Estátuas entram na mira de manifestantes contra o racismo

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Publicado quarta-feira, 10 de junho de 2020 as 11:54, por: CdB

Manifestantes derrubam monumento a Cristóvão Colombo nos EUA. Londres avalia remoções após ataques a esculturas de escravocratas. Bélgica retira estátua de rei do período colonial após pichações.

Por Redação, com DW – de Nova York/Londres

Uma estátua de Cristóvão Colombo em Richmond, nos EUA, foi derrubada, incendiada e jogada em um lago por manifestantes, enquanto continuam ao redor do mundo os protestos pela morte de George Floyd, um homem negro de 46 anos que morreu quando estava sob custódia da polícia na cidade norte-americana de Minneapolis.

Estátua do escravagista Robert Milligan é removida na capital britânica
Estátua do escravagista Robert Milligan é removida na capital britânica

O monumento foi derrubado menos de duas horas depois de manifestantes, reunidos num parque da cidade, o Byrd Park, reivindicarem a retirada da estátua. Depois que pessoas removeram a figura do pedestal com ajuda de cordas na noite de terça-feira, um cartaz foi colocado no pedestal vazio com a frase “Colombo representa genocídio”. A estátua foi então incendiada e jogada num lago do parque.

Não havia presença policial no parque, mas um helicóptero da polícia foi visto circulando a área depois da destruição do monumento, segundo a imprensa local.

A estátua de Colombo foi inaugurada em Richmond em dezembro de 1927, sendo a primeira dedicada a Cristóvão Colombo erguida no sul dos EUA. Sua derrubada ocorre em meio a protestos contra a morte de George Floyd e vários dias depois de uma estátua do general confederado Williams Carter Wickham ser retirada de seu pedestal no Monroe Park, na mesma cidade, por manifestantes, que também usaram cordas para derrubá-la.

Os defensores dos nativos norte-americanos há muito tempo pressionam os estados dos EUA a mudarem o Dia de Colombo para Dia dos Povos Indígenas devido a críticas de que Colombo teria sido o precursor de um genocídio de populações indígenas da América.

Reino Unido

Já a prefeitura de Londres, no Reino Unido, anunciou que estátuas de pessoas ligadas ao período colonial poderão ser removidas das ruas e parques, que deverão refletir melhor a diversidade racial e cultural da capital.

Nesta terça-feira foi retirada do pedestal uma estátua do proprietário de escravos Robert Milligan, que estava em frente ao Docklands Museum, perto do rio Tâmisa, para expressar “o sentimento da comunidade”, explicou a Canal and River Trust, entidade responsável pelo monumento. Milligan foi um comerciante proprietário de plantations e de escravos nas Índias Ocidentais no século 18 e 19. A estátua dele estava no local desde o início dos anos 1800.

A remoção ocorreu depois de, no domingo, um grupo de manifestantes ter derrubado e lançado ao rio a estátua do comerciante de escravos Edward Colston em Bristol, no oeste de Inglaterra. Na cidade de Oxford, centenas de manifestantes pediram nesta terça-feira a retirada do monumento do colonizador Cecil Rodhes, situado em frente ao Oriel College. Também houve protestos no centro de Londres e em outras cidades britânicas.

Grupo de manifestantes derrubou e lançou ao rio a estátua do comerciante de escravos Edward Colston em Bristol
Grupo de manifestantes derrubou e lançou ao rio a estátua do comerciante de escravos Edward Colston em Bristol

O prefeito de Londres, Sadiq Khan, anunciou que a prefeitura criará uma comissão para analisar e garantir que as ruas e parques reflitam a diversidade da cidade e retirar homenagens relacionadas à escravidão. A comissão vai verificar todos os pontos emblemáticos, incluindo murais