Escola de Olavo e cia.

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Publicado quinta-feira, 6 de dezembro de 2018 as 09:44, por: CdB

Ideias totalmente equivocadas que, ousaria até dizer, dotadas de má-fé, tentam acuar educadores para que evitem justamente a conscientização de seus alunos e alunas.

Por Luiz Fernando Padulla – de São Paulo

Quem nunca ouviu alguém dizendo que não gosta de política? Ainda mais em tempos onde noticiários nos bombardeiam com casos e mais casos de corrupção, abusos e “politicagens” que nos deixam atônitos, e muitas vezes, parecem fazer com que percamos nossa capacidade de indignação.

Quem nunca ouviu alguém dizendo que não gosta de política?

Pois bem. Infelizmente, podemos até (tentar) sair da discussão política, mas ela jamais sairá de nós. Ou melhor, jamais deixará de estar presente em nosso cotidiano. A política não está apenas nas discussões partidárias; não se restringe ao “nós x eles”, “mortadelas x coxinhas”. Está enraizada em nossas decisões e imposições as quais estamos sujeitos. Imposições estas as quais não podemos sucumbir e devemos resistir.

Fogo

(Não vou negar que a vontade é pegar um coquetel molotov e sair tacando fogo em todo o sistema, mas infelizmente não dá para fazer isso!).

“Ah, mas não adianta, os caras são poderosos e eles mesmos fazem as leis”. Sabemos disso, mas se não fizermos frente e contestá-los, continuarão agindo desta maneira. E resistir começa na base. Base essa que começa em nosso entorno. Dentro de casa, no bar, na roda de amigos e até mesmo (principalmente!) nas escolas – apesar de quererem atribuir isso a falaciosa ideia de “doutrinação”.

Ideias totalmente equivocadas que, ousaria até dizer, dotadas de má-fé, tentam acuar educadores para que evitem justamente a conscientização de seus alunos e alunas. E conscientizar significa formar cidadãos e cidadãs críticos ao seu dia a dia; cidadãos que terão argumentos, saberão exigir que as leis se cumpram, que os políticos eleitos respeitem aqueles que os elegeram. Esse é o medo! Mas para não transparecer, adotam palavras de efeito e proliferam abusos e censura.

A mais perigosa delas é a tal “Escola Sem Partido”, que na verdade é uma maneira camuflada de evitar a contestação, impondo uma mordaça à real e efetiva educação. Com a ascensão da extrema-direita no Brasil e no mundo (surreal!!!), o flerte com ideias nazi-fascistas afloram cada vez mais. Esse mesmo projeto, ecoando mundo a fora, levou até mesmo uma das ministras da Corte Constitucional da Alemanha a condenar projeto similar em seu país (intitulado “Escolas Neutras”). Para Susanne Baer, esse tipo de prática é similar à vigilância nazista realizada durante a ditadura do Führer.

Assim como no surgimento da “política salvadora” do partido nazista – que por sinal, era igualmente direitista apesar de tentarem associá-lo à esquerda – pregavam os bons costumes e a limpeza ética, enfatizando a família e o combate aos corruptos. No Brasil, os mesmos argumentos foram levantados e propagandeados recentemente, junto com mentiras (“fake news”) que se alastraram e permitiram a eleição de Bolsonaro e seus comparsas.

Com isso, as conquistas feministas (de extrema importância para a igualdade dos gêneros, e que não deve ser confundida como femismo!), das minorias como os LGBTIs e movimentos sociais, correm sério risco de sofrerem com a repressão. E isso será facilmente consolidado se a discussão e o diálogo não for permitido. Percebam que não é uma questão partidária, e sim política!

Educação sexual

E vou além. A recente e absurda fala do astrólogo que se acha filósofo, o tal Olavo de Carvalho, afirmando que “quanto mais educação sexual, mais putaria nas escolas (…) no fim, está ensinando criancinha a dar a bunda, chupar pica, espremer peitinho da outra em público” mostra claramente a ideia equivocada sobre o que é efetivamente educação sexual.

Ora, será que esse sujeito não entende (é obvio que não!) que educar sexualmente nas escolas é de fundamental importância para que se conscientize os jovens contra doenças sexualmente transmissíveis – ainda mais agora, onde casos de sífilis voltam a preocupar com seu padrão de epidemia – e até mesmo a prevenção da gravidez na adolescência? Educar os jovens em sala de aula permite, inclusive, que se reduzam os casos de aborto – outro ponto que essa gente adora condenar, sem que se faça uma avaliação mais aprofundada e racional, longe de fundamentos religiosos e respeitando a Constituição e o Estado laico.

