Chefe da Operação Greenfield, que investiga o ministro da Economia, pede para sair

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Publicado sexta-feira, 4 de setembro de 2020 as 19:31, por: CdB

Após a cobrança de R$ 259 milhões a alvos ligados ao ministro, no inquérito, conforme noticiou o Correio do Brasil, na véspera, o procurador Anselmo Henrique Cordeiro Lopes – chefe das investigações – deixou o cargo.

Por Redação – de Brasília

O avanço da Operação Greenfield, provocou um novo terremoto interno no Judiciário. A força-tarefa formada por procuradores do Ministério Público Federal (MPF) e agentes da Polícia Federal (PF) apura o envolvimento do ministro da Economia, Paulo Guedes, em um esquema bilionário de corrupção em fundos pensão de empresas públicas.

Paulo Guedes preferiu evitar o questionamento da reforma previdenciária junto aos parlamentares da oposição
Paulo Guedes é alvo de uma pesada investigação, por parte do Ministério Público Federal

Após a cobrança de R$ 259 milhões a alvos ligados ao ministro, no inquérito, conforme noticiou o Correio do Brasil, na véspera, o procurador Anselmo Henrique Cordeiro Lopes – chefe das investigações – deixou o cargo. Ele comunicou a sua decisão nesta sexta-feira, oficialmente. Em carta, Lopes afirma que pesou bastante a sua insatisfação com a “insuficiência de dotação de uma estrutura adequada de trabalho à força-tarefa.

“De fato, a atuação da Força-Tarefa Greenfield restou bastante prejudicada pela recente decisão da Procuradoria-Geral da República de não mais prorrogar a desoneração dos colegas Sara Moreira e Leandro Musa, deixando-me como único membro exclusivo da FT Greenfield”, escreveu.

Sem apoio

Segundo o procurador federal, torna-se inaceitável que apenas um oficial se dedicasse à operação.

“Por maior que seja o espírito público e a vontade de lutar pela Justiça, permanecer como único membro de dedicação exclusiva à força-tarefa pareceu-me inaceitável”, acrescentou. Lopes também disse que deseja dar mais atenção a assuntos e relações familiares. O procurador afirmou que torce por uma transformação na força-tarefa.

“Futuramente, com a possível transformação de nossa força-tarefa em parte ou subsede da UNAC (Unidade Nacional Anticorrupção), torço para que enfim a Greenfield (seu complexo de casos) possa ter a estrutura material e humana adequada que tanto merece. Por ora, porém, mantenho minha esperança de que – ao menos – os colegas Sara Moreira, Leandro Musa, Thais Malvezzi e Samantha Dobrowolski possam receber o adequado apoio institucional para não deixar nosso trabalho esgotar-se em vão”, escreveu.

Investigação

Com a saída de Lopes, a força-tarefa com três procuradores sem dedicação exclusiva, Sara Moreira, Leandro Musa e Thais Malvezzi, e aguarda a nomeação de Samantha Dobrowolski.

Lopes reforçou que, cerca de um ano depois da deflagração da operação, em setembro de 2016, “outros grandes casos conexos que envolviam crimes contra entidades de previdência e bancos públicos passaram a ser dirigidos também pela FT Greenfield, que passou a ter 100 metas em seu plano de ação”.

Não é apenas o procurador Lopes que elevou o tom contra o procurador-Geral da República, Augusto Aras, que recorreu ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) para tratar da distribuição de processos da Operação Lava Jato junto ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). A atitude é considerada por investigadores do MPF como outra forma encontrada para a PGR impor limites à investigação.

Lava Jato

A partir de uma provocação de Aras, o CNMP proibiu que recursos da Lava Jato no STJ sejam distribuídos automaticamente a subprocuradores-gerais da República designados para atuar nos recursos da operação no tribunal e decidiu concentrá-los em uma única subprocuradora, Áurea Maria Etelvina Pierre.

Aras, por sua vez, tem se aproximado da Presidência do Supremo Tribunal Federal (STF), com o objetivo de garantir o cumprimento de suas novas orientações na condução de inquéritos rumorosos, a exemplo das operações Greenfield e Lava Jato. Às vésperas de deixar a presidência do STF, no entanto, o ministro Dias Toffoli disse, nesta tarde, que “não haveria a Lava Jato se não fosse o STF”.

Em entrevista concedida a jornalistas, Toffoli reafirmou que nunca viu da parte da parte do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e de seus ministros “nenhuma atitude contra a democracia”; uma declaração repetida por mais de uma vez também por Augusto Aras. Para o ministro, que deixa o comando da Corte na semana que vem, a decisão mais difícil de sua gestão foi a abertura do inquérito para apurar ameaças, ofensas e fake news disparadas contra integrantes do STF e seus familiares. A investigação foi determinada pelo próprio ministro, de ofício, sem consultar o MPF.

Dallagnol

Em paralelo com o PGR nomeado por Bolsonaro, durante o período em que presidiu o STF, Toffoli tomou decisões que contrariaram os interesses da Lava Jato, como a paralisação de centenas de investigações baseadas em relatórios do Coaf e da Receita, atendendo a pedido do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ). Determinou, ainda, durante o recesso do STF, que a força-tarefa da Lava Jato em Curitiba compartilhasse o banco de dados com a cúpula da Procuradoria-Geral da República (PGR).

A decisão acabou derrubada pelo relator da Lava Jato, Edson Fachin, mas gerou um mal estar sem precedentes entre o procurador-geral e os integrantes do MPF, em Curitiba. Apenas algumas semanas após o episódio, o procurador Deltan Dallagnol deixou a chefia da operação, alegando problemas de saúde na família.

Toffoli também deu o voto decisivo para o Supremo derrubar a execução antecipada de pena, o que abriu caminho para que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) saísse da prisão. Na outra ponta, entretanto, o ministro Luiz Fux, que assume na próxima quinta-feira o comando do STF, é considerado um aliado firme dos procuradores paranaenses.