Condições de saúde das comunidades indígenas se deterioram na pandemia

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Publicado domingo, 21 de junho de 2020 as 19:19, por: CdB

As condições de saúde se degradam “e  existem muitas reclamações por parte das nossas comunidades, por exemplo, com a questão do atendimento de saúde especial para os povos indígenas”, afirmou o líder indígena Fidelis Baniwa.

Por Marilza de Melo Foucher – de Paris

Vítimas da covid-19 em um grau acima dos demais brasileiros, as comunidades amazônidas encaram um novo desafio, segundo afirma o líder indígena Fidelis Baniwa, em uma entrevista difícil.

Baniwa atua em filmes, minisséries e no teatro, como forma de levar a cultura indígena ao grande público
Baniwa atua em filmes, minisséries e no teatro, como forma de levar a cultura indígena ao grande público

As condições de saúde se degradam “e  existem muitas reclamações por parte das nossas comunidades, por exemplo, com a questão do atendimento de saúde especial para os povos indígenas”, afirmou Baniwa.

A entrevista foi realizada por WhatsApp em dois momentos diferentes. Interrompida, primeiro porque Fidelis pegou a covid-19 e, depois, devido à fragilidade da internet, que somente nos permitiu receber as respostas a conta-gotas.

— O que significa Fidelis? Não parece um nome Baniwa…

— Na verdade, eu fui batizado na igreja católica e os salesianos me deram o nome de Luís de Jesus Fidelis! Fidelis no latim significa digno de fé, fiel! Adotei meu nome artístico de Fidelis Baniwa. Porém, meu nome de origem é Makenuli – um pássaro da família do pica-pau.

— Então vou te chamar de Fidelis Makenuli…Você nasceu em que comunidade?

— Nasci na comunidade Ingá-íwa, Igarapé do Mabaha, pertencente ao meu povo Baniwa, no município de Santa Isabel do Rio Negro – AM. Meus pais trabalhavam na roça e no extrativismo florestal.

— Havia escola na comunidade?

— Sim. Havia uma escolinha rural na Ilha de Nazaré. Logo cedo, incentivado a estudar pelos meus pais fui matriculado nesta Escola. O método de ensino e o conteúdo eram bem diferentes dos conhecimentos tradicionais transmitidos por nossos anciãos cotidianamente, mas foi necessário para o meu entendimento do universo não-indígena que nos rodeava.

— Como a História e o envolvimento com a Arte lhe ajudou na projeção da Cultura Indígena?

Na escola, eu tive o primeiro contato com o ensino da História do Brasil, eu gostei da disciplina, porém, me causava estranheza, o fato dos livros didáticos deixarem em segundo plano a História Indígena. Como exemplo, eu aprendi que os portugueses chegaram no dia 22 de abril de 1500 ao “Brasil”. Esse fato histórico ficou conhecido como o dia do “descobrimento”. No entanto, há relatos daquele período, que dão conta da existência de inúmeros Povos Nativos que já habitavam as terras ditas “descobertas”.

Isto revela em outra perspectiva, que o “Brasil” foi invadido em 1500 e não descoberto como propunham os livros de História. A interpretação dos fatos históricos trazia a visão do colonizador nos materiais didáticos, e a partir daí, entendi que era preciso reescrever e recontar a História do Brasil.

Alguns anos mais tarde, na primeira década do século XXI, eu fui morar em Manaus para continuar meus estudos. Passei no vestibular e fui estudar história na universidade federal do Amazonas. Foi assim, que pude me apropriar da história indígena e entender melhor essa questão.

Nessa mesma época, iniciei minhas aulas de teatro na Cia. Vitória Régia de Teatro, integrando assim o centro dos acontecimentos artísticos no Amazonas, sob direção do Diretor e Ator A Nonato Tavares.

Tanto minha formação em história na faculdade, como minha atuação na Companhia de Teatro, fizeram ecoar em mim a voz dos 68 Povos Indígenas que habitam o Estado do Amazonas. Comecei a participar por conta da profissão de ator e acadêmico, em palestras, espetáculos, entrevistas e conferências. Foi assim, que eu pude expor a realidade vivida por nós, indígenas, no Amazonas, que se traduz, muitas vezes, em incertezas e abandono.

