Brumadinho: painel de especialistas diz que barragem rompeu por liquefação estática

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Publicado quinta-feira, 12 de dezembro de 2019 as 11:55, por: CdB

O relatório, divulgado pela companhia nesta quinta-feira, afirma ainda que não houve atividade sísmica ou registro de detonações antes do desastre.

Por Redação, com Reuters e ABr – de São Paulo

Um painel de especialistas contratado pela mineradora Vale para avaliar causas técnicas do rompimento de uma barragem da companhia em Brumadinho (MG) em janeiro, que deixou mais de 250 mortos, apontou em relatório que o incidente foi causado pela “liquefação estática dos rejeitos” na estrutura.

Vista de barragem da Vale que entrou em colapso em Brumadinho
Vista de barragem da Vale que entrou em colapso em Brumadinho

O relatório, divulgado pela companhia nesta quinta-feira, afirma ainda que não houve atividade sísmica ou registro de detonações antes do desastre e que “nenhum dos dispositivos de monitoramento detectou precursores do rompimento”.

Falta de drenagem

“A experiência com rompimentos anteriores de barragens de rejeitos mostra que eles raramente se devem a uma só causa”, afirmou o documento, listando uma série de fatores que teriam ao longo do tempo criado condições de instabilidade na barragem.

Os especialistas citam pontos que incluem “falta de drenagem interna significativa que resultou em um nível de água alto na barragem”, principalmente na região do pé da estrutura, além de alto teor de ferro, que gerou rejeitos rígidos com “comportamento potencialmente muito frágil se sujeitos a um gatilho” e “precipitação regional alta e intensa na estação chuvosa”.

O resultado foi apresentado pelo líder de um painel de especialistas, Peter Robertson, PhD em geotecnia pela Universidade British Columbia, no Canadá. As conclusões do grupo foram divulgadas nesta quinta-feira em São Paulo.

– O creep ocorre quando o material tem uma carga constante e se deforma de maneira lenta. Isso acontece com alguns materiais, que sofrem uma carga muito forte, como, por exemplo, um talude íngreme com excesso de água, que vai sofrer o efeito de creep, com tensões de cisalhamento (tensão gerada por forças aplicadas em sentidos iguais ou opostos, em direções semelhantes, mas com intensidades diferentes) no material analisado – explicou Robertson. “É uma deformação que acontece lentamente, mas a ruptura é abrupta”, completou o especialista.

De acordo com Robertson, a novidade do estudo é a identificação da cimentação entre as partículas. “Em testes de laboratório, (constatou-se) o efeito da cimentação, e isso criou um material muito mais quebradiço, que perdia a resistência muito mais rapidamente”, observou.

Estudo

Segundo o relatório do painel de especialistas sobre as causas técnicas do rompimento da Barragem I do Feijão, análises do estado de tensão dentro da estrutura mostraram ainda que partes significativas dela estavam sob carregamentos muito elevados devido a sua inclinação,  ao alto peso dos rejeitos e ao nível de água. “A construção de uma barragem íngreme a montante [método no qual a barreira de contenção recebe camadas do próprio material do rejeito da mineração], o alto nível de água, rejeitos finos fracos dentro da barragem e a natureza frágil dos rejeitos geraram as condições para o rompimento”, conclui o estudo divulgado hoje.

O painel foi contratado por um escritório de advocacia em nome da Vale SA para apurar as causas técnicas do rompimento. O relatório completo está disponível em www.b1technicalinvestigation.com.

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