Censura e privatização

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Publicado quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018 as 15:00, por: CdB

Ações como linchamento e censura jamais são admitidas como tais por quem as promove. Seu regime discursivo é sempre o eufemismo. Nunca houve alguém de mínima inteligência que não utiliza a fórmula “sou contra ___, mas nesse caso ____”, para justificar uma exceção à regra que protege não um ou outro discurso, mas a própria possibilidade de a pluralidade de discursos existir. Essas agências, por isso, sempre buscarão deslocar o debate para o espaço externo a essas palavras, uma vez que sabem que elas são injustificáveis a priori.

Por Moysés Pinto Neto, de Porto Alegre:

Extremistas nunca se assumem

Há três meses debatíamos sobre censura a obras de arte (“Queermuseum”) e nossos adversários diziam que “não se tratava de censura” (embora tenha tirado de circulação), mas que as obras “induziam à pedofilia” e como nós não compartilhávamos do repúdio moral a isso? Quem em são juízo poderia ser favorável à pedofilia? Ainda e sempre é a mesma leitura moral da arte, como se é o que é dito pertencesse a um regime literal de enunciação e seu campo de influência fosse sempre em um sentido didático, um manual de instruções.

Não é preciso lembrar que a arte é sempre mais que isso, toda obra, por pior que seja, pode ser vista de múltiplas formas e é essa multidimensionalidade que caracteriza a experiência de choque que a arte provoca. Submeter essa experiência a parâmetros morais — mesmo que democraticamente consignados e guiados pelas mais belas razões (aliás, tampouco há censura que não se reivindique guiada pelas mais importantes razões — coisa de vida ou morte) — é simplesmente aniquilá-la em seu núcleo essencial.

Não por acaso as tentativas de aproximar a arte da política de forma literal e proselitista são, em geral, retumbantes fracassos do ponto de vista estético. Aliás, deveríamos reconhecer que a arte é uma experiência aristocrática — ainda que essa aristocracia nada tenha a ver com a questão econômica, já que a melhor arte dos dois últimos séculos tem origem popular.

Privatização e variantes

Há quem defenda ser a reindustrialização, com um plano de desenvolvimento nacional, a saída para o futuro do país. Há quem veja na indústria criativa e no empreendedorismo popular combinada à renda mínima uma alternativa mais produtiva. Há quem acredite que a globalização é um processo financista que deve ser compensado por uma política econômica nacionalista. Há quem a vê como processo de integração sociocultural e econômico irreversível. Para alguns, toda privatização é necessariamente um entreguismo e o patrimônio público deve ser preservado. Para outros, o problema pode ser discutido caso-a-caso, dependendo do objeto. Para alguns, o Pré-sal brilha como a galinha dos ovos de ouro do desenvolvimento do país. Para outros, lugar de combustível fóssil é embaixo da terra.

A “democracia burguesa” é para alguns um mero atalho para a revolução. Para outros, não existe diálogo fora da democracia. Para alguns, direitos humanos são garantias liberais sem valor em si mesmas, apenas “formais” num contexto de desigualdade substantiva. Para outros, são valores induscutíveis que condicionam os conteúdos. Para alguns, os índios devem ser integrados à sociedade brasileira, uma vez que não é possível continuar vivendo “no atraso” em pleno século XXI. Para outros, os índios são a vanguarda do tempo por vir a partir da catástrofe ambiental. Para alguns, palavras como “gestão” e “corte de privilégios” aplicadas à Administração Pública são mero sintoma do neoliberalismo. Para outros, necessidades que se impõem.

Todos esses campos podem ser combinados em múltiplas variações possíveis, mas são abrangidos pela palavra “esquerda”. Fingir que essa palavra, por si só, garante alguma unidade é fingir que não existem querelas objetivas e materiais que separam um e outro campo, para além de birras e atitudes pessoais. Composições e alianças são sempre possíveis, mas compõe-se com o heterogêneo, com aquilo que não é o mesmo que eu. Há quem, no entanto, ainda tenha uma extrema dificuldade de reconhecer — para dizer o mínimo — a existência de uma tendência política alheia à sua sem etiquetá-la como falsa consciência.

É aí que reside o autoritarismo “do bem” de quem se crê tão infalível a ponto de não conseguir reconhecer como legítima a perspectiva do outro.

Moysés Pinto Neto, doutor em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul, professor na Faculdade de Direito da Universidade Luterana do Brasil, Porto Alegre.

Direto da Redação é um fórum de debates, editado pelo jornalista Rui Martins.

 

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