Campos Neto desmente Guedes e diz que recuperação em V perde fôlego

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Publicado terça-feira, 15 de dezembro de 2020 as 14:07, por: CdB

Segundo Campos Neto, o quadro de dificuldades já era de certa forma antevisto pela autoridade monetária. Ele frisou que, quando o BC começou a falar a respeito, o mercado financeiro ainda era muito cético sobre a recuperação do país, antes mesmo da pandemia.

Por Redação – de Brasília

Presidente do Banco Central, o economista Roberto Campos Neto distancia-se do discurso de Paulo Guedes, ministro da Economia, ao avaliar que a recuperação econômica em formato de V do Brasil está mais lenta. Quanto à volta do auxílio emergencial, no entanto, Campos Neto acredita que investir em vacinas parece ser mais barato do que prolongar programas de transferência de renda.

Campos Neto
Presidente do Banco Central, o economista Campos Neto prevê mudanças na forma como são vistos os ativos bancários, após a crise do novo coronavírus

— Tivemos o que foi o início de uma recuperação em V, está perdendo um pouco do ímpeto agora — afirmou ele nesta terça-feira, em inglês, ao participar de evento promovido pela Eurasia Group.

Segundo Campos Neto, esse quadro já era de certa forma antevisto pela autoridade monetária. Ele frisou que, quando o BC começou a falar a respeito, o mercado ainda era muito cético sobre a recuperação do país e que hoje as perspectivas dos agentes já são de uma contração menor do PIB para este ano, algo entre -4% e -4,4%.

Vacinação

De acordo com o presidente do BC, números de “soft data” — medidos a partir de avaliação qualitativa, como índices de confiança — foram afetados nas últimas semanas pelo aumento de casos de covid-19. Ele também disse, sobre o primeiro trimestre do ano que vem, que agora os agentes começam a se perguntar se o aumento recente no casos de coronavírus irá afetar ou não a economia.

Campos Neto pontuou que o mercado está de olho na estratégia para vacinação, em quem tem a vacina antes e na montagem da logística para imunização da população.

Sobre a volta dos investidores estrangeiros ao país, ele afirmou que já é possível ver esse retorno ao mercado, e destacou que esse movimento tende a continuar desde que o Brasil passe a mensagem certa no front fiscal. Nesse sentido, Campos Neto voltou a afirmar que o aumento do prêmio de risco na curva longa de juros está conectado com o quadro fiscal.

Âncora fiscal

Se houver abandono do regime fiscal, o prêmio de risco associado ao Brasil irá subir e o BC terá que agir segundo o efeito desse movimento na inflação, afirmou o presidente do Banco. Contudo, ele disse considerar esse cenário “altamente improvável”.

Campos Neto avaliou que a situação frágil das contas públicas de certa forma já está precificada e que há benefício da dúvida para habilidade do governo em mudar isso.

Ele também afirmou que, a menos que a âncora fiscal do país seja deixada de lado, o Brasil não está e nem deve entrar em processo de dominância fiscal — em que a política monetária não mais consegue controlar a inflação em função da forte deterioração fiscal.