Cúpula dos BRICS expõe fratura na relação entre Brasil e China

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Publicado terça-feira, 17 de novembro de 2020 as 17:03, por: CdB

Ao abrir seu discurso com uma fala de improviso, Bolsonaro citou rapidamente que o Brasil estava “em sintonia” com o restante dos países na busca de uma vacina para a covid-19 “segura e eficaz”, depois de Xi Jinping ter enfatizado o fato de a China ser um dos países que está à frente na pesquisa pelo medicamento.

Por Redação, com Reuters – de Brasília

A Cúpula dos BRICS, nesta terça-feira, foi o primeiro encontro, ainda que virtual, do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) com o presidente da China, Xi Jinping (PCCh), depois que o brasileiro envolveu o país e a vacina chinesa Coronavac em sua briga pessoal com o governador de São Paulo, João Dória (PSDB); além de apontar para uma clara divisão no bloco, com direito a críticas veladas de um lado e do outro.

Minuto de silêncio é observado pelo presidente da China, Xi Jinping, e outras autoridades, em homenagem aos 70 anos da entrada do país na Guerra da Coreia
Bolsonaro não suporta o fato de que o presidente da China, Xi Jinping, líder do Partido Comunista Chinês, tenha produzido uma vacina eficaz contra a covid-19

Ao abrir seu discurso com uma fala de improviso, Bolsonaro citou rapidamente que o Brasil estava “em sintonia” com o restante dos países na busca de uma vacina para a covid-19 “segura e eficaz”, depois de Xi Jinping ter enfatizado o fato de a China ser um dos países que está à frente na pesquisa pelo medicamento e que estaria disposto a distribuí-lo para os demais países do bloco.

Para além das farpas, a fala dos dois presidentes marcou claramente as diferenças que cada vez mais tem afastado China e Brasil, apesar do relacionamento comercial intenso — o país asiático é o principal importador do Brasil, e do próprio Brics — formado por Brasil, China, Rússia, Índia e África do Sul.

Barreiras

Multilateralismo, defesa das instituições internacionais como a Organização das Nações Unidas e Organização Mundial da Saúde e controle do aquecimento global foram alguns dos temas citados pelo presidente chinês que caminham em oposição às posições hoje defendidas pelo Brasil.

— Devemos superar as divisões com a unidade e colocar o máximo esforço para combater o vírus. A prática de usar a pandemia para perseguir o fim da globalização prejudica o mundo — disse Xi Jinping, acrescentando que a epidemia não pode ser usada para que barreiras sejam criadas.

Falando antes de Bolsonaro, Xi Jinping ainda defendeu que os países mantenham “propósitos e princípios” da Carta das Nações Unidas e um sistema internacional centrado na ONU para evitar hegemonismos e políticas de disputa de poder.

Desafio

Do seu lado, Bolsonaro foi em direção oposta. Ao mesmo tempo em que afirmava que o Brasil estava aberto a investidores e ao comércio internacional, defendeu mais uma vez que é preciso defender a democracia e as “prerrogativas soberanas dos países.”

— É preciso ressaltar que a crise mostrou a centralidade das nações para a solução dos problemas que hoje acometem o mundo. Temos que reconhecer a realidade que não foram os organismos internacionais que superaram o desafio, mas sim a coordenação entre os nossos países — afirmou Bolsonaro.

O presidente ainda defendeu a reforma das Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Organização Mundial do Comércio (OMC), dois pontos em que segue a política do presidente norte-americano, Donald Trump. Em julho o republicano enviou uma carta à OMS dizendo que o país estava se retirando da OMS, em um movimento que Bolsonaro ameaçou copiar, mas não levou adiante.

Propostas

Uma das queixas de Trump, repetidas pelo presidente brasileiro, seria uma suposta influência exagerada da China sobre a organização. Enquanto Xi Jinping defendia a organização, Bolsonaro afirmou:

— Desde o início critiquei também a politização do vírus e o pretenso monopólio do conhecimento por parte da OMS, que necessita urgentemente sim de reformas.

O presidente brasileiro ainda pediu, mais uma vez, uma reforma na OMC.

— A reforma da OMC é fundamental para retomada do crescimento econômico global. É necessário prestigiar propostas de redução dos subsídios para bens agrícolas com a mesma ênfase que alguns países buscam promover o comércio de bens industriais — acrescentou.

Tema recorrente da diplomacia brasileira, alterações na OMC chegaram a um impasse com um bloqueio nas negociações imposto por exigências do governo Trump.