Copa do Qatar: a aberração movida por ganância e sofrimento

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Publicado terça-feira, 30 de março de 2021 as 11:42, por: CdB

 

Eliminatórias europeias para o Mundial de 2022 começaram com protestos de várias seleções. Construção de estádios no país é marcada por violações de direitos humanos e mortes de trabalhadores.

Por Redação, com DW – de Doha

Finalmente começaram as eliminatórias europeias para a Copa do Qatar em 2022, e tiveram início com protestos. Antes da partida com a Islândia, os jogadores da seleção alemã pintaram de próprio punho suas camisetas com letras grandes. Ao posaram lado a lado para as fotos, foi possível ler Human Rights, em alusão às perenes violações dos mais elementares direitos humanos praticados pela monarquia absolutista que reina no Qatar.

Jogadores da seleção alemã protestam em jogo das eliminatórias para a Copa do Qatar

No dia anterior, os atletas da seleção norueguesa aproveitaram sua estreia contra Gibraltar para se manifestar. Enquanto eram executados os respectivos hinos nacionais, usaram camisas onde estava estampada a frase “Direitos humanos, dentro e fora de campo”.

Jogadores da Dinamarca e Holanda seguiram o exemplo dos seus colegas e em suas camisetas para as fotos oficiais lançaram o lema “Football Supports Change”, intercedendo por mudanças nas condições desumanas dos trabalhadores estrangeiros no Qatar. A Federação Dinamarquesa de Futebol apoiou a ação dos jogadores e seu diretor Jacob Jensen afirmou: “Devemos exercer forte pressão sobre o regime do Qatar, especialmente no que diz respeito à situação de milhares de operários vindos principalmente da Ásia e que vivem muitas vezes em condições precárias”.

Impossível esquecer que os processos de escolha do Qatar para sediar a Copa de 2022, assim como a da Rússia para 2018, estão cercados de suspeitas. A hipótese de que muitas mãos de delegados da Fifa teriam sido molhadas não foi confirmada, mas tampouco nunca totalmente descartada.

Fato é que o regime do Qatar, através do esporte, se faz presente no mundo inteiro e despende bilhões de dólares para sediar grandes eventos esportivos como as Copas do Mundo de handebol, futebol e, mais recentemente, de clubes. Sem esquecer que o Emirado tem ligações íntimas com grandes clubes do futebol europeu como Paris Saint-Germain e Bayern de Munique.

No caso do clube bávaro, o Qatar é um dos seus principais patrocinadores, seja através da empresa estatal que administrava o Aeroporto Hamad Internacional de Doha até 2018, seja através da Qatar Airways desde então. É dinheiro que não acaba mais. Estima-se que o patrocínio da companhia aérea dos Emirados esteja rendendo 15 milhões de euros por ano aos cofres do Bayern.

As ligações financeiras

As ligações financeiras do Bayern com o regime ditatorial do Emirado constantemente são alvos de críticas por causa da deletéria situação dos direitos humanos no país. O clube costuma dar de ombros a essas críticas ou desconversa, como fez recentemente seu diretor executivo Karl-Heinz Rummenigge: “Nos muitos contatos pessoais que temos em Doha, deixamos claro nossa posição sobre assuntos polêmicos locais e pudemos obter algumas melhorias”.

Franz Beckenbauer, ícone do futebol alemão e presidente de honra do Bayern de Munique, quando indagado sobre a situação dos trabalhadores durante sua visita ao Qatar chegou a declarar ironicamente: “Não vi um único escravo no país”.

Enquanto Fifa, PSG e Bayern têm o Emirado como um dos seus principais patrocinadores e usufruem de incomensuráveis valores em dinheiro vivo, o jornal inglês The Guardian informa que 6,5 mil trabalhadores e trabalhadoras morreram por insalubres condições de trabalho durante a construção dos luxuosos estádios movidos a ar-condicionado que servirão de palco para a Copa de 2022.

Mulheres e homens

Mulheres e homens vindos do Nepal, da Índia, de Bangladesh emigraram rumo ao Qatar em busca de trabalho e com a esperança de proporcionar às suas famílias, que ficaram para trás, melhores condições de vida. Dos aproximadamente 20 mil operários estrangeiros da construção civil, mais de um terço encontrou a morte de acordo com dados da Anistia Internacional.

Não é de estranhar, portanto, que a opinião pública alemã não está dando a mínima para a Copa, pelo contrário. Em pesquisa promovida pelo Spiegel, 83% não concordam com a realização do torneio no Emirado e 68% entendem que a Alemanha deveria boicotar a competição. E pior: 65% informam que não vão nem assistir os jogos pela TV. Enquete feita em fins de março do ano em curso.

Ainda falta algum tempo para o pontapé inicial da Copa de 2022 e, claro, até lá poderá haver uma mudança na opinião pública alemã, especialmente se a Mannschaft  for bem nas eliminatórias e se a pandemia, que atualmente assola o país, finalmente estiver sob controle.

Caso contrário, haverá o risco de algo inimaginável até pouco tempo atrás: uma Copa do Mundo de Futebol ser percebida como algo indesejável e pela qual apenas uma pequena minoria se interessa.