O Teatro me levou a participar de seriados na TvGlobo e em seguida participei como ator de alguns filmes. Por consequência me tornei referência no trato da questão indígena, e desde então posso falar para mais gente.

Para finalizar sua questão penso que o conhecimento da História e a Arte Cênica, me ajudaram a lançar luz sobre a cultura milenar dos Baniwa e de outros Povos, e com certeza me auxiliaram a combater o preconceito e encher de motivação outros parentes indígenas na luta pela garantia de Direitos, contrariando o processo histórico de exclusão e submissão a que fomos expostos pela colonização.

— Fidelis-Maquenuli, hoje você é também um ator político, foi coordenador da organização indígena do Amazonas, e assumiu o compromisso de participar na disputa da prefeitura de Santa Isabel. Você poderia nos explicar a situação dos Povos Indígenas no contexto do Governo Bolsonaro?

— O Censo 2010 contabilizou 896 mil pessoas, todavia, estima-se que hoje o Brasil, tenha uma população indígena de cerca de um milhão de indivíduos divididos em 305 Povos e 178 línguas faladas.  Na chegada dos europeus em 1500, estima-se que a soma chegava a cinco milhões! A população indígena nunca foi prioridade para o Estado brasileiro, a maioria das políticas públicas de atendimento aos nossos Povos foram sempre de compensação. De reparação por danos causados por projetos desenvolvimentistas do Estado, ou então de integração da população indígena à sociedade brasileira com ideia de Nação homogênea.

Nos últimos 40 anos, o Movimento Indígena Organizado União das Nações Indígenas (UNI) – 1980 – e Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) – 1989 – conseguiu conquistas importantes, como a inclusão dos artigos 231 e 232 na constituição de 88 que assegura aos Povos Indígenas o Direito a sua forma de organização social, territorial, política e as suas crenças e costumes.

De lá pra cá, alguns avanços aconteceram, como a demarcação das terras indígenas, a atenção especial de saúde nas aldeias, escolas diferenciadas com foco na realidade das aldeias etc…

Apesar desses avanços, hoje a situação se degrada e  existem muitas reclamações por parte das nossas comunidades, por exemplo, com a questão do atendimento de saúde especial para os povos indígenas.

Quanto ao Governo do Presidente Bolsonaro, infelizmente as ameaças que antes eram veladas e tímidas, tornaram-se evidentes. Enfraqueceram-se os braços do Estado – FUNAI/DSEI- de atenção aos índios. Nós sofremos ataques sistemáticos contra nossos Direitos. Sob pretexto de desenvolver as terras indígenas, o Governo incentiva invasões, desmatamentos e grilagem.

A prioridade é das grandes empresas, sem falar do racismo, que aflora em cada discurso do Presidente. Até mesmo os artigos da Constituição Federal podem ser revistos. Vivemos um tempo sombrio, de retrocesso, no país.

— Hoje você é candidato a prefeito de Santa Isabel, município do Amazonas? Por que você assumiu essa candidatura?

— Sou pré-candidato a prefeito no município de Santa Isabel do Rio Negro – AM pelo PSOL – Partido Socialismo e Liberdade. Um município pequeno do Médio Rio Negro, com  23 mil habitantes e a maioria indígena composta de 23 Povos. Aqui, falamos 17 línguas.

Eu decidi ir ao enfrentamento político-partidário como forma de fazer valer a voz e a representatividade dos diferentes Povos que habitam esta região. Apesar do município ter uma população com maioria indígena, em 64 anos de município, como Entidade Federativa, nunca elegeu um indígena como gestor. E, hoje, isso é possível, porque nos últimos 40 anos, buscamos nos formar nas escolas dos “brancos”.

Aprendemos com eles e hoje temos parentes formados em diferentes áreas da Ciência. Mesmo assim, não deixamos nossos valores e costumes, nos orgulhamos dos conhecimentos de nossos ancestrais. E, sei, que chegando à Prefeitura posso implementar políticas públicas reais que tenham como prioridade as necessidades das pessoas e das comunidades que precisam de apoio institucional. Me identifico com a luta do meu povo.

— No Estado do Amazonas, a pandemia da covid-19 se disseminou com muita rapidez e atingiu muitas comunidades indígenas. Você mesmo foi contaminado. Quantas Comunidades indígenas foram afetadas e que assistência elas têm tido?

