Os começos, geralmente, são risonhos

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Publicado domingo, 30 de dezembro de 2018 as 14:58, por: CdB

Bolsonaro, desafiando toda a direita tradicional brasileira herdeira da ditadura e do acordo de convivência que permitiu a transição negociada para a democracia.

 

Por Mauro Malin – do Rio de Janeiro

 

Se Lula começou bem seu primeiro mandato (2003-2006), a despeito de tantas deficiências de formação e de liderar um conglomerado político heterogêneo e complicado (com um vice, José Alencar, que parecia dar uma satisfação “ao empresariado”, como agora o general Hamilton Mourão parece ser uma válvula de segurança para o estamento militar); não há o que impeça Bolsonaro de começar razoavelmente o seu.

Apesar de toda carga negativa que carrega, Bolsonaro contará, no período inicial de seu governo, com o apoio dos eleitores
Apesar de toda carga negativa que carrega, Bolsonaro contará, no período inicial de seu governo, com o apoio dos eleitores

Ao menos, aos olhos de quem lhe interessa impressionar: o “mercado” e boa parte da mídia, especialmente quando pautada por representantes desse mesmo “mercado”. E, por extensão, de largas parcelas da opinião pública.

Lula não tem formação educacional sofisticada, tampouco Bolsonaro a tem.

Redemocratização

Nenhum dos dois mostra envergadura de estadista, mas ambos criaram multidões de seguidores.

Lula entre um povão banhado por uma espécie de fé em dias melhores chancelada por condições de vida menos árduas e menos humilhantes, algo que as massas começaram a obter com a redemocratização. Bolsonaro junto a espetaculares multidões que incluem pobres mais ressentidos do que frágeis.

Um, ligado a uma igreja católica em declínio. Outro, embora católico, abraçado a uma constelação neo-pentecostal televisiva cada vez mais próspera.

Ideologia

Lula, triunfante dentro de uma social-democracia que, em sua queda, por ele mesmo promovida, o arrastou para uma derrota histórica que se anuncia duradoura.

Bolsonaro, desafiando toda a direita tradicional brasileira herdeira da ditadura e do acordo de convivência que permitiu a transição negociada para a democracia. O capitão promete, no terreno da ideologia e de sua conversão em política, uma espécie de “revolta conservadora” (Marcos Nobre).

Lula tropeçou no mensalão (2005-2006), que, destaque-se, não impediu nem sua reeleição nem as duas subsequentes vitórias de Dilma. Essa Dilma de trajetória tão diferente das de Lula e Bolsonaro, uma personalidade política que merece mais estudo (nem que seja porque em seu segundo mandato criaram-se os antecedentes da atual catástrofe), de passado ultraesquerdista e depois brizolista.

À frente de Bolsonaro, situam-se diversos obstáculos que podem fazê-lo tropeçar. Sua domesticidade misturada com vida política (perto do que se vê agora, dona Marisa foi uma santa e os filhos de Lula, anjinhos). A natureza desconjuntada de sua equipe de governo.

A previsível incapacidade de melhorar as condições de vida dos mais frágeis, enquanto anuncia reformas que serão sentidas (porque noticiadas) como bordoadas nas costas das camadas médias. A resistência que será oposta a seu discurso contra os avanços das últimas décadas em matéria de direitos humanos.

Múltiplos fatores

A impossibilidade de fazer girar para trás a roda das mudanças ditas comportamentais. O sempre receado impacto de uma nova crise econômica internacional. Dificuldades na esfera do Congresso.

Nada disso, porém, e nem mesmo uma combinação de múltiplos fatores, indica que ele vai começar seu governo fracassando.

Quem basear nessa hipótese uma política de oposição é que poderá dar com os burros nágua.

Mauro Malin é jornalista e escritor.

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