Depressão causada pela pandemia faz do suicídio um efeito colateral

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Publicado sábado, 11 de abril de 2020 as 14:00, por: CdB

A depressão causada por longos períodos de quarentena, a exemplo do distanciamento social — recomendado pela Organização Mundial de Saúde para que não se amplie a cadeia de transmissão da síndrome covid-19, que já matou mais de 100 mil pessoas ao redor do mundo —, tem sido um efeito colateral observado em pontos diversos do planeta.

Por Redação, com agências internacionais – de Londres, Porto Alegre e Rio de Janeiro
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Fonte: Facebook

O jovem gaúcho Jeff von Borowski, 26, nascido em São Luiz Gonzaga, perto da fronteira argentina; morador da pequena Santo Ângelo, também no Rio Grande do Sul, publicou em sua página no Facebook, neste sábado, uma mensagem em que deixa aos leitores instruções precisas da forma como lidar com a sua morte, a trilha musical e os outros detalhes do enterro. Leitor de ‘Calvin e Haroldo’, de Bill Watterson, e ‘A desobediência civil’, do norte-americano Henry David Thoreau, a família do autodeclarado militante anarquista, em tempos de pandemia, já foi alertada para o bilhete de um possível suicida.

A depressão causada por longos períodos de quarentena, a exemplo do distanciamento social — recomendado pela Organização Mundial de Saúde para que não se amplie a cadeia de transmissão da síndrome covid-19, que já matou mais de 100 mil pessoas ao redor do mundo —, tem sido um efeito colateral observado em pontos diversos do planeta.

Qualquer motivo, por mais banal que possa parecer aos olhos da maioria, torna-se um obstáculo intransponível para quem sofre com algum tipo de depressão, hoje agravada pela necessidade de todos para se afastar do convívio social. Um dos efeitos do estado mental depressivo, Na cognição, é a falta de concentração, lentidão durante atividades ou pensamentos suicidas, segundo descreve estudo do Hospital Israelita Albert Einstein.

Em um recente artigo publicado, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, escreveu que, além da propagação da infecção, também veríamos outros fenômenos. A covid-19 poderia trazer outra epidemia, segundo ele: uma epidemia de transtornos de estresse, depressão e ansiedade. A previsão se confirma.

Estresse

O medo do contágio com o novo coronavírus e as consequências da doença até a morte, no estado mais agudo da infecção, também aterroriza um número ainda incerto de pacientes, a exemplo da enfermeira Daniela Trezzi, 34, que cometeu o suicídio na Itália após receber diagnóstico positivo para o novo coronavírus.

Em nota, a Federação Nacional de Enfermeiros da Itália (Fnopi) disse que, ao se despedir da vida, na última terça-feira, Trezzi alegou ter medo de contaminar outros pacientes; mas seus colegas admitiram que, além do forte estresse, tratava-se de uma pessoa com traços de uma possível depressão. A jovem enfermeira trabalhava no setor de cuidados intensivos no hospital San Gerardo, em Monza, próximo a Milão, em uma das regiões mais afetadas pela pandemia na Itália.

Isolamento

A depressão leva a um quadro de risco para os pacientes, principalmente sob grande estresse ou, conforme agora, de afastamento social
A depressão leva a um quadro de risco para os pacientes, principalmente sob grande estresse ou, conforme agora, de afastamento social

Os mesmos sinais de uma fase depressiva, ampliada pelas regras de combate à pandemia, levaram o médico francês do Stade de Reims, Bernard González, 60, a um ato extremo. Ele cometeu suicídio no domingo passado.

Os jornais disseram que ele foi diagnosticado com coronavírus e isolado em casa, com a mulher, que também foi contaminada. Em uma carta cujo conteúdo não foi tornado público, o profissional de saúde explicou o motivo de sua decisão, com traços de uma depressão profunda.

— Penso nos pais, na esposa, na família… Ele é uma vítima colateral da Covid-19, porque foi detectado positivo e estava em quarentena. Sei que ele deixou um bilhete para explicar seu gesto, mas não conheço o conteúdo — disse Arnaud Robinet, prefeito da cidade, ao diário francês Le Parisien.

O clube também lamentou a morte do médico, em nota nas redes sociais: “Estamos em choque. Ele deixou uma carta explicando seu gesto, mas eu não sei mais. Não posso falar sobre isso”, escreveu David Guion, treinador de Reims.