Enquanto educador, tenho a obrigação moral de ajudar esses jovens quando chegam com dúvidas e questionamentos, uma vez que sendo (ainda) um assunto considerado tabu na sociedade – e em muitas famílias – quase sempre não são discutidos em casa, como certos moralistas defendem.

(Precisamos reforçar isso: o Estado é laico, ou seja, não defende e não deve seguir obrigatoriamente qualquer religião, assim como suas leis. Isso não quer dizer que o cidadão não poderá ter seu livre arbítrio religioso.

O que deve ser respeitado é uma lei para todos. Assim, se a religião A é contra o aborto seu seguidor poderá continuar com suas crenças; já se a religião B, ou a ausência da mesma – permite o aborto, cabe ao Estado garantir que esse cidadão possa realizar o mesmo de forma segura e assistida, uma vez que é uma questão de saúde pública, e não meramente religiosa e/ou cultural. O mesmo vale para a legalização de drogas, como é o caso da maconha. Sua legalização não obrigará ninguém a sair consumindo, mas permitirá que seus (já) usuários não sejam considerados criminosos – muitos deles, inclusive, que necessitam dos efeitos terapêuticos contra dores e doenças crônicas).

O perigo desse tipo de divulgação vai além de dogmas religiosos. O mesmo astrólogo, guru do presidente eleito, é contra o uso de vacinas (e ao mesmo tempo defende que o cigarro faz bem à saúde!). Para Olavo, vacinas fazem mal “matam e endoidam” as crianças, as quais estariam cuidadas e seguras apenas “por Nosso Senhor Jesus Cristo”. Se esse tipo de imbecilização estivesse restrito ao Brasil e a figura senil deste pateta e seus pupilos, menos mal. No entanto, a raiz da ignorância se propaga como erva daninha. Nos EUA, por exemplo (tido como exemplo de país para a direita), na cidade de Asheville, no estado da Carolina do Norte, pais estão se negando a vacinar os filhos contra a catapora, o que tem desencadeado surtos da doença – que pode, inclusive, ser fatal.

(Como bem disse Umberto Eco em 2015, “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”).

Bolsominions

“Ah, mas ele pode ter a opinião dele”, alguns bolsominions podem argumentar (juro que quis evitar esse tipo de adjetivo, mas não resisti!). Concordo. Opinião todos podem ter, no entanto, influenciar de forma negativa e com bizarras argumentações e propagação em massa, não é opinião, e sim mau-caratismo. Em 1904, a chamada “Revolta da Vacina”, encabeçada por intelectuais da época, era até compreensível, dadas as incertezas dos possíveis resultados e seus efeitos colaterais, justamente pela escassez em pesquisas e resultados. Hoje, no entanto, esse tipo de argumento é inconcebível, e só piora quando (pasmem!) dizem que as vacinas seriam um mecanismo de controle e implementação de doenças por parte da uma “Nova Ordem Mundial”, com o objetivo de reduzir o número da população mundial.

(Curiosamente, esses mesmos “gênios” que defendem a vida, são apoiadores da devastação de florestas para a implementação do agronegócio e seu pacote de venenos e transgênicos).

E quando nós, educadores, apresentamos fatos (comprovados pela Ciência e pela História, por exemplo), contestando esse tipo de absurdo e conscientizando de erros passados para que não voltem a se repetir, querem nos rotular de “doutrinadores”.

E substanciando esse tipo de força, elegem bancadas que fortalecem cada vez mais essas ideias, ultrajando princípios básicos da democracia e interesses do povo brasileiro. Defendem cinicamente seus interesses pessoais ao apoiar a liberação de agrotóxicos, alegando que são seguros, e propagam que as leis são burocráticas e atrasadas demais, negligenciando os impactos para a saúde e o meio ambiente. Inclusive, o próprio registro e liberação de agrotóxicos passaria agora a ser exclusividade do Ministério da Agricultura

“E o que fazer, então?”. Não baixar a guarda! Continuar no caminho certo, lutando contra mais esse retrocesso. Só assim poderemos fazer frente e combater efetivamente esses canalhas que estão ocupando o poder. Contestar sempre, não aceitar qualquer tipo de (des)informação e imposição. Lutar contra atitudes lesa-pátria e injustiças travestidas de justiça.

Sejamos sábios, coerentes e corajosos. Afinal, não podemos permitir que a profecia de Nelson Rodrigues se concretize, e contra os idiotas temos o dever de lutar e combatê-los para impedor que tomem conta do mundo. E para isso, só há uma solução: educação livre e libertadora!

Luiz Fernando Padulla, é professor, biólogo, doutor em Etologia, mestre em Ciências, autor do blog ‘Biólogo Socialista’.

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