Donald Trump abre nova zona de guerra na Síria

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Publicado quinta-feira, 10 de outubro de 2019 as 09:58, por: CdB

Ao abandonar os curdos, aliados de longa data, e abrir caminho para ofensiva turca, EUA deixam vácuo numa das áreas mais instáveis do Oriente Médio. Entenda como Irã, Rússia e até o “Estado Islâmico” devem sair ganhando.

Por Redação, com DW – de Washington

A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de retirar soldados norte-americanos do norte da Síria, abrindo caminho para uma ofensiva turca contra a minoria curda, pode favorecer Rússia, Irã, o regime sírio de Bashar al-Assad e o “Estado Islâmico” (EI).

Soldados turcos cruzam a fronteira rumo ao norte da Síria: curdos como alvo
Soldados turcos cruzam a fronteira rumo ao norte da Síria: curdos como alvo

Ainda não se sabe até onde a Turquia pretende avançar contra os curdos e ocupar o espaço deixado pelas tropas norte-americanas. Mas Ancara quer expulsar as Forças Democráticas Sírias (SDF), em grande parte curdas, que vê como uma ameaça doméstica, enquanto, segundo argumenta, criaria uma “zona segura” para o regresso de milhões de refugiados sírios hoje em território turco.

A pergunta agora é como Moscou, Teerã e Damasco reagirão, no que parece ter sido uma troca de favores entre a Turquia e os principais membros do chamado Processo de Astana – uma iniciativa de paz para a Síria conduzida pela Rússia e Irã, países que apoiam o regime de Assad.

Fato é que os curdos da Síria estão agora enfraquecidos nas negociações para uma aliança com Assad, a fim de repelir a Turquia. Duas tentativas anteriores de diálogo fracassaram, mas há sinais de que Damasco poderá fazer regressar à sua órbita, em troca de apoio militar, as áreas controladas pelos curdos.

Os curdos são aliados norte-americanos desde a invasão do Iraque, em 2003. Desde 2011, recebem apoio dos EUA para combater o “Estado Islâmico”. Os curdos, que somam até 40 milhões de pessoas espalhadas entre Síria, Turquia, Irã e Iraque e não possuem território próprio, também combatem o regime de Assad e são inimigos do governo turco, que considera as SDF um grupo terrorista.

Espaço para a Rússia

A retirada dos EUA abriu condições para Moscou consolidar a sua posição como potência numa eventual paz síria ao devolver Idlib, no oeste do país, às forças de Assad.

Como parceiro militar-chave das forças do regime sírio, a Rússia se viu frustrada pela incapacidade da Turquia de desarmar os rebeldes jihadistas em Idlib. Mas o aparente acordo com a Turquia significa que muitos rebeldes serão atraídos para uma nova frente, aberta por uma invasão turca no leste.

Isto permitiria à Rússia dar luz verde a Assad para recuperar território-chave numa das frentes finais da guerra síria, que já se estende por oito anos.

A Rússia quer que os EUA abandonem a Síria e afirma repetidamente que acredita que os norte-americanos estão na Síria ilegalmente.

Embora Rússia e Turquia apoiem lados opostos na guerra síria, Moscou vê como positiva uma retirada total dos EUA da Síria, pois daria aos russos ainda mais poder, não apenas para moldar o futuro da Síria, mas em todo o Oriente Médio.

A volta do “Estado Islâmico”?

Brett McGurk, antigo representante dos EUA na coalizão global contra o “Estado Islâmico”, descreveu a decisão de Trump como um “presente à Rússia, ao Irã e ao EI”. Já Salih Muslim, porta-voz do Partido de União Democrático, aliado das forças curdas, teme que o território curdo seja invadido pelos radicais salafistas de Idlib.

– A Turquia vai trazer todos os jihadistas para mais perto desta área e possivelmente estabelecer um tipo de território que pertence apenas aos salafistas – disse Salih Muslim. “A Turquia estava feliz antes, quando eles estavam na fronteira e estava negociando com eles e obtendo petróleo deles. Talvez a Turquia vá estabelecer um novo califado.”

A SDF também terá de lidar com os cerca de 70 mil combatentes do “Estado Islâmico” detidos em campos sob o seu controle, num momento em que concentrará as suas forças numa batalha ao norte, com a Turquia.

Salih Muslim questiona a declaração de Trump de que a Turquia vai agora assumir a responsabilidade pelos detidos. “Os membros do ‘Estados Islâmico’ foram apoiados pela Turquia, até mesmo armados por eles e enviados para a Síria. Então, como podem tornar-se responsáveis por eles? Eles vão reorganizá-los e usá-los como chantagem contra a Europa.”

Irã fortalecido 

O Irã também sairá ganhando, numa situação em que qualquer retirada dos EUA da região lhe permite expandir a sua influência regional. O vácuo deixado por uma retirada dos EUA permite que Teerã consolide suas forças na Síria em meio a uma “guerra por procuração” com Israel.

Essa perspectiva pode antagonizar Israel, que já bombardeou seguidas vezes a Síria com o objetivo declarado de atingir instalações e linhas de abastecimento iranianas. Pode também encorajar Israel a estender sua própria “zona segura” no sul da Síria para se contrapor ao Irã e seu aliado libanês, o Hisbolá.

O ataque contra a minoria curda é considerado por observadores como potencialmente a maior mudança em anos na guerra síria, ao envolver diretamente potências globais e regionais. A decisão de Trump de sair da região foi denunciada pelos curdos como uma punhalada nas costas, crítica repetida também dentro dos EUA, inclusive por membros do Partido Republicano.