Cesare Battisti explica que sua confissão foi um acordo

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Publicado sexta-feira, 13 de setembro de 2019 as 03:01, por: CdB

A revista Fórum acaba de publicar uma carta de Cesare Battisti aos companheiros brasileiros, que reproduzimos abaixo na íntegra. Nela ele explica que sua confissão, assumindo crimes que não cometeu, foi um acordo.

Introdução de Celso Lungaretti, de São Paulo, e Carta de Cesare Battisti da Itália
Condenado à prisão perpétua, Battisti revela o acordo que implicava numa confissão de crimes que não cometeu

Recomendo que cada leitor coloque a mão na consciência e se indague: fosse ele o Cesare, conseguiria manter uma postura heroica após ter consumidos 40 anos de sua existência numa fuga sem fim, entremeada com prisões e libertações que nunca garantiam a liberdade no dia seguinte.

O mais significativo que consegui detetar nas entrelinhas está no antepenúltimo parágrafo:

“A pergunta a ser feita seria mais concretamente esta: valeu a pena? Sim, sem dúvida (à parte as omissões que deixei passar ao momento de assinar o acordo, lamento o cansaço), porque, apesar do massacre, ainda tenho vontade de ter um cérebro todo meu, uma cadeira e uma mesa para escrever à vocês, à minha família e a todos aqueles que ainda querem ler”.

Ou seja, a confissão de Battisti, tão festejada pelos fascistas de dois continentes, foi resultado de um acordo, firmado num momento em que, sentindo o peso do continuado massacre ao qual ele vinha sendo submetido há décadas e com o cansaço de quem acabava de ver mais uma vez ruir a vida que tão esperançosamente tentara construir, ele ansiava tão somente por um tratamento carcerário menos desumano, uma mesa, uma cadeira e o direito de escrever seus livros e aos companheiros, à família e a quem mais quisesse receber notícias suas.
Concordemos ou não com sua opção de admitir crimes que não cometeu para que a tendenciosa e arbitrária justiça italiana pudesse justificar, aos olhos do mundo, uma das mais aberrantes e repulsivas perseguições políticas do pós-1968, agora sabemos, pelo menos, os motivos que o levarem a prestar-se a tão chocante farsa, comparável aos arrependimentos expostos no tribunal do Santo Ofício e à auto-incriminação dos réus dos processos de Moscou sob Stalin.
 
Eis sua carta:
Me perguntaram se era verdadeiramente necessário assumir as responsabilidades políticas e penais frente à Procuradoria de Milão? Me pergunto – qual necessidade move aqueles que fazem esta pergunta? Porque, se eu soubesse exatamente o que esperavam de mim, seria muito mais fácil me colocar no lugar deles e talvez encontrar alguma boa justificativa, o que seguramente não falta, para duvidar da minha própria decisão.
Mas quantos deles, aos quais gostaria sinceramente de responder, não apenas porque o merecem, mas também porque acredito ser um dever de companheiro, quantos podem de verdade se colocar no meu lugar? Ou seja, como posso eu explicar o que me acontece agora, sem poder dizer que o agora é o resultado acumulado nos últimos quarenta anos, sobretudo desde fevereiro de 2004 na França até o 23 de março em Oristano?
Consideramos apenas os últimos quinze anos. Eles têm sido um inferno continuo, entre anos de cadeia, detenções absurdas, enorme gasto de energias pessoais e de forças solidárias, numa perseguição implacável, incondicional e nunca antes vista.
Eu tive que abandonar várias vezes a minha casa, a minha família, ser renegado publicamente nas ruas, despedido dos empregos – isso quando conseguia encontrar um, tudo isso por causa de uma opinião pública envenenada por uma propaganda midiática sem escrúpulos, que possuía a finalidade de me desmontar toda vez que eu conseguia estabelecer uma vida minimamente normal. Vamos esquecer os graves problemas financeiros, terminaria sendo ridículo.
Por isso me pergunto se seria possível que com uma perseguição assim, com estes instrumentos e uma duração além do imaginável, resistir?
Seria possível, digo eu, que aquelas boas cabeças de companheiros visionários haviam conseguido resistir ao envenenamento da desinformação, que não haviam deixado ser influenciadas elas também, inconscientemente de forma moderada, como um martelo que de tanto bater vence o prego, por uma organização midiática tão perversa e mentirosa? Porque, se não for assim, como explicar então que alguns companheiros pretendem de mim exatamente o mesmo que espera a opinião pública, as leis e as instituições?
O mito Battisti foi criado para se poder depois abatê-lo, isso se entende e tem uma lógica feroz; aquilo que não se entende é o mito ser retomado pelos companheiros, como um bom mito para se mostrar em nome da luta revolucionária. E acontece que pouco importa que aquele mito seja feito de carne e osso, que não aguente mais ser martirizado – um mártir existe para estar, segundo os gostos, de um lado ou de outro da barricada.
No fundo, quem eu teria afetado assumindo as minhas responsabilidades relativas a um processo definitivo, arquivado e demonizado? Não seria devido falar do fracasso da luta armada? E por que não? Já que eu o tinha feito com ênfase em 1981.
Há alguém hoje que possa honestamente dizer que a luta armada valeu a pena? (e não confundamos o Movimento com os partidos combatentes). Tomei esta decisão porque era necessário desmitificar o monstro, afirmar que sou apenas humano, caso contrário teria sido melhor se tivessem me atirado do avião do Estado.
Querem ter uma ideia clara do que tive de me livrar? Pois bem, perguntem se acharem conveniente aos amigos da rua, familiares, conhecidos, colegas, perguntem para eles o que acham do Cesare Battisti e terão a resposta sobre que era, e o que me tirava o fôlego.
Confessei sem pedir uma redução de pena, pelo contrário, essa foi a premissa, e nestes últimos dias vocês assistiram à confirmação da minha prisão perpetua por parte do Tribunal Criminal de Milão, a qual grosseiramente legalizou um sequestro de uma pessoa na Bolívia. Aliás, a única prisão perpetua do processo PAC [Proletari Armati per il Comunismo]!
A pergunta a ser feita seria mais concretamente esta: valeu a pena? Sim, sem dúvida (à parte as omissões que deixei passar ao momento de assinar o acordo, lamento o cansaço), porque, apesar do massacre, ainda tenho vontade de ter um cérebro todo meu, uma cadeira e uma mesa para escrever à vocês, à minha família e a todos aqueles que ainda querem ler.
Escrevi rapidamente, não vou fazer correções e, se incentivado, posso contar em outro momento os bastidores de Ciampino, imagino o que a mídia vomitou sobre.
Um abraço para quem desejar.
Carta de Cesare Battisti, introdução de Celso Lungaretti
Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

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