‘Deixe a luz do sol entrar’

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Publicado quarta-feira, 25 de abril de 2018 as 10:14, por: CdB

Em meio às indecisões de artista plástica sobre o parceiro ideal, cineasta francesa Claire Denis traça perfil da mulher e do homem do século XXI

Por Cloves Geraldo – de São Paulo:

Não sem razão o espectador, diante das buscas da artista plástica parisiense Isabelle (Juliette Binoche) pelo parceiro ideal, descobre que neste Deixe a luz do sol entrar, a cineasta francesa Claire Denis (1948) fala, na verdade, sobre os impasses amorosos da mulher e do homem do século XXI. Mostra desta forma que as tentativas femininas espelham as masculinas, em constantes dualidades. E ao não construir seu filme com narrativa linear, mas centrada em entrechos, as hesitações dos personagens terminam por expor sua incapacidade de estabelecer duradoras relações amorosas e, portanto, se ver como um casal.

Deixe a luz do sol entrar

Denis encadeia uma sucessão de encontros e desencontros de Isabelle em planos sequência, de câmera parada, como se deixasse o espectador espreitar os temores e o medo de Isabelle e do ator (Nicolas Duvauchelle) de iniciarem um relacionamento. Ele acabou de romper com a companheira e ela também. Ficam a se tatear, às vezes avançam, outras retrocedem. E mesmo quando parecem se entender, ficam sem nada estabelecer. O relacionamento dela com Françóis (Laurent Grévill), com o qual teve uma filha, não lhe deixou boas recordações. Daí seus temores.

Não menos evasivos são seus encontros com o banqueiro Vicent (Xavier Beauvois). Ele oscila entre declarações de amor e promessas, mas nada além disso. E também não se acerta com ele. Na sequência em que ela e a amiga Maxime (Josiane Balasco), dona da galeria onde expõe suas criações, o avaliam literalmente, ele não se sai bem. Não que buscasse garantias de amor eterno e sustentação financeira, é independente o bastante para ater-se apenas à relação amorosa. E, assim, Isabelle prefere se manter distante do insistente e galanteador de meia idade.

Isabelle vê no operário o parceiro que espera

Com esta estruturação, cheia de nuances e insinuações, Denis (Minha Terra, Àfrica, 2009) passeia pelas buscas de Isabelle pelo par ideal. Em sua maioria os homens que encontra são instáveis. Alguns, como seu amigo artista plástico Fabrice (Bruno Podalydès), se insinuam, mas se contêm, preferindo aconselhá-la sobre o tipo de parceiro que a convém. Principalmente, quando vão passar o fim de semana no campo com amigos

burgueses, aos quais critica por só pensarem em sua propriedade. Lá, finalmente, ela parece encontrar o homem ideal na figura do operário Sylvain (Paul Blain). Após dançarem e se sentirem atraídos, ela tende a se recolher com ele e levar a relação adiante como antes não fizera.

Assim, Denis cria no espectador a sensação de que o par ideal se configuraria no homem de outro meio social. Inexistindo barreiras, tão só visões alheias às possibilidades amorosas e de convivência duradora. No entanto, Sulvain não se mostra disposto a compartilhar seu meio e suas amizades com ela. Não é do tipo que leva os amigos para casa ou a companheira para o meio deles. A busca empreendida por ela se torna uma sucessão de encontros que tanto pode levar ao homem ideal ou a mais um insucesso. E Denis reafirma a visão de que o homem é um ser inconstante.

O espectador pode ver pessimismo na forma como ela constrói os homens enquanto personagens de seu filme. Isto acontece através do olhar e das tentativas de Isabelle em se relacionar com eles. Ainda que suas experiências sejam inclusas, ela não recua, persiste em tentar. Há mais problemas neles no que nela. Como se vê em seu fugaz reencontro com Françóis. Ele deixa a filha pré-adolescente no carro enquanto está com ela. E trata-a com impropérios, lhe dizendo que também tem direito ao apartamento e nem foram casados. Assim, Denis filtra a imagem do homem.

Vidente não esconde os impasses de Isabelle

De qualquer forma é como espelhar o todo pelas partes. Contudo, a própria Denis aponta a necessidade de vê-los dialeticamente: existem homens e homens, e homens. Classes e classes. E Isabelle, em sua eterna busca do par ideal, decide persistir. Seu encontro com o marchand afro Marc (Alex Descas) é o prenúncio do poderá encerrar uma fase de buscas infrutíferas. A sequência da caminhada deles pelas ruas na madrugada de Paris abre boas possibilidades, ao que ele responde com inconclusões. Mas, para ela, acostumada à não afetividade, algo pode estar pôr vir.

Na emblemática consulta que Isabelle faz ao vidente (Gerard Depardieu), Denis mescla suas buscas a visões e projeções, como se lhe coubesse confirmar este ou aquele pretendente sem lhe precisar qual. Deste modo, como diretora e, inclusive, roteirista em parceria com Christine Angot, deixa o espectador encaixar o que o vidente diz nas tentativas feitas pela própria Isabelle. Abole, assim, o determinismo do par a ela reservado, ou do par que acabará encontrando. Não só isto, Denis trata o relacionamento como uma construção, longe do romantismo e do amor.

Exposto desta forma, Deixe a luz do sol entrar não é uma obra com soluções para evidenciar o encontro ou o desencontro da personagem ou mesmo julgá-la. Denis evita projeções e sonhos, recursos dramáticos que muitas vezes revelam o que acontecerá à personagem, facilitando o entendimento do espectador sobre seu futuro. Ou se vale do romantismo e do determinismo com o surgimento do deus Adónis, personagem da mitologia greco-síria, que atenderá às expectativas de Isabelle. Prefere na longa sequência dela com o vidente deixar tudo em aberto, sem idealizações ou fantasias que ela pudesse àquela altura ter.

Deixe a Luz do Sol Entrar (Um beau soleil intérieur). Comédia dramática. França/Bélgica. 2017. 94 minutos. Trilha sonora: Stuart A. Staples. Edição: Guy Lecorne. Fotografia: Agnés Godard. Roteiro: Claire Denis/Christine Angot. Direção: Claire Denis. Elenco: Juliette Binoche, Gérard Depardieu, Alex Descas, Bruno Podalydès, Josiane Balasco, Paul Blain. Nicolas Duvauchelle, Laurent Grévill.

Cloves Geraldo, é jornalista e cineasta, dirigiu os documentários “TerraMãe”, “O Mestre do Cidadão” e “Paulão, lider popular”. Escreveu novelas infantis,  “Os Grilos” e “Também os Galos não Cantam”.

 

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