Conflito na Libéria ganha destaque antes da viagem de Bush à Africa

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Publicado quinta-feira, 3 de julho de 2003 as 20:37, por: CdB

O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, quer destacar uma agenda econômica e anti-Aids para a África durante uma visita ao continente na próxima semana, mas um eventual envio de soldados norte-americanos para uma força de paz na Libéria está tomando o centro das discussões.

Bush também enfrenta críticas porque seu interesse na África mascara políticas que favorecem grandes corporações em detrimento de africanos comuns.

A viagem de cinco dias de Bush é a sua primeira como presidente para a África subsaariana. Começa na terça-feira no Senegal, onde ele vai discutir a escravidão na ex-estação ferroviária que comercializava escravos da Ilha de Goree.

Bush também planeja parar na África do Sul e em Botswana, com um foco econômico, em Uganda, para destacar esforços anti-Aids, e na Nigéria, um grande fornecedor de petróleo e uma potência regional.

Bush disse a jornalistas africanos na quinta-feira que corrigiria as impressões de indiferença norte-americana pela África, mostrando que os Estados Unidos são bons parceiros comerciais, preocupados com a Aids e suscetíveis a reclamações de corrupção nos países africanos.

– Nós nos importamos profundamente com a situação do cidadão africano. As pessoas, quando souberem dos fatos, dirão: ‘bem, esse é um grande país’ – disse Bush.

Salih Booker, diretor-executivo do grupo de advocacia Ação África, disse que a política norte-americana é dirigida para uma busca de petróleo, de instalações militares e de comércio e é prejudicial à África.

– Nós achamos a política norte-americana extremamente deficiente e achamos que a viagem para a África carece de consistência – disse ele.

Críticos dizem que há muito tempo a África não chama a atenção do Ocidente, a não ser nos casos de desastres como fome ou guerra civil.

Os pedidos por ajuda norte-americana para reforçar um cessar-fogo na longa guerra civil da Libéria levaram Bush a considerar o envio de soldados da força de paz ao país, o que terminaria com uma década de aversão a intervir na África.

Bush disse que não se decidiu sobre as tropas de paz, mas reconheceu que os EUA tem uma “história exclusiva com a Libéria”, que foi fundada no século 19 por ex-escravos norte-americanos.

Chester Crocker, ex-secretário-assistente de Estado para assuntos africanos, disse que seria adequado enviar soldados para uma força de paz.

– Há um histórico aqui de evitar o que eu vejo como uma importante responsabilidade americana – disse.

Um ponto central na agenda de viagem de Bush é seu plano de 15 bilhões de dólares para combater a Aids na África e no Caribe. Em Uganda, ele planeja saudar o presidente Yoweri Museveni pela redução das altas taxas de infecção.

Houve quem elogiasse o primeiro grande compromisso dos EUA em combater a Aids globalmente. Mas os críticos dizem que Bush fracassou em buscar financiamentos para o plano e que as políticas comerciais norte-americanas evitam que os países africanos importem drogas genéricas para a Aids, forçando-os a comprarem remédios mais caros de laboratórios famosos.

Bush também vai destacar a liberalização do comércio sob o Ato de Oportunidade e de Crescimento Africano. Até agora os principais beneficiários foram as indústrias de petróleo, de platina e diamante, que empregam relativamente poucos africanos, disse Katherine Daniels, do grupo antifome Oxfam.