Enriquecer os ricos e matar os pobres

Arquivado em: Opinião, Últimas Notícias
Publicado segunda-feira, 16 de julho de 2018 as 12:45, por: CdB

A crise do sistema capitalista fecha e abre bancos, onde os clientes de classe média pensam guardar em segurança a suada poupança de uma vida. Descobrem que os governos perdoam impostos para que o capital cresça nos cofres

Por Zillah Branco – de Brasília:

Mas os rendimentos de pequenas contas ficam retidos por meio de embrulhadas exigências jurídicas que constituem o trabalho burocrático bancário para que grandes investimentos e prêmios circulem enquanto o pequeno cliente aguarda a libertação do seu depósito que só ocorre quando a sua moeda for desvalorizada frente ao dólar e o euro que comandam o mercado mundial.

A crise do sistema capitalista fecha e abre bancos

É fácil compreender a mágica do enriquecimento dos que manejam o capital para quem observou o sistema de pagamento nos latifúndios ou nas minas, que é feito no mercado interno da empresa, através dos produtos alimentares e das ferramentas que sobem de preço antes do dia em que o magro salário seria pago.

Os trabalhadores que não chegam a criar uma poupança com os salários congelados para que a empresa que os contrata não vá à falência, “coitados dos patrões”, não podem reivindicar a aplicação das leis laborais por causa da “crise sistêmica” que afeta o país, “coitados dos banqueiros”. Devem ser solidários com os “honrados” governantes que pagam as dívidas “nacionais” contraídas com os generosos bancos, aqueles mesmos que promovem as oscilações do valor das moedas no mercado financeiro.

Nesta questão os governantes lembram os bons princípios morais ensinados ao povo, mas não à elite. Como hoje diz o Primeiro Ministro em Portugal ao reconhecer que os professores tiveram os salários congelados durante nove anos impedindo a sua evolução na carreira: “vou descongelar três anos porque o Estado não tem recursos para mais”, e reforça os capitais dos bancos para poderem emprestar com juros altos.

A história é a mesma de um século atrás, mas agora toca a vez da classe média “pagar o pato” baixando o nível de vida, ao mesmo tempo que o operário conhece o peso da fome em sua casa. Os governantes com ar compungido explicam que “sentem muito” mas a realidade “é que o dinheiro do Estado escasseia”. Parece lógico, a quem não pensar com a própria cabeça. “Coitados dos governantes” tão bem intencionados… Gastam tanto promovendo eventos ruidosos para desenvolver “culturalmente” o povo tão embrutecido!

Jack London, escritor norte-americano cresceu na pobreza dos trabalhadores, mas ficou estarrecido com a miséria que foi conhecer em Londres no início do século XX. No país colonizador e criador do sistema bancário mundial, em pleno centro da cidade frequentada por ricos de todos os países, encontrou no East End uma pocilga mais infecta que muitas favelas do Terceiro Mundo.

Para aí convergiam os que abandonavam a dura vida do trabalhador no campo para viver com toda a família em um quarto, sem cozinha e condições de asseio. O escritor explicava que a primeira geração que aí se instalava gozava ainda de saúde e arranjava emprego que mal dava para o aluguel do quarto e a alimentação.

Os seus filhos mirravam sem espaço e respirando a famosa poluição de Londres, não tinham forças para serem rentáveis no trabalho pesado e decaíam na espécie humana até morrerem embrutecidos pelo alcool. Os que sobreviviam na terceira geração, iam para a bandidagem e a prostituição. Essa era a escola para enriquecer o sistema capitalista.

Certamente não chegavam a preocupar os dirigentes, como os idosos de hoje que preocupam Cristine Lagard na chefia do FMI “devido ao aumento da esperança de vida”. Morriam cedo, sem criar problemas para os ricos no seu afã de lucro fácil.

Para limpar a cidade de Londres foi fácil também. Os empresários compraram os imóveis e subiram as rendas, como hoje ocorre em Lisboa que recebe moradores de maior categoria (como a cantora Madona a quem a Câmara empresta um terreno com muros e portões para os seus 15 carros de uso doméstico) em pleno centro da cidade.

Os estudiosos da economia capitalista explicam que são engendradas políticas habilidosas para superar as crises do sistema com uma relativa cedência às reivindicações populares. São as fórmulas social-democratas que evitam a morte dos trabalhadores animando o que chamam de Estado Social com escolas e saúde públicas e a enganosa “segurança” social. De certa forma investem parte dos lucros do capital para tirar as famílias dos trabalhadores da ignorância e da mortalidade por fome e permitindo que doentes ou idosos possam sobreviver sem recorrer às esmolas degradantes.

Mas esta aparente generosidade tem outro objetivo: cria uma nova camada social capaz de consumir o que a sociedade produz fazendo o capital circular para crescer. Foi o que ocorreu nos Estados Unidos dirigido por Roosevelt para enfrentar as crise de 1929 realizando uma reforma no capitalismo sob a orientação de Keynes. Conseguiu criar milhões de empregos para abrir estradas e fazer usinas hidroelétricas que modernizaram o país tornando-o atrativo para emigrantes de todos os continentes que levaram os seus conhecimentos como mão de obra barata para enriquecer o país.

Mas o sistema capitalista prosseguiu o seu desenvolvimento inevitável enveredando pelo caminho neo-liberal que cria a hegemonia do capital financeiro sobre o capital produtivo transformando o Estado na ditadura do grande capital. O Consenso de Whashington na década de 1990, segundo explica o professor Avelãs Nunes (¹) “permitiu ao grande capital financeiro recuperar a liberdade de movimentos que gozara nos anos 1920 e que conduziu à Grande Depressão. Graças às políticas neoliberais, o proclamado capitalismo sem crises deu lugar ao capitalismo do risco sistêmico”…”desmantelando as estruturas e mecanismos de regulação e controle da atividade financeira que vinham do tempo do combate dos anos 1930”.

Em 1981 Beltram Gross escreveu um livro sobre o “fascismo amigável”. Mais tarde outros autores, como Amartya Sen e Paul Krugman avisavam o mundo de que “a concentração extrema do rendimento significa uma democracia apenas no nome, incompatível com a democracia real” – é a ditadura do grande capital financeiro aplicada por um estado forte e, como escreveu A.Gamble, “um estado capaz de restaurar a autoridade a todos os níveis da sociedade e dar combate aos inimigos externos e aos inimigos internos”.

Bertie Sanders tentou recuperar o apoio de massas que permitiu a Roosevelt conter a violência do sistema que havia impedido Obama de realizar algumas medidas democráticas enquanto Presidente, por exemplo na questão da saúde pública. Foi o próprio partido Democrata que o dissuadiu da eleição. O Estado foi entregue ao republicano Trump que exibe a sua violência dentro e fora dos limites do seu país.

A esperança não morre, pois há diferentes conjunturas em que o povo manifesta a sua força reivindicativa e impõe novos caminhos. Obrador foi eleito com maioria absoluta no México reunindo diversas tendências da burguesia com a decisão do povo unido. Trump arrota violência mas faz conversas amigáveis. Mesmo na Europa, que está com a espinha curvada pela social-democracia, não alcança tudo o que pretende. Os povos levantam-se por todo o lado e não vão mais em conversas de “fascismo amigável”.

¹ Revista Seara Nova 1743 de 2018, Portugal

Zillah Branco, é cientista Social, consultora do Cebrapaz. Tem experiência de vida e trabalho no Chile, Portugal e Cabo Verde.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *