Cresce desgaste entre presidente e vice após ‘traduções’ não autorizadas

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Publicado quarta-feira, 11 de novembro de 2020 as 15:27, por: CdB

Mourão evitou descer aos detalhes do discurso do presidente, na véspera. Ele avaliou, contudo, que a fala de Bolsonaro não deve causar consequências às relações com os Estados Unidos, por não ser, minimamente, sério.

Por Redação – de Brasília

Em rota de colisão com o companheiro na chapa que alcançou o Palácio do Planalto, nas últimas eleições, o vice-presidente da República, general Hamilton Mourão (PRTB), tentou colocar ‘panos quentes’, mais uma vez, nos hematomas causados à imagem do país, tanto internamente quanto no exterior. Segundo Mourão, as declarações de Bolsonaro sobre usar “pólvora” para proteger a Amazônia trata-se de um “aforismo antigo”.

Mourão foi impedido de falar em nome de Bolsonaro, após declarações polêmicas
Hamilton Mourão tem tentado traduzir as declarações do presidente Bolsonaro (sem partido), sem que tenha sido chamado para isso

Mourão evitou descer aos detalhes do discurso do presidente, na véspera. Ele avaliou, contudo, que a fala de Bolsonaro não deve causar consequências às relações com os Estados Unidos, por não ser, minimamente, sério.

— Acho que ele se referiu a um aforismo antigo que diz que quando acaba a diplomacia entram os canhões, foi isso que ele se referiu — afirmou, na chegada à sede da Vice-presidência.

Bolsonaro afirmou, na véspera, no Palácio do Planalto, que “quando acaba a saliva tem que ter pólvora”, ao citar possíveis sanções econômicas dos Estados Unidos ao Brasil caso o desmatamento na Amazônia não seja controlado.

— Assistimos há pouco um grande candidato à chefia de Estado dizendo que, se eu não apagar o fogo da Amazônia, ele vai levantar barreiras comerciais contra o Brasil. E como é que podemos fazer frente a tudo isso? Apenas pela diplomacia não dá — declarou Bolsonaro nesta terça, sem citar o nome de Joe Biden.

Atitude

O governo brasileiro é um dos poucos que ainda não se pronunciaram sobre a vitória do democrata nas eleições americanas. Aliado de Donald Trump, Bolsonaro aguarda o fim das ações judiciais movidas pelo atual presidente americano, que ainda não admitiu derrota.

Questionado se a fala de Bolsonaro poderia trazer consequências para a relação diplomática com os EUA, uma vez que o Brasil ainda não reconheceu a vitória de Biden, o vice-presidente minimizou o ocorrido e pediu calma. “Não causa nada. Isso aí tudo é figura de retórica, vamos aguardar, dê tempo ao tempo”, disse Mourão.

O vice-presidente também tentou minimizar, também, a atitude de Bolsonaro, que negou não conversar com ele há tempos.

— Eu falei com o presidente na segunda-feira, pô. Vocês não viram na cerimônia que estávamos os dois lado a lado conversando? — questionou aos jornalistas.

Afastamento

Nesta manhã, Mourão disse ainda que sua relação com Bolsonaro é “ética e de lealdade”. O distanciamento entre eles, no entanto, foi exposto pelo próprio presidente. Na noite de segunda-feira, logo após o encontro na solenidade citada pelo vice-presidente, o mandatário disse em entrevista ao canal norte-americano de TV CNN Brasil que não estava falando com Mourão sobre “qualquer assunto”.

O comentário ocorreu a propósito da fala de Mourão, que afirmou que “na hora certa” o Brasil iria cumprimentar o novo eleito para presidente nos Estados Unidos.

— O que ele (Hamilton Mourão) falou sobre os Estados Unidos é opinião dele. Eu nunca conversei com o Mourão sobre assuntos dos Estados Unidos, como não tenho falado sobre qualquer outro assunto com ele — resumiu Bolsonaro, à CNN.