Como se monta o desmonte

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Publicado segunda-feira, 9 de dezembro de 2019 as 14:22, por: CdB

Como se monta o desmonte

“Apesar de você / Amanhã há de ser / Outro dia” (“Apesar de você”, Chico Buarque)

Está em fase de conclusão a montagem da Secretaria Especial da Cultura que, no governo do capitão, passou a ser um apêndice do Ministério da Cidadania. É o que restou do Ministério da Cultura, que em anos passados já teve como titulares Celso Furtado e Antônio Houaiss.

Por Roberto Amaral – do Rio de Janeiro

Um anônimo, identificado pela imprensa como “maestro”, foi nomeado presidente da Funarte,  aquele órgão do governo federal cuja missão “é promover e incentivar a produção, a prática, o desenvolvimento e a difusão das artes no país”. Para o novo burocrata, “O rock ativa as drogas, que ativam o sexo livre, que ativa a indústria do aborto, que ativa o satanismo”.

Bolsonaro teria perguntado ao ator pornográfico e deputado Frota (DEM-SP) se o príncipe Luiz Philipe seria gay
Bolsonaro teria perguntado ao ator pornográfico e deputado Frota (DEM-SP) se o príncipe Luiz Philipe, de ultradireita, seria gay

Aí estão não apenas seu conceito de música, mas, igualmente, sua visão de mundo.

Segundo esse, digamos, maestro, um antediluviano assustado com os espectros do “marxismo cultural” que atanaza a vida do ministro da Educação, os Beatles “teriam vindo ao mundo para implementar o comunismo e acabar com os valores das famílias” (O Estado de SP, 3/12/2019). Os rapazes de Liverpool teriam sido na verdade agentes da KGB, e a Scotland Yard não sabia, nem mesmo a CIA, a Agência de Inteligência e terrorismo dos EUA, para ele “infiltrada de soviéticos com a finalidade de destruir a moral burguesa da família americana”.

Complementando a equipe do Secretário Especial da Cultura (aquele que ficou conhecido por haver difamado Fernanda Montenegro), o maestro fará companhia ao novo presidente da Fundação Biblioteca Nacional, mais um monarquista inconformado com a República.

Já o  presidente da Fundação Palmares (criada para “promover a preservação dos valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira”) detesta o poeta Martinho da Vila e a ex-vereadora Marielle Franco, e quer acabar com os festejos do Dia da Consciência Negra. Para o patético provocador, “a negrada aqui reclama (do racismo) porque é imbecil e desinformada pela esquerda”.

Banditismo

Trabalharão esses senhores vindos do baixo medievo ao lado da nova secretária de Audiovisual, que defende o fim da Ancine, principal fonte de investimento de filmes e séries nacionais, e da apresentadora de televisão que assumiu a presidência da Fundação Casa de Rui Barbosa, um dos maiores centros de pesquisa social do país, ocupando a cadeira onde já se sentou Wanderley Guilherme dos Santos.

Esta não seria indicação, como as demais, do astrólogo de Virgínia, mas de um pastor-deputado, irmão na mesma seita neopentecostal.

Da futura czarina do cinema (do cinema que produz “Estômago” e “Bacurau”), sabe-se que participou da “Cúpula Conservadora das Américas”, reunida em dezembro do ano passado em Foz do Iguaçu, sob a liderança do deputado Eduardo Bolsonaro, defensor, como o vereador seu irmão e o  ministro da economia,  da aplicação do AI-5 se ocorrerem entre nós movimentações de rua.

A “Cúpula” produziu uma carta, apresentada pelo deputado (autoproclamado “príncipe”) Luiz Philippe de Orleans e Bragança, que, para a área da cultura propõe por  ideário: “Deus, pátria, família, propriedade, liberdade individual e direito à legítima defesa como princípios; como valores, fomentar o ensino e a arte clássica liberal; combater a cultura da ditadura verde; estimular a cultura do empreendedorismo e do desenvolvimento pessoal sem a participação do Estado; combater a cultura do banditismo e do vitimismo; resgatar a cultura da verdadeira democracia, desconcentrando o poder de Brasília para estados e municípios e promover a cultura do direito à legítima defesa”.

Delírio

O que é “verdadeira democracia” não foi explicitado, mas, pelo andar da carruagem, supõe-se seja, para esse bolsonarismo, aquele regime no qual reina a paz dos cemitérios e os pobres “conhecem o seu lugar”. Por “legítima defesa” sabe-se que é o “excludente de ilicitude” que permite à autoridade policial matar sem correr o risco de pena e ao latifundiário armar-se e armar até os dentes seus capangas e mandá-los atirar em quem lhes possa sugerir uma lembrança de ameaça.

