Deveríamos aprender mais com os cults e clássicos

Arquivado em: Opinião, Últimas Notícias
Publicado segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021 as 09:00, por: CdB

 

Em 1972, no campo de filmagem do filme Aguirre, a Cólera dos Deuses, o ator alemão Klaus Kinski, protagonista, resolveu abandonar o trabalho e deixar a Amazônia, onde o filme era rodado. Para garantir que ele continuasse até o fim, o diretor, Werner Herzog, lhe apontou um revólver e disse que só abandonaria o filme morto.

Por Carolina Maria Ruy – de Brasília

Em 1972, no campo de filmagem do filme Aguirre, a Cólera dos Deuses, o ator alemão Klaus Kinski, protagonista, resolveu abandonar o trabalho e deixar a Amazônia, onde o filme era rodado. Para garantir que ele continuasse até o fim, o diretor, Werner Herzog, lhe apontou um revólver e disse que só abandonaria o filme morto. O episódio é relatado pelo próprio Herzog no documentário Meu Melhor Inimigo. Ele afirma que teria mesmo atirado se fosse necessário.

Dois membros da equipe da casa de leilões Sotheby’s em Londres posam em uma galeria com “Still Life, vaso com margaridas e papoulas”, de Vincent Van Gogh, de 1890

Em 21 de outubro de 1967 o cantor e compositor Sérgio Ricardo quebrou o violão e o arremessou em direção ao público durante a final do III Festival da Música Popular. Isso porque, ainda nas eliminatórias do concurso, uma semana antes, Ricardo tinha sido vaiado quando tocava Beto Bom de Bola.

Exposição de arte

Em 1917 o artista francês Marcel Duchamp levou um mictório (ou urinol) assinado como R. Mutt, para uma exposição da Associação dos Artistas Independentes de Nova York. A condição para expor era pagar 6 dólares de inscrição. “A reação do conselho da associação, do qual Duchamp fazia parte, veio nesta declaração: ‘Pode ser um objeto muito útil em seu lugar, mas seu lugar não é em uma exposição de arte e ele não é, de forma alguma, uma obra de arte’. (…) Duchamp é um pioneiro do dadaísmo e um artista à frente de seu tempo. Suas obras são (trocadilho intencional) a grande fonte da arte contemporânea, onde o ato de fazer arte pode ser mais importante que o objeto produzido, ou nem produzido, como no caso dele” (Aventuras na História, “O que há de tão importante no urinol de Duchamp?”, 31/8/2018).

Estes casos emblemáticos (poderíamos citar tantos outros), revelam uma coisa: as artes plásticas, a música, o cinema, enfim, as artes, em geral, têm na essência que as define como “arte” um componente de contestação, questionamento e até subversão.

Não que cada um de nós seja, em potencial, artisticamente inspirado como Herzog, Kinski, Sérgio Ricardo e Duchamp. Mas, de suas obras podemos depreender, no mínimo, que pensar além das regras pode nos levar além.

Desregulamentação social

Não defendo aqui nenhum tipo de desregulamentação social. As regras são necessárias para o convívio e o desenvolvimento da sociedade. O que não significa que não devemos ter o espírito crítico. Existe um equilíbrio entre seguir as regras, agindo socialmente, e ser contestador guiado por um horizonte de transformação, criatividade e liberdade.

Há uma incoerência básica, por exemplo, no fato de um debate em uma rede social, que se autointitula “cults e clássicos” estar tão apegado à rigidez de regras estabelecidas aleatoriamente por um administrador ao ponto de me censurar apenas por de eu ter criticado o fato de todos os dias ser submetida à leitura das “regras do grupo”.

Os cults e clássicos são cults e clássicos justamente porque, como Duchamp e os demais citados, são obras à frente de seu tempo. O enquadramento rígido, a submissão às exigências moldadas para uma rede social que atende, no fim das contas, às regras do mercado, esse agente opressor e castrador, mata o debate antes mesmo de ele nascer.

Penso, com isso, que deveríamos aprender mais com os cults e clássicos e não apenas usá-los como adereços de moda. Adereços que alguns usam para simular mais cultura e espírito crítico do que realmente tem.

 

Carolina Maria Ruy, é jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

code