Eleições no México, espelho para o Brasil

Arquivado em: Opinião, Últimas Notícias
Publicado terça-feira, 23 de janeiro de 2018 as 09:31, por: CdB

A nós, que aqui no Brasil somos novamente apresentados ao canto das sereias do neoliberalismo, a história recente do México é elucidativa

Por Alexandre Ganan de Brites Figueiredo – de São Paulo:

A frase célebre é de um jornalista e político conservador, muito atuante no México em ebulição revolucionária do início do século XX. Costuma-se atribuí-la a Porfírio Diaz, ditador derrocado pelo movimento que deu início à Revolução Mexicana, em 1910, mas sua autoria é de Garcia Naranjo. Era uma época em que até um conservador via com desconfiança a influência estrangeira nos destinos de seu país. Contudo, já faz algum tempo que a proximidade com os Estados Unidos deixou de ser mal vista por cooptadas elites mexicanas que, desde a década de 1980, tanto adotaram a aplicação do neoliberalismo como deram caráter prioritário às relações com Washington, em detrimento de uma histórica tradição política latino-americanista.

“Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”

Brasil

A nós, que aqui no Brasil somos novamente apresentados ao canto das sereias do neoliberalismo; a história recente do México é elucidativa. Ela tanto nos demonstra os efeitos perversos da aplicação do receituário; que ora querem novamente nos impor como ressalta as semelhanças que aproximam a luta política da resistência em todo o continente.

Assim como nós, nesse ano os mexicanos irão às urnas; para eleger seu próximo presidente. Terão diante de si a escolha entre a continuidade desse projeto neoliberal e o início de uma transformação que o reconcilie com sua história combativa.

Hoje, com os EUA sob a presidência de Trump, os mexicanos (e imigrantes em geral); são responsabilizados pelos problemas internos dos Estados Unidos. Desde a prometida construção de um infame muro na fronteira com o México; até a anunciada vontade de rever o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA, na sigla em inglês); o governo norte-americano deixa claro seu desdém pelo vizinho do sul. Mas, quando se tratava, há 30 anos, de implantar os “ajustes” neoliberais, a retórica foi diferente.

Carlos Salinas

Carlos Salinas, que presidiu o México de 1988 a 1994, foi o responsável pelo início da aplicação em larga escala da desregulamentação da economia e da política de estado mínimo.

Eleito por margem mínima e baixo fundadas acusações de fraude; que só não foi comprovada em decorrência de um incêndio; que destruiu todas as cédulas de votação; Salinas negociou o ingresso do México na área de livre comércio que já existia entre EUA e Canadá desde 1989, formando o NAFTA.

À época, o acordo foi apresentado como uma excelente notícia para os mexicanos. Prometeram investimentos, novos empregos, acesso a mercados. Coroando o processo; Salinas foi capa da revista Time, que o escolheu como o “homem do ano”. Contudo, passados mais de 20 anos de vigência do acordo; além do governo norte-americano tratar o México como sócio incômodo e dispensável; o resultado foi a destruição da economia nacional, a crise social e o caos político.

Os ricos não costumam ter sócios pobres em condições de igualdade. Evidentemente, a incorporação do México como parceiro pobre do norte não se devia às boas intenções da Escola de Chicago. As empresas transnacionais, principalmente dos EUA; viram a possibilidade de instalar-se no México e usufruir da mão-de-obra barata, impostos baixos ou zerados e fiscalização ambiental e trabalhista pífia. Em conseqüência, o norte do México foi invadido pelas “maquiladoras”; indústrias que apenas montam componentes já fabricados em outros lugares e, graças ao NAFTA, com ingresso a baixíssimo custo no México. A rigor, essas “maquiladoras” já existiam, mas foi após a vigência do tratado que se expandiram enormemente.

Economia mexicana

A liberalização da economia mexicana nos marcos dessa integração profundamente assimétrica implicou apenas no seu apresamento pelos sócios maiores. A indústria de conteúdo local; incapaz de concorrer, foi dizimada. As “maquiladoras” levaram a um incremento das exportações. Mas não consolidaram cadeias de produção locais (já que são apenas montadoras).

Assim, geraram postos de trabalho de baixa qualidade, com salários rebaixados. A promessa de crescimento econômico era fajuta: a pobreza hoje atinge metade da população mexicana.

O narcotráfico domina as grandes cidades do norte do país não apenas pela proximidade com os maiores compradores de drogas ilícitas do planeta; ao norte do rio Grande, mas também pelo rebaixamento social que a satelitização pelos EUA, somada ao receituário neoliberal, impôs a essas cidades. Não é coincidência que justamente em Ciudad Juárez; sede de maquiladoras na fronteira com os EUA, ocorram ações criminosas macabras como os assassinatos de centenas de mulheres, documentados desde a década de 1990; que Roberto Bolaño relatou na quarta parte de “2666”. A falência do Estado, sua incapacidade em garantir a mínima segurança à cidadania, é evidente conseqüência da aplicação do estado mínimo liberal. Os cartéis, na prática, governam regiões inteiras do México; além de associar-se à própria estrutura da administração pública.

Enrique Peña Nieto

Como se não bastasse, os governos que vem de Carlos Salinas até o atual Enrique Peña Nieto continuaram a aplicação das reformas neoliberais. As mesmas que hoje o golpismo quer empurrar goela abaixo do povo brasileiro.

Foi lá implementada uma reforma na legislação trabalhista cujo resultado é a precarização do emprego e a maior concentração da renda. Foi também aplicado um amplo programa de privatizações; cuja pedra de toque veio no ano passado, com a permissão para a venda do petróleo mexicano e o rebaixamento da PEMEX, a petroleira nacional.

Não há aqui nenhuma coincidência. É a mesma receita e podemos esperar as mesas conseqüências: crescimento da pobreza e falência da capacidade do estado em cumprir suas funções.

As eleições presidenciais no México devem ocorrer neste ano; assim como as nossas. Lá, como aqui; o projeto neoliberal se apresentará como portador de modernização e desenvolvimento. Lá, como aqui, isso será uma mentira.

Lá, como aqui, haverá um candidato louvado pelos monopólios midiáticos; e pelo mercado como uma pessoa de “perfil mais técnico que político”; de preferência pós-graduado por alguma importante universidade norte-americana. Lá, esse candidato é hoje José Antonio Meade; que deixou a pasta da Fazenda para cuidar da campanha eleitoral (aqui, ainda não chegaram a um consenso).

Campo popular

Lá, como aqui, haverá candidaturas do campo popular com um programa de defesa dos direitos, ampliação dos espaços democráticos; defesa da soberania nacional, proximidade com os povos da América Latina e de um projeto de desenvolvimento. Lá, como aqui; uma dessas candidaturas à esquerda lidera todas as pesquisas – Andrés Manuel Lopez Obrador; hoje no Movimento de Regeneração Nacional (MORENA). E lá, como aqui, é cotidianamente bombardeada com perseguições e falsas notícias.

Lá, como aqui, o neoliberalismo fracassou e provou sua incapacidade de construir melhores condições de vida para a maioria. É preciso garantir que tanto lá como aqui o povo possa manifestar-se em eleições livres e plenas, sem restrições de qualquer espécie, para escolher o futuro que deseja.

Alexandre Ganan de Brites Figueiredo, é advogado, bacharel em História e doutor em Integração da América Latina pelo PROLAM (Program de pós-graduação em Integração da América Latina) da Universidade de São Paulo (USP).