Dólar fecha o ano supervalorizado e com a tendência de subir ainda mais

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Publicado quinta-feira, 31 de dezembro de 2020 as 13:41, por: CdB

O dólar à vista avançou 0,17% nesta sessão, a última do ano, a R$ 5,1915 na venda. No mês de dezembro como um todo, a divisa norte-americana registrou perda de 2,03%. Mas, no acumulado do ano, a disparada do dólar deixou o real com segundo pior desempenho global, atrás apenas do fragilizado peso argentino.

Por Redação – de São Paulo

O dólar registrou leve alta contra o real nesta quarta-feira, mas encerrou 2020 com ganho acumulado de mais de 29%, deixando a moeda brasileira com o segundo pior desempenho global no ano em meio à pandemia de covid-19, juros locais extremamente baixos e incertezas fiscais domésticas persistentes.

Para especialistas, o cenário externo permanece dando a direção, com investidores atentos a todos os potenciais focos de incertezas comerciais e geopolíticas
Para especialistas, o cenário externo permanece dando a direção, com investidores atentos a todos os potenciais focos de incertezas comerciais e geopolíticas

O dólar à vista avançou 0,17% nesta sessão, a última do ano, a R$ 5,1915 na venda. No mês de dezembro como um todo, a divisa norte-americana registrou perda de 2,03%. Mas, no acumulado do ano, a disparada do dólar deixou o real com segundo pior desempenho global, atrás apenas do fragilizado peso argentino.

O ganho anual de 29,37% marcou o quarto ano consecutivo de avanço para a moeda norte-americana frente ao real, bem como o terceiro pior ano para a divisa brasileira desde pelo menos 2003. Na máxima intradiária de 2020, alcançada em 14 de maio, o dólar à vista chegou a tocar R$ 5,9725 na venda.

Lockdown

A crise sanitária e econômica em todo o mundo balançou os mercados financeiros globais neste ano atípico e marcou presença no câmbio brasileiro, sendo apontada como um dos fatores que elevaram a busca pela segurança do dólar, em meio à paralisação de empresas, a forte redução do consumo e o aumento do desemprego em vários países.

Nos últimos meses, o forte ressurgimento dos casos de covid-19 nas principais economias do mundo — assim como uma nova variante mais infecciosa da doença recentemente descoberta no Reino Unido — levou a novas medidas restritivas e de lockdown na Europa e nos Estados Unidos, deixando os investidores nervosos.

— A pandemia pegou vários de surpresa; tivemos a famosa segunda onda — disse à agência inglesa de notícias Reuters Gilberto Rolha, gerente de operações em câmbio do Travelex Bank.

Selic

Mas não foram os fatores globais, relacionados à pandemia, os únicos responsáveis pela disparada da moeda norte-americana contra o real em 2020.

A redução sucessiva da taxa básica de juros do Brasil, atualmente na mínima histórica de 2% ao ano, foi um ponto determinante para a dinâmica cambial vista em 2020. O baixo patamar dos juros locais afetou o rendimento de ativos locais atrelados à taxa Selic, tornando o Brasil menos interessante para o investidor estrangeiro quando comparado a pares com nível de risco semelhante.

— Com a Selic a 2%, os investidores vão procurar outros países emergentes com juros maiores — explicou Rolha.

Dúvidas

Somando-se a esse ambiente de menor ingresso de recursos do exterior, a incerteza fiscal brasileira ganhou nos últimos meses um protagonismo cada vez maior dentro do radar de riscos dos mercados domésticos.

Com um Orçamento apertado para 2021 e gastos expressivos diante da pandemia, há forte temor entre os investidores de que o governo fure seu teto de gastos, abandonando a postura de austeridade que foi promessa eleitoral do presidente Jair Bolsonaro.

— Há anos o Brasil tem um nível muito grande de gastos que até hoje não diminuiu. E, dado que estamos num cenário de aumento de gastos, levantamos algumas dúvidas: para onde vai o fiscal brasileiro? Diante disso, qual o nível justo da taxa de câmbio? — questiona Otávio Aidar, estrategista-chefe e gestor de moedas da Infinity Asset.

Reformas

Os mercados querem ver medidas concretas de controle de gastos, mas, até agora, as perspectivas parecem embaçadas. Em meados de dezembro, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) Emergencial, que tem o objetivo de regulamentar o teto de gastos com gatilhos e tratar de temas do pacto federativo, teve a apresentação adiada.

Em meio à pouca confiança na saúde das contas públicas, a agenda atrasada de reformas estruturais do governo falha em fornecer algum amparo aos investidores, que esperavam encontrar na consolidação de reformas como a administrativa ou tributária uma maneira de atrair mais investidores de fora, e consequentemente, mais recursos para o Brasil.

— Temos que ficar atentos nas reformas. Se não houver reformas, vamos andar para o lado — conclui Rolha.

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