Decidiu o tribunal: a rachadinha é legal

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Publicado quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021 as 10:16, por: CdB

 

Era o fim de uma tórrida tarde de verão no Bixiga. Não havia chovido. O Poeta tinha acabado de tomar um café com pão na chapa, no bar da esquina, onde os perversos apalermados palestrinos de plantão fizeram comentários desairosos sobre a campanha do Timão no campeonato nacional.

Por António Paixão – de São Paulo

Era o fim de uma tórrida tarde de verão no Bixiga. Não havia chovido. O Poeta tinha acabado de tomar um café com pão na chapa, no bar da esquina, onde os perversos apalermados palestrinos de plantão fizeram comentários desairosos sobre a campanha do Timão no campeonato nacional. “Que gente mais desqualificada!”, refletiu intimamente. Ele se dirigiu contrariado à sua confortável maloca e rogou a São Jorge um esplendoroso milagre dos bons, para colocar o Corinthians nos eixos e poupar a Fiel de situações como aquela há pouco vivida, fazendo-a feliz, como é o seu inalienável direito.

Flavio Bolsonaro

O Bardo do Bixiga já estava triste pela morte do poeta Lawrence Ferlinghetti, um dos fundadores do movimento beat na poesia com Allen Ginsberg, nos EUA, de quem foi editor, juntamente do grande Cláudio Willer, no Brasil. Ferlinghetti foi um escritor engajado politicamente, que combateu o ódio, as fobias e as convenções burguesas, tanto opressivas quanto excludentes. Cláudio Willer, ex-presidente da gloriosa UBE, que felizmente continua muito vivo e bastante produtivo, também trilhou a mesma senda. Ferlinghetti considerava a poesia como “arte insurgente”, no que tinha plena razão. A morte de um poeta é sempre uma estrela a se apagar no firmamento.

Com humor fúnebre, o Vate do Timão foi ler as notícias da tarde, enviadas gratuitamente pelo celular por seu assessor de imprensa, o notável Ruy Nogueira, a quem pensa dever sempre elogiar publicamente, sob pena de perder os diversos serviços gratuitos que ele lhe presta com a regularidade solar. Principalmente neste momento, em que está prestes a lançar sua nova obra, Annus Horribilis 2020, a qual tem o prefácio do inspirado poeta e jornalista Adalberto Monteiro, para assegurada vibrante aclamação global.

Grupo de médicos

Pois bem, chamou-lhe sua atenção uma notícia a respeito da publicação paga de um grupo de médicos defendendo o “tratamento precoce” contra a covid-19, o mesmo que já fora negado cientificamente mundo afora e mesmo no Brasil, inclusive com a divulgação, no dia anterior, de entrevista do presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, o centro médico de excelência no Brasil. Naquele depoimento, o ponderado presidente da prestigiosa instituição explicou a falta de fundamentos da posição dita de “tratamento precoce” e a irresponsabilidade daqueles que a defendem.

Esta bizarria fez o Vate do Timão se lembrar de seu saudoso pai quem, apesar de se chamar Aparecido (da Fiel), desapareceu muito cedo de sua vida, à busca das aventuras mundanas que incendiavam seu imaginário e, principalmente, suas partes baixas. Seu Aparecido não gostava dos médicos ineptos e desalmados os quais, segundo ele, maculavam a profissão e os valores que deveriam pautar sua conduta. Dizia ele: “meu filho, será sempre melhor uma benzedeira do que um médico ruim. Pelo menos ela não lhe fará mal”.

O final da tarde, decisivamente, não andava a contento para o Poeta. Foi quando ele se deparou com a informação de que o tribunal havia decidido ser legal a “rachadinha”. Prevaleceu o voto do micante ministro Salvatore Nostrano, em firme, franca, aberta e pública campanha para uma sinecura ainda maior em corte superior, quem alegou não ter sido a sentença de origem devidamente fundamentada.

Disseminação do horripilante fascismo

– Raios que me partam – disse o Bardo do Bixiga entre as quatro paredes de sua maloca, temeroso de ser entreouvido nestes tempos difíceis da disseminação do horripilante fascismo por todos os quadrantes da sociedade e de suas consequências tenebrosas. “Parece-me uma situação semelhante àquela ocorrida no Tribunal da Inquisição, em 1633, quando Galileu Galilei foi obrigado a negar sua teoria heliocêntrica de que o sol seria o centro do universo, e confirmar aquela esposada pela Igreja naquele momento, de que seria a terra estacionária. Após sua confissão, Galileu teria dito ‘e pur si muove’ (e, no entanto, se move), em voz baixa naturalmente, já que sabia o que era bom para a tosse”.

“A partir daquele momento”, continuou o Poeta introspectivamente, “a expressão passou a ser utilizada consistente e pacificamente por todos de bom senso a respeito de fatos que continuam sendo os mesmos, independentemente de de sentenças, opiniões, discursos ou manifestações, de qualquer caráter, laico ou religioso. É a chamada evidência solar, conceito que aparentemente não se encontra muito bem sedimentado em nossos tribunais”. De fato, parece ainda prematuro esperar seja sedimentada no judiciário brasileiro uma constatação de quase 500 anos atrás.

“Afinal, qual a justificativa adicional para se negar acesso a meios de prova numa situação tão flagrante, explícita e manifesta? Para se ver o sol, basta colocar a cabeça fora da janela. Ele estará logo ali, diretamente acima, claramente no dia e, indiretamente, pelo seu reflexo na lua, à noite. Basta querer ver. Não precisa de patavina”, concluiu o Poeta da Fiel ao abrir, com grande esperança, uma nova garrafa do esplêndido rum Santiago de Cuba generosamente presenteada por seu amigo, o Embaixador Pedro Monzón. “Nada como a solidariedade cubana”, constatou inescapavelmente.

“Por la justicia y por la dignidad”, bradou o Bardo do Bixiga, tomando a garrafa pelo gargalo.

 

António Paixão, é jornalista desempregado, enólogo voluntário, humanista, inspirado poeta, comunista e corintiano.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil