A CPI tem que tirar o bode da sala

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Publicado terça-feira, 6 de julho de 2021 as 09:42, por: CdB

 

A ida de Dominghetti à CPI da Covid no Senado colocou aos senadores um bode na sala, atrapalhando o andamento da Comissão. É preciso retirar esse bode para que se possa apurar os crimes do alto escalão do Governo Federal.

Por Jorge Gregory – de Brasília

Algo que talvez esteja passando despercebido nos desdobramentos dos trabalhos da CPI, é que neste desastre da condução da política sanitária se evidencia a existência de um andar de baixo e um andar de cima no governo. Entre a conduta de um andar e outro há intersecções que devem ser exploradas nos trabalhos de investigação, mas os senadores terão que tomar muito cuidado para não se perderem no secundário, em detrimento do que é central. O que é central diz respeito ao andar de cima, o alto escalão do governo que, ao adotar o negacionismo e a teoria da imunidade de rebanho como política de governo, conduziu milhares de brasileiros à morte, promovendo um verdadeiro genocídio. No andar de baixo, nos escalões médios e inferiores, pouco interessa a política. Interessam, sim, os benefícios pessoais, de forma que a corrupção corre solta.

Fotomontagem feita com as fotos de: Sérgio Lima

Uma vez que se incutiu na mente da imensa maioria da população que a corrupção é o problema do país, há uma certa tendência das mais diferentes colorações políticas de colocar a questão como central, o que pode ser um erro fatal. O problema dessa linha de raciocínio é que poderá levar a CPI a ficar patinando nas falcatruas do andar de baixo, deixando os que ocupam o andar de cima se livrarem dos verdadeiros crimes que cometeram. O depoimento do cabo Dominguetti foi claramente um bode colocado na sala para desviar o foco da CPI e da opinião pública. A manobra fracassou, no entanto, o bode pode permanecer na sala para desviar a atenção da Comissão, levando-a a tratar daquilo que é secundário e secundarizar o principal.

O caso dos irmãos Miranda surge neste contexto. Dentre os documentos requeridos pela CPI junto ao Ministério Público, um dos processos entregues e em curso dizia respeito à investigação de possíveis irregularidades no contrato de compra de doses da vacina indiana Covaxin. Dentre os depoimentos tomados, encontrava-se o de Luis Ricardo Miranda, técnico responsável pelos procedimentos de liberação das importações do Ministério da Saúde, onde o servidor, ao ser questionado pela procuradora se havia sofrido pressões para liberar a importação confirmou que sim, que recebera pressões dos superiores imediatos. Ao ver tal depoimento, um senador requereu a convocação do servidor para prestar esclarecimentos.

O assunto Covaxin

Até aqui o assunto Covaxin era periférico e provavelmente permaneceria assim caso o requerimento tivesse passado despercebido pela imprensa que, tomando conhecimento da convocação do servidor, publicou o depoimento dado ao Ministério Público. Acontece que o servidor era irmão do deputado bolsonarista Luis Miranda. Para que o seu mano não fosse crucificado em público, o parlamentar foi à imprensa afirmar que a maracutaia que estava sendo armada foi levada ao conhecimento de Bolsonaro por ele e pelo servidor. Tal afirmação foi confirmada e detalhada por ambos, deputado e irmão, em depoimento à CPI.

Com o procedimento adotado, um caso em que o servidor conseguiria comprovar no máximo a participação dos seus superiores, não passando do quarto escalão, tomou outras proporções. Havendo tão somente provas de envolvimento na tentativa de corrupção do diretor acima de Miranda, Pazuello e Bolsonaro afirmariam que não tinham conhecimento e que tomariam providências. Aquela balela de sempre. É pouco provável que se comprove o envolvimento direto de Bolsonaro no esquema de corrupção, mas a revelação de que foi comunicado e de que não tomou providências caracteriza o crime de prevaricação, razão muito mais consistente para um impeachment que a Elba de Collor e as pedaladas de Dilma. Mais, Bolsonaro ficou encurralado, pois não sabendo se a conversa com os irmãos Miranda havia sido gravada ou não, não podia desmenti-la.

