E se os evangélicos participarem de um golpe?

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Publicado segunda-feira, 29 de março de 2021 as 11:53, por: CdB

Nestes dias em que os bolsonaristas comemoram os 57 anos do Golpe Militar de 1964, começamos a viver outro tipo de polarização — não a de Lula versus Bolsonaro, mas a do nascente movimento pela destituição do presidente insano e genocida se defrontar com a campanha, já existente, pelo fechamento das instituições democráticas, como STF e parlamentos, com um novo Golpe.

No caso de golpe, as arminhas serão usadas?

Isso me levou a fazer comparações com o recente golpe ocorrido, em fevereiro, na Ásia, na Birmânia, país hoje com o nome de Mianmar . Porque em Mianmar existe uma população doutrinariamente e basicamente pacifista por seguir os ensinamentos de Buda. Há 14 anos, milhares de monges budistas saíram às ruas numa manifestação silenciosa e ordeira de protesto contra o aumento do preço dos alimentos ou alta do custo de vida. Também silenciosamente, pois 90% da população é budista, os monges influíram no retorno dos militares às casernas e na libertação da mulher líder da democracia, Aung San Suu Kyi, depois de 14 anos de prisão domiciliar.

Entretanto, depois de cinco anos de governo democrático com Aung San Suu Kyi, a imprensa internacional tinha manifestado sua inquietação por ver, nos últimos meses, importantes dirigentes budistas se encontrando com generais birmanêses da época da ditadura. Doações eram feitas, assim como promessas para reabertura dos pagodes ou templos. Esses dirigentes budistas não deram as caras e nem fizeram declarações ao ocorrer o Golpe no dia 1 de fevereiro com nova prisão da presidente democraticamente eleita.

Os budistas birmanêses não constituem um grupo religioso, existem diversas tendências, entre elas a dirigida por um clero formado de sacerdotes ultranacionalistas. Esse grupo se tornou majoritário e se aproximou dos militares. A existência no país de um minoria muçulmana justificou uma política de perseguição étnica e também religiosa aos muçulmanos, vítimas de expulsões e violências. A existência desse inimigo comum, os muçulmanos Rohingyas, acabou por criar uma relação muito próxima entre os militares com os budistas nacionalistas.

Ora, embora Aung San Suu Kyi sempre demonstrasse sua fé budista, a líder dirigente democrata tentava criar uma distância entre a religião e o poder, entre nós diríamos: tentava manter distância entre Igreja e Estado. Isso incluía leis regulamentando as finanças do clero budista, geradoras de um certo esfriamento dos dirigentes budistas com relação a Aung San Suu Kyi. Esses mesmos dirigentes criticavam o fechamento dos templos budistas durante a atual crise do coronavírus. Logo depois do golpe, foram reabertos todos os pagodes.

Em síntese, embora tenha havido alguns monges nas atuais manifestações contra os militares golpistas, um morto e um preso, o clero budista, na sua grande maioria, demonstra pela sua passividade um apoio, mesmo que discreto, às violências cometidas contra manifestantes e mesmo mortes de antigolpistas pela junta militar golpista no poder.

Comparação com os evangélicos

Na Birmânia, o inimigo comum unificador do clero budista com os militares são os muçulmanos. No Brasil, o inimigo comum, criado pelos gabinetes de ódio de Bolsonaro, contra os quais unem-se os evangélicos e os militares, são os comunistas (embora quase inexistentes) e os petistas.

A doutrina evangélica, embora enfatize o amor e a prática do bem contra o mal e a violência, como pregam também os budistas, não demonstrou qualquer problema em apoiar o programa de violência preconizado durante a campanha eleitoral de Bolsonaro e numerosas declarações de ameaças aos adversários, depois de eleito.

O apoio de muitos líderes evangélicos, no episódio da prisão do senador pregador de violência e golpe, Daniel Silveira, foi bastante sintomático e revelador de uma pré-disposição de apoiar a violência o governo Bolsonaro, caso necessário.

Como na Birmânia, a fim de manter o apoio dos evangélicos, o presidente Bolsonaro acaba de perdoar as dívidas do clero religioso, relacionadas com pagamento de impostos locais e de renda, de pastores, igrejas, instituições e escolas religiosas, num total de mais de bilhão de reais. Ainda na semana passada, o pregador evangélico Silas Malafaia — que não esconde seu apoio político a Bolsonaro, mesmo diante do fracasso do presidente na gestão da crise do coronavírus, já causador de centenas de milhares de mortos — esteve com Bolsonaro para pedir a reabertura das igrejas evangélicas, fechadas por determinação de governadores.

Os evangélicos conseguiram eleger importante bancada na Câmara Federal e no Senado, e imagino ter ocorrido o mesmo nas Câmaras municipais e estaduais por todo Brasil. O governo tem como ministros pastores representantes dos evangélicos, como André Mendonça, Milton Ribeiro e Damares Alves, perfeitamente entrosados com os programas de destruição do Estado e da Cultura, preconizados pelo presidente Bolsonaro. Fiéis não se manifestam diante do caos sanitário brasileiro, que devem justificar diante de seus fiéis ingênuos, utilizando comparações e percentagens com outros países.

Paralelamente, o apoio ao governo de Bolsonaro é reforçado todas as semanas por pastores, nos cultos e pregações nas centenas de milhares de igrejas evangélicas espalhadas pelo Brasil. Essas pregações pontuais e semanais são consideradas pelos fiéis como recados de Deus. Hoje, mesmo com uma certa queda do apoio ao governo Bolsonaro, cerca de 30% permanecem bolsonaristas, são os evangélicos, em consequência da repetição semanal das falsas informações transmitidas pessoalmente pelos pastores. Muitas igrejas não evangélicas, mas do grupo protestante, também incluíram nas suas doutrinas o apoio total ao presidente.

Os budistas são pacíficos, os evangélicos, mesmo escrevendo mensagens de ódio pela Internet e fazendo ainda hoje o gesto da arminha, se dizem pacíficos. A arma deles seria a Bíblia, já definida por alguém como uma velha viola na qual se pode tocar qualquer música ou melodia. Todos estão dispostos a lutar contra o Mal, no caso os inimigos do presidente. Com armas na mão? Deixando haver um golpe passivamente, sem interferir nas violências que forem cometidas, como os budistas da Birmânia?

Meu temor é o de ver o rebanho evangélico, tão bem doutrinado e controlado, reagir como os seguidores de Trump no ataque ao Capitólio, nos EUA, no caso de destituição do presidente, genocida e coveiro da nação, e mesmo no caso de um derrota nas eleições de 2022. Os evangélicos passaram a ter ódio dos adversários do presidente, dos ministros do STF, dos governadores favoráveis ao confinamento, de deputados, de jornalistas e da imprensa, quando criticam a imprensa. Nem sempre religião é sinônimo de paz, amor e pacifismo, os cristãos da Idade Média criaram diversas vêzes climas de terror. Se houver tropas nas ruas, golpe com guerra civil, não tenhamos ilusões, os evangélicos do gabinete do ódio usarão as arminhas em nome de Deus, Jeová, Cristo ou Buda. Que não cheguemos lá!

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

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