Crime ambiental de Brumadinho: algumas reflexões a serem feitas

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Publicado segunda-feira, 28 de janeiro de 2019 as 09:42, por: CdB

O ano de 2019 se inicia e com ele temos mais uma grande tragédia social e ambiental no município de Brumadinho, Minas Gerais. Outra barragem de rejeitos de minério se rompe e centenas de pessoas são atingidas por lama e água, configurando o acontecimento como uma das maiores catástrofes minerárias do nosso país.

Por Pedro Luiz Teixeira de Camargo – de Belo Horizonte

A maior, até então, era o rompimento da barragem do Fundão, em Mariana, no mesmo Estado, cerca de três anos antes. Uma calamidade que deixou marcas não só na cidade histórica e seus arredores, mas em toda a bacia hidrográfica do rio Doce, até hoje sob monitoramento de programas de recuperação.

Uma calamidade que deixou marcas não só na cidade histórica e seus arredores, mas em toda a bacia hidrográfica do rio Doce

De maneira similar, o caso de Brumadinho também contaminou um imenso corpo hídrico, o rio Paraopeba, importante para o abastecimento humano no entorno de Belo Horizonte e afluente do rio São Francisco, um dos maiores do país.

Além da destruição incomensurável da região, centenas de pessoas seguem desaparecidas, causando um misto de indignação e desespero por todo o Brasil.

Entretanto, mesmo impactados com tamanha tristeza, é preciso pensar em algumas reflexões que precisam ser feitas por todos aqueles do campo democrático progressista pensando em se evitar mais situações trágicas como essas.

O primeiro ponto, a meu ver, precisa ser trazer para o debate central a questão das privatizações, prometida pelo novo presidente eleito em sua campanha e que o ministro Paulo Guedes trata como prioridade.

Duas barragens rompidas em cerca de três anos e ao menos doze acidentes em áreas minerárias desde 1997, ano que o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso (FHC) privatizou a antiga Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). Será coincidência tantos problemas em um intervalo de tempo tão pequeno?

Obviamente que a venda das nossas estatais foi um grave erro político e estratégico para um projeto de desenvolvimento de nação, mas agora, após tudo que temos visto, nem mesmo os argumentos dos privatistas se sustentam, afinal de contas é impossível dizer que a iniciativa privada é mais eficaz comparando antes e depois da venda da antiga CVRD.

Assim, penso que é preciso audácia para se gritar em alto e bom som em defesa da reestatização da Vale e de outras empresas privatizadas nessa época! Isso é um patrimônio do país que precisa ser devolvido! Será fácil? Nem um pouco, mas não apontar essa saída me parece falta de convicção do papel das nossas estatais, afinal levam nossas riquezas e nos deixam apenas com o ônus! Por que não ousar?

Um segundo ponto que me parece importante ser tocado, se dá em torno da disputa da narrativa. Enquanto empresas e grandes empresários tentam o tempo todo apresentar uma versão extraoficial de que foi acidente, se faz fundamental que os democratas disputem esse discurso dizendo a verdade: foi crime ambiental e os responsáveis precisam ser punidos de maneira exemplar!

Outra questão que me chama a atenção é a falta de investigações nos empreendimentos minerários de modo eficaz. Uma pesquisa rápida mostra que existem várias denúncias no Ministério Público de dezenas de empresas que estão descumprindo a legislação ambiental por todo o país, será que não é hora de nos espelharmos no exemplo de Belo Horizonte que teve ousadia de criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar supostas ilegalidades das atividades de extração mineral? Uma CPI da Mineração no Congresso Nacional é mais que necessária!

Por último, e não menos importante, é preciso não esquecer dos que perderam a vida nestas tragédias e, a meu ver, a melhor maneira de homenagear a todos que vieram a falecer ou desaparecer nestes crimes, é com a criação de “museus da lama”, em cada uma das cidades atingidas pelo rompimento dessas barragens.

Quando não se olha para o passado, corremos sempre o risco de cometer os mesmos erros no futuro, a exemplo do Museu do Holocausto, o Museu da Lama é mais que justo, é necessário, pois não podemos deixar de acertar contas com a nossa própria história!

Encerro deixando meu fraterno abraço a todos e todas que, como eu, mais uma vez, perderam conhecidos, parentes e amigos por conta da irresponsabilidade ambiental do Capital.

Sigamos!

Até a próxima.

Pedro Luiz Teixeira de Camargo, é Biólogo, Geógrafo e Professor; atualmente é Doutorando em Evolução Crustal e Recursos Naturais pela UFOP/MG e Membro da Direção Eixo Sudeste da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica (EcoEco). Foi diretor da União Estadual dos Estudantes de Minas Gerais (UEE-MG) e da Associação Nacional de Pós Graduandos (ANPG).

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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