— Até agora, desde o iniciou da pandemia, registramos mais de 140 mortes de indígenas por Coronavírus no Estado do Amazonas. Dos sessenta e dois municípios do Estado, somente dois não registraram casos da doença. No Rio Negro, a maior parte das comunidades é assistida, de forma precária, pela equipe de saúde do município. Por conta da distância, na maioria das vezes, os doentes e parentes recorrem a chás tradicionais e benzimentos. As comunidades têm tradição coletivista, onde alimentos são compartilhados, o que contribui e muito para a proliferação da doença.

Essa realidade é preocupante porque a doença chega como arma genocida contra nossos Povos. E, a lentidão do governo no combate à COVID contribui para o caos. Veja o descaso deste governo, somente depois de quatro meses foi aprovado, ontem, 16 de junho, no Congresso Nacional o Projeto de Lei 1142/20 de apoio emergencial, que determina ações para combater o avanço da Covid-19 entre indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.

O texto, aprovado em votação simbólica, será encaminhado à sanção presidencial. Só para ressaltar, que vamos entrar no quarto mês de pandemia e o apoio emergencial ainda não saiu do papel, e vale somente para o período da pandemia, portanto o futuro é incerto. Mas, não desistimos, seguimos na luta! Vamos resistir!

— Qual o papel das organizações indígenas face a pandemia?

— As organizações Indígenas no Brasil funcionam como controle social. Hoje por exemplo, elas denunciam os descasos das autoridades face a pandemia e servem de porta-voz das comunidades indígenas. Em muitas ações elas desenvolvem parcerias com outras ONGS e até mesmo com entidades do governo para fazer chegar o atendimento às comunidades mais distantes, realidade como a nossa aqui no Rio Negro. As distâncias e dificuldades de acesso são enormes. São quilômetros de rios e obstáculos para chegar até as aldeias e em algumas, só se chega de helicóptero.

Atualmente, somos representados pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), de abrangência nacional, pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), da região norte e pela Coordenação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (COIPAM), que atua no nosso Estado. Eu atuei como coordenador da organização estadual do Movimento Indígena até 2017. Depois disso, me dediquei a compor música indígena na língua materna, ao teatro e arte e nesse momento me envolvo na política municipal.

— Existe solidariedade nacional e internacional? Você poderia explicar como ela se manifesta?

— Existe apoio de organizações internacionais, uma composta por ativistas como greenpeace  e outras organizações que atuam como fontes de financiamento para o funcionamento das organizações indígenas, assim como apoio aos projetos sociais  para populações indígenas, tipo H3000 (Áustria), WWF (Fundo Mundial para a Natureza que teve sua origem na Suíça), GIZ (Agência Alemã de Cooperação), Embaixada de Noruega, Fundação Betty&Gordon More (americana) entre outras…

Nessa pandemia essas organizações se somam no esforço conjunto de campanha de prevenção e alerta contra o perigo do Coronavírus. Em geral, há uma comoção por parte da comunidade internacional quando se trata de população indígena. De certa forma, a comunidade internacional pressiona o governo brasileiro para medidas mais eficazes no combate à doença. No entanto, o efeito da pressão internacional junto ao governo atual é quase imperceptível. Em geral a reação é de desprezo e sempre negando a realidade dessa tragédia humana.

Marilza de Melo Foucher é economista, jornalista e correspondente do Correio do Brasil, em Paris.

Nota: Para informações sobre o Coronavirus junto aos povos indígenas consultar o site http://quarentenaindigena.info/casos-indigenas/

Fidelis Baniwa participou enquanto artista:

Na TV:
Minissérie Mad Maria -2004,

No cinema:
A Noite Por Testemunha– Filme do Diretor  Bruno Torres-Brasília -2008;
Tainá 3 – a Origem – 2010 Direção Rosanev Swartman;
O Último Adeus do Comandante – 2019- Direção Renato Machado;
Antes o tempo não acabava (título internacional: Time Was Endless) lançado em 2016, no 66° Festival International de Berlin – Fabio Baldo e Sergio Andrade;

No teatro:
Antes o mundo Não Existia – 1998 – Cia. Vitória Régia de Teatro;
O Casamento da Filha de Mapinguari – 2001;
A Maravilhosa Estória do Sapo Tarobequê – 2005 – Cia. Vitória Régia;
Tributo a Chico Mendes – 2008 – Cia. Vitória Régia de Teatro.

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