Seguramente a CPI deve estar recebendo inúmeras ofertas de depoimentos voluntários para apresentar outras denúncias e com certeza também a própria mesa da CPI deve estar avaliando criteriosamente a credibilidade do denunciante bem como a consistência da denúncia. Dito isso, tivesse o tal cabo Dominguetti se dirigido a CPI, certamente a sua “denúncia” não teria demonstrado consistência e nem ele próprio, um bolsonarista convicto conforme demonstram as suas redes sociais, conseguiria demonstrar qualquer credibilidade. Ele então é jogado nas mãos da Folha de São Paulo, obviamente ávida por mais um furo. Dominguetti relata ao jornal uma tentativa de obtenção de propina pelo ex-diretor de logística do Ministério da Saúde, Roberto Dias, na oferta de vacinas AstraZeneca.

Excitados pela denúncia dos irmãos Miranda, que revelam um caso concreto de corrupção, os senadores mordem a isca. Antes de qualquer avaliação sobre quem era Dominguetti e a consistência da sua denúncia, se apressaram em convocar o personagem. Em audiência, centrando a denúncia em Roberto Dias, tido como homem de confiança de Ricardo Barros, era inevitável que algum senador da oposição mordesse a segunda isca e perguntasse se havia envolvimento de algum deputado. A pergunta foi feita e o cabo tirou a carta da manga. “Sei de um”, afirmou, e apresentou um áudio de Luis Miranda. Os senadores governistas quase foram ao orgasmo com a revelação. Estava colocado o bode na sala.

Contudo, a alegria bolsonarista e a perplexidade oposicionista durou pouco. O deputado Luis Miranda, que estava ligado no depoimento, correu para a sala de audiência e, como também tinha o áudio gravado, comprovou que a gravação era antiga e que se tratava de negociação relacionada a luvas. Não tivesse o deputado preservado tal gravação, a CPI passaria meses discutindo a credibilidade dos irmão Miranda, esvaziando a denúncia de prevaricação de Bolsonaro.

O bode na sala

Para colocar o bode na sala, no entanto, Dominguetti construiu toda uma narrativa que mostrava certa coerência quanto à possibilidade de tentativa de corrupção por parte de Roberto Dias. Tendo sido levado a ele a possível oportunidade de desvios monumentais de dinheiro com um determinado esquema montado, seria muito provável que o ex-diretor tivesse se interessado e muito plausível que a tal reunião no restaurante tivesse de fato acontecido. Supostamente, com tal reunião Dias pretendia se inteirar de como a maracutaia funcionava para avaliar a viabilidade do esquema.

Aqui é necessário fazer um parêntese. Uma empresa do Texas, montada por um exilado cubano há menos de um ano, ter obtido a representação de um laboratório do porte da AstraZeneca é algo que só poderia ganhar credibilidade junto às frágeis organizações de prefeituras do interior e não duvido que alguns prefeitos tenham caído nesse conto do vigário. Dominguetti, associado a uma ONG evangélica e a alguns coronéis, resolveu apostar e tentar aplicar o golpe também no Ministério da Saúde. Ao conhecer a fragilidade do esquema, Roberto Dias, que ao que tudo indica é cobra criada, deve ter caído fora, de forma que é pouco crível que tenha ocorrido o pedido de propina de USS$ 1 por vacina. No entanto, como Dias já foi exonerado como bode expiatório do caso Covaxin, não custava nada colocar na conta dele mais um possível ato de corrupção para plantar o bode do áudio. Em último caso, ficaria a palavra dele contra a de Dominguetti, mas o bode já teria sido plantado.

A CPI, no entanto, não pode cair na tentação de querer ficar investigando a corrupção do andar de baixo do governo. Tudo o que a situação quer é que a discussão caminhe para este pantanal. Se corrupção é o problema, corrupção ocorreu nos governos municipais e estaduais, há indícios de que ocorreu na América do Sul, nos Estados Unidos, na Europa e no Oriente. Se a corrupção é o problema, então Bolsonaro é tão culpado quanto o resto do mundo. A CPI tem que tirar este outro bode da sala e precisa se manter focada em provar que o genocídio foi uma política de governo, que no caso irmãos Miranda houve prevaricação e revelar quem idealizou a armadilha Dominguetti pois, convenhamos, o coitado do cabo não tinha a menor capacidade de ser o ideólogo de tal manobra.

Jorge Gregory, é jornalista e professor universitário, trabalhou no Ministério da Educação (MEC).

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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