‘CPI da Covid’ leva Bolsonaro ao desespero e já ameaça ‘dar porrada’

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Publicado segunda-feira, 12 de abril de 2021 as 15:28, por: CdB

A certa altura do diálogo, Bolsonaro sugere que o Congresso pressione o STF com pedidos de impedimento contra ministros, entre eles Barroso.

Por Redação – de Brasília

O vazamento calculado de um diálogo entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO), nas últimas horas, não apenas deixou “perplexos” o integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), segundo traduziu o ministro Marco Aurelio Mello, mas revelou o nível de desespero do mandatário neofascista. A investigação, uma vez realizada, tem o poder de revelar a intenção proposital do governo de ampliar a gravidade da pandemia.

O senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO) gravou o diálogo que teve com o presidente Bolsonaro

— Em tempos estranhos nada surpreende, deixa a todos perplexos — afirmou o ministro a um dos diários conservadores paulistanos, na manhã desta segunda-feira, logo após a divulgação de uma segunda parte da conversa que Kajuru teve, por telefone, com o presidente sobre a instalação da CPI da Covid, ordenada pelo ministro Luís Roberto Barroso.

A certa altura do diálogo, Bolsonaro sugere que o Congresso pressione o STF com pedidos de impeachment contra ministros, entre eles Barroso.

— Tem de peticionar o Supremo para colocar em pauta o impeachment (de ministros) também — afirmou o presidente.

Novo escopo

Ainda na conversa gravada com o senador na noite de sábado, Bolsonaro chamou o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) de “bosta” e afirmou que teria que “sair na porrada” com o autor do requerimento de criação da CPI da Covid.

— Se você (Kajuru) não participa (da CPI), vem a canalhada lá do Randolfe Rodrigues para participar e vai começar a encher o saco. Daí, vou ter que sair na porrada com um bosta desses — afirmou Bolsonaro, no áudio divulgado por Kajuru nesta manhã, pela Rádio Bandeirantes de São Paulo.

Ainda na véspera, Kajuru divulgara gravação em que Bolsonaro também pedia ao senador que ampliasse o alcance da CPI para que atingisse também prefeitos e governadores. Bolsonaro disse que, se os senadores não mudarem o escopo da Comissão, para investigar as ações de governos regionais, será investigado apenas o governo federal e seus aliados. Segundo ele, vão ouvir “só gente nossa” para produzir “relatório sacana”.

— Se não mudar a amplitude, a CPI vai simplesmente ouvir o Pazuello, ouvir gente nossa, para fazer um relatório sacana. Tem que fazer do limão uma limonada. Por enquanto, é um limão que tá aí. Dá para ser uma limonada — disse Bolsonaro, em um ato que pode ser entendido como um crime de responsabilidade, pela tentativa de intervir no Poder Legislativo.

Descontrole                  

Na manhã desta segunda-feira, ao conversar com apoiadores, Bolsonaro condenou o registro e a divulgação do diálogo, sugerindo que não sabia que estava sendo gravado.

— O que está em voga hoje em dia é que eu fui gravado numa conversa telefônica, a que ponto chegamos no Brasil aqui. Gravado… Não é vazar. É te gravar. A gravação é só com autorização judicial. Agora, gravar o presidente e divulgar. E outra, só para controle, falei mais coisas naquela conversa lá. Pode divulgar tudo da minha parte, tá? — desconversou Bolsonaro, segundo imagens divulgadas na internet por um apoiador.

Logo em seguida, Kajuru concedeu uma entrevista à Rádio Bandeirantes para explicar ao apresentador José Luiz Datena que avisou ao presidente, às 12h40 de domingo, que divulgaria o áudio dentro de 20 minutos. De acordo com o senador, todos sabem que ele grava conversas telefônicas e que já divulgou outros diálogos que teve com Bolsonaro. Ainda segundo o senador, em nenhum momento o presidente pediu que ele não publicasse a gravação.

— No caso do presidente Bolsonaro, eu avisei ontem (domingo), 12h40, ao ligar para ele para contar sobre o requerimento feito, que eu subscrevi, do senador Alessandro Vieira, nós dois somos do mesmo partido, o Cidadania. Que é exatamente o quê? É estender a CPI para governadores e prefeitos. Falei ‘presidente, vou colocar agora, uma hora da tarde, a nossa conversa, que vai ser importante’ — acrescentou o senador.

‘Porrada’

Ainda segundo Kajuru, ele divulgou os áudios “porque foi um desabafo dele (Bolsonaro)”.

— Então, eu considerei que aquilo, para mim, como várias vezes eu já conversei com ele e coloquei no ar falas dele, eu voltei a fazer isso porque para mim foi uma proteção a ele para mostrar ao Brasil inteiro que ele está se sentindo prejudicado e, repito, usou a palavra sacana porque realmente ele estava chateado — interpretou.

Kajuru disse, ainda, que para proteger Bolsonaro omitiu o ataque a Randolfe Rodrigues.

— A única parte da entrevista que não coloquei para protegê-lo, porque acho que foi desnecessário, foi quando ele ofendeu um senador e falou que ia para a porrada com este senador. Falei ‘presidente, calma, não é hora disso, presidente’ — ponderou.

Durante o programa, Datena mostrou a Kajuru a fala de Bolsonaro aos apoiadores, autorizando-o a divulgar toda a conversa.

— Ele não está dizendo que eu menti. Ele está dizendo que eu não coloquei tudo o que ele falou. E ele sabe o que ele falou. Se ele quer que eu coloque, eu coloco — afirmou.

Vergonha

Ato seguinte, pediu a um assessor que selecionasse o trecho para exibição.

— Se ele deseja paz com a CPI, eu colocar no ar a parte do que ele falou, ele iria arrumar uma briga com todos os senadores. Agora, ele quer, ele vai ter — confirmou.

Em resposta ao presidente, ainda pela rádio paulistana, o senador Randolfe Rodrigues disse que “o presidente devia ter coisas mais importantes para se preocupar do que chamar senador para briga de rua”.

— Eu não sei o presidente, mas eu não tenho idade para participar de briga de rua — afirmou.

O fato político do dia, no entanto, repercutiu mal junto ao governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB). O ex-desembargador condenou a conversa mantida entre o presidente e o senador. Para o chefe do Executivo maranhense, trata-se de “mais uma vergonha”.

“Presidente da República tramando perseguição contra ministro do Supremo. É o sujeito mais despreparado que já ocupou a presidência na história do Brasil”, resumiu o governador.