Crimes em Araçatuba evidenciam falta de investigação policial

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Publicado terça-feira, 31 de agosto de 2021 as 13:14, por: CdB

Três pessoas morreram e outras quatro ficaram feridas. Um jovem ainda foi atingido por um explosivo e teve os pés amputados. Além de estarem fortemente armados, o grupo usou drones para monitorar a atuação policial.

Por Redação, com RBA – de São Paulo

Pelo segundo dia seguido, as forças de segurança de Araçatuba, no interior de São Paulo promovem uma ação de “varredura” pelo centro e outras regiões da cidade à procura de explosivos espalhados por assaltantes durante a madrugada de segunda-feira. A cidade permanece com parte de suas atividades paralisadas após o terror provocado pelo grupo que roubou duas agências bancárias, efetuou disparos com armas de grosso calibre e fez moradores de reféns, usando-os como escudo humano também sob tetos e capôs de carros para a fuga.

Moradores de Araçatuba foram feitos reféns e usados como escudo humano também sob tetos e capôs de carros para a fuga dos criminosos envolvidos no assalto a agências bancárias

Três pessoas morreram e outras quatro ficaram feridas. Um jovem ainda foi atingido por um explosivo e teve os pés amputados. Além de estarem fortemente armados, o grupo usou drones para monitorar a atuação policial. O secretário de Segurança Pública em exercício de São Paulo, coronel Álvaro Batista Camilo, disse que os ladrões tinham informações privilegiadas sobre a grande quantidade de dinheiro no Banco do Brasil.

O ataque colocou Araçatuba, município de quase 200 mil habitantes, como o local que teve a ação mais violenta do tipo em 2021. Mas esse tipo de modalidade criminosa não é um caso isolado.

Seis ataques no último ano

De acordo com a advogada Isabel Figueiredo, integrante do Conselho de Administração e consultora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, há pelo menos 20 anos acontecem ações criminosas organizadas no país com o emprego de armas de fogo para assaltos a bancos com uso de reféns. A atuação começou no Nordeste e ganhou o termo de “novo cangaço”. Uma referência às invasões como a do bando mais famoso do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Esse modus operandi se expandiu nos últimos anos para o Sul e o Sudeste.

No estado de São Paulo, foram ao menos seis ataques do tipo em pouco mais de um ano. No primeiro semestre de 2021, criminosos invadiram as cidades de Mococa e Jarinu, em abril e julho, respectivamente, depois de já terem espalhado terror em Araraquara, Botucatu e Ourinhos ao longo de 2020.

Apesar do histórico, chama a atenção da especialista que em todos os episódios “a polícia está correndo atrás desse prejuízo”, como observa em entrevista a Marilu Cabañas, do Jornal Brasil Atual. Isabel, que já atuou como secretária-adjunta de Segurança Pública do Distrito Federal e diretora da Secretaria Nacional de Segurança Pública, alerta que a respostas das forças de segurança não estão acompanhando os ataques que têm sido cada vez mais graves.

Falta trabalho de inteligência

– Não temos notícia da polícia conseguindo evitar esse tipo de ação, o que a gente tem sempre é o caso que aconteceu, com a desgraça posta. Nesse caso particular (de Araçatuba), com mortes, muito mais grave e violento do que as ocorrências registradas anteriormente – aponta.

A atuação do grupo criminoso também chamou atenção do tenente-coronel aposentado da PM de São Paulo, Adilson Paes de Souza, mestre em Direitos Humanos e doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP).

– Analisando as imagens na segunda-feira, verifiquei uma estética militar na ação desses grupos. Eles não estavam na rua, estavam progredindo e tomando o terreno, avançando com disciplina. É muito interessante a formação deles progredindo pela rua e fazendo um perímetro de segurança com as bombas de sensor de presença. É de um grau de profissionalismo imenso – detalhou, ao Jornal Brasil Atual. De acordo com o ex-comandante, esse modo de atuação também expõe que “o Estado está anos luz atrás desse grupo”.

Não há política de segurança

Souza destaca que os criminosos estão “trabalhando com inteligência e planejamento, o que falta para as forças legais”. A avaliação é que as organizações criminosas estão ocupando os vácuos deixados pela política de segurança pública do país como um todo. O problema começa, conforme descreve, pelas “fronteiras secas” que, sem monitoramento, estão funcionando como células de facções. Nesse caso, por “omissão federal” e falta de fiscalização do Exército sobre os armamentos.

Mas em comum, para os dois especialistas, há uma completa ausência de estrutura investigativa por parte dos entes federados que impede o país de ter uma política de segurança de fato. “Aposta-se no combate e na eliminação do dito ‘inimigo’ e deixa de lado a investigação e prevenção”, destaca o tenente-coronel aposentado.

Risco de novos ataques

– Até quando vamos ficar ‘correndo atrás do rabo’, prendendo pequeno traficante, o moleque que está fumando maconha na rua, esses crimes que eu chamo de ‘trombada’? A PM está ali circulando, patrulhando e ‘tromba’ com o crime. E o impacto disso na nossa criminalidade concretamente dessa atuação policial é muito pequeno. Temos pouco esforço dedicado a modalidades criminosas mais graves e que de fato geram impacto. Somos um país que não esclarece nem 20% dos homicídios aqui praticados. Ao mesmo tempo, este é o país com o maior número absoluto de homicídios do mundo e este tipo de modalidade criminosa como a que aconteceu (em Araçatuba) sem resposta. Acontece há mais de 20 anos e não estamos monitorando – alerta Isabel.

A secretaria de Segurança Pública divulgou que 380 policiais foram deslocados para localizar os criminosos. Mas a avaliação dos especialistas é que a situação é preocupante e demanda do governo federal e estadual união para a apresentação de um plano de enfrentamento que evite a continuidade desse histórico de ações criminosas nas cidades. “É como se diz, esse ‘leite já derramou’. E o que vamos fazer para que esse leite não derrame outra vez e outras pessoas não sejam assassinadas e não tenhamos essa situação de pânico? Esta é a resposta que queremos ouvir”, finaliza a consultora do FBSP.

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