Eis o catecismo pelo qual reza o bolsonarismo.

Dir-se-á, pelo que se lê e vê, que não temos política cultural, senão sua contrafação, mas contrapor-se à cultura, coarctá-la, é também uma forma de fazer política, a política da anticultura, essa que está em vigor entre nós há quase 12 meses!

As palavras mudam de sentido, a realidade vira uma fantasia, um delírio, uma coisa qualquer; o que não é explica o que é. Os sinais são trocados.

A questão não se cinge aos tristes personagens trazidos à cena, nem mesmo ao obscurantismo de suas crenças e crendices: a questão grave é a existência de método e lógica atrás da aparente desfuncionalidade ideológica.

O bolsonarismo luta contra o tempo, contra o progresso; não apenas quer impedir a construção livre do futuro, como pretende resgatar o passado. Em pleno século XXI é um projeto anti-iluminista. E viceja.

Criacionismo

O ódio às artes e às manifestações culturais de um modo geral faz parte do desapreço à vida  – daí a fixação em armas e na violência – e quaisquer formas de liberdade, de sonho e de criatividade (para o seu partido, em criação, Bolsonaro reivindica como símbolo um revólver 38). Dessa lógica ruminante derivam os outros e incontáveis ódios, como a homofobia, a xenofobia, a demofobia e o racismo, a rejeição do outro, do diverso, do discrepante. O totalitarismo, que busca a homogeneização,  é incompatível com a pluralidade de sexos, raças, classes, valores, pensares e fazeres.

É antidemocrático por essência e necessidade, pois não resiste ao debate.

Por isso o totalitarismo é, sempre, a ideologia do atraso, desafeita ao ensaio, à experimentação, à criação e, portanto, ao novo.

A ideologia que se abate sobre a cultura brasileira, pretendendo sufocá-la, é fruto da mesma lógica que procura desmoralizar o ensino público, a universidade gratuita, e, em termos gerais, o magistério. A mesma lógica que indicou o corte de verbas de pesquisa e ensino  de nossas universidades, a desmontagem das agências de desenvolvimento tecnológico e inovação quando o mundo caminha para a quarta revolução industrial. A mesma lógica que nega o aquecimento global, incentiva o desmatamento da Amazônia e desaparelha as agência de defesa ambiental. Num quadro com tais contornos o criacionismo, irmão gêmeo do terraplanismo, adquire o status de proposição lógica e passa a ser “natural” a visão de Cristo pendurado em um galho de goiabeira.

Canudos

A criação artística, porém, é, por natureza, subversiva, domina como ninguém a guerra de posições, infiltra-se em todos os escaninhos da sociedade, manifesta-se e vem à tona onde haja gente, sobrevivendo tanto à censura política quanto à censura econômica (sempre aliadas), numa metamorfose que lhe dá sobrevida sempre maior que as ditaduras.

A História não guardou os nomes dos burocratas da cultura da Alemanha nazista ou da Rússia estalinista, ou do Brasil do DIP ou da ditadura militar. Ficaram Brecht e Maiakovski, Dias Gomes e Plínio Marcos, Antunes Filho e Zé Celso. O teatro Opinião sobreviveu, o Oficina sobreviveu, Roda Viva sobreviveu, o cinema sobreviveu e hoje está mais vivo do que nunca. Porque todos aprenderam, com suas artes, a arte seminal da resistência, a arte do bom combate de quem não menospreza o adversário mas não treme diante dele.

O outro lado da barbárie não é o silêncio, mas a retomada da vida. Dias melhores virão – pela nossa mão.

Mais um massacre – Antes que a licença para matar pedida pelo capitão (a tal da “excludente de ilicitude”) se faça lei, prosseguem os massacres levados a cabo por vândalos das Polícias Militares. O ultimo foi em Paraisópolis  e teve como agente a PM do governador Dória. É uma guerra de Canudos que não termina nunca, com o Estado brasileiro mostrando ao pobre, majoritariamente preto ou pardo, os seus lugares, o eito, o gueto e a cova. No meio de tanta violência oficial o silêncio solidário do ministro da Justiça, o ‘justiceiro implacável’ de antes reduzido a coiteiro de milicianos.

Roberto Amaral é escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia.

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