sem contestação, ridículo.

    Mas a esquerda e os progressistas perderam a guerra, acharam que podiam combater 90% da população só por que mantinham o poder nos altos cargos, enganaram-se porque surgiram agentes (evangélicos e direitistas) que também dominam esses meios e que usaram eles contra a esquerda, resultado foi a esquerda desmoralizada publicamente e com seus principais líderes presos por corrupção, enquanto a direita entra fortalecida e imune a questões jurídicas já que por 30 anos a maior parte dos partidos no Brasil foram de esquerda e centro progressistas.

    Os evangélicos são outra parte no poder contra a esquerda, talvez a influencia deles seja até maior do que dão crédito e será muito maior no futuro.

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