Carnaval em Petrópolis

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Publicado quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018 as 16:15, por: CdB

Sempre passei o Carnaval em  Petrópolis durante toda a minha infância, com a minha família no Hotel Quitandinha.  Adorava quando saltávamos do carro  (depois de eu e minha irmã termos parado em todos os postos de gasolina na subida da serra para vomitar por causa do calor provocado pelos bancos forrados de lã, do Buick do meu pai, numa época sem ar refrigerado), e abríamos , correndo, a porta de vidro do hotel, de onde saía um cheiro forte de lança-perfume.  Aquilo para mim era uma espécie de sair da real  e entrar no céu.

Por Maria Lúcia Dahl, do Rio de Janeiro:

Cheirar lança-perfume

Havia os artistas de Hollywood no bar ( Broderick Crawford, Lana Turner, e outros que já sairam da minha memória).

Uma gaiola imensa no meio do hall , cheia de araras, a sala de refeições das crianças com as paredes pintadas de bichos maravilhosos, a sala de pingue-pongue onde eu via os dançarinos de ballet, destacando-se,  Marcia Haydée, e onde, já adolescente me apaixonei por um bailarino chamado Yellê Bittencourt que paquerava de longe, até que ficamos amigos e começamos a bater altos papos.

No teatro víamos shows de Emilinha Borba, Marlene, Black Out. Quando voltava ao Rio tinha de contar todos os pormenores do shows pra minha cozinheira que era apaixonada por rádio.

As poucas vezes que passei a festa no Rio, papai nos levava  para ver os préstitos na Av. Rio Branco. De dentro de carros trôpegos e abertos, mulheres feinhas, coitadas, ficavam em pé jogando beijos que saíam tremidos por causa da fragilidade do carro. Eu e minha irmã morríamos de rir  e as imitávamos, saudando o público,  tremendo as mãos, como uma espécie de Parkinson.

À  noite, pegávamos a caixa de lança-perfume Rodouro e a levávamos escondido pro quarto.

Um dia resolvemos experimentar um pouco contrariando o que papai nos dizia: “Vocês podem fazer tudo com ela matar formigas  jogar uma na outra, nos cachorros, só não podem cheirar. E claro, quando ele saía, a primeira coisa que fazíamos era justamente testar a proibição. Tínhamos acessos de riso de não parar um segundo, até virarmos para o lado e dormir.

A experiencia foi mais ou menos  parecida com um ácido que tomei com uma  amiga , no final da década de 60, ela dirigindo o carro e eu ao seu lado. De repente apareceu um guarda , e vendo o carro parado no sinal verde, perguntou à minha amiga: “ Por que a senhora parou se o sinal está  aberto?” Seríssima ela respondeu “ por que estou esperando passarem os cordeirinhos primeiro.”.

Depois foram os blocos do Jardim Botânico, Suvaco do Cristo, Banda de Ipanema, Turma do Pasquim e outros.

Hoje em dia a graça  ainda é ir pra Petrópolis, e ver meus amigos e ficar com meu  neto, filho do Guilherme Vergueiro que é pianista e ligou para o meu celular convidando-me para um show que ele ia fazer no Rio. Desculpei-me, dizendo que estava em Petrópolis e terminei o telefonema desejando-lhe muita  “merda”. Meu neto, que na época tinha 5 anos, perguntou: “Por que você mandou meu pai à merda? Expliquei-lhe que não era o que ele estava pensando, mas uma saudação que se faz aos artistas antes do show, para que tudo dê certo, o equivalente a “ sorte.”

Neu  neto olhou pra mim, pensou e me pediu: “ Vó, liga de novo pro meu pai.” Repliquei“ mas você já não falou com ele?” Ele respondeu. “Mas eu queria muito manda-lo à PQP !

Maria Lúcia Dahl , atriz, escritora e roteirista. Participou de mais de 50 filmes entre os quais – Macunaima, Menino de Engenho, Gente Fina é outra Coisa – 29 peças teatrais destacando-se- Se Correr o Bicho pega se ficar o bicho come – Trair e coçar é só começar- O Avarento. Na televisão trabalhou na Rede Globo em cerca de 29 novelas entre as quais – Dancing Days – Anos Dourados – Gabriela e recentemente em – Aquele Beijo. Como cronista escreveu durante 26 anos no Jornal do Brasil e algum tempo no Estado de São Paulo. Escreveu 5 livros sendo 2 de crônicas – O Quebra Cabeça e a Bailarina Agradece-, um romance, Alem da arrebentação, a biografia de Antonio Bivar e a sua autobiografia,- Quem não ouve o seu papai um dia balança e cai. Como redatora escreveu para o Chico Anisio Show.Como roteirista fez recentemente o filme – Vendo ou Alugo – vencedor de mais de 20 premios em festivais no Brasil.

Direto da Redação, editado pelo jornalista Rui Martins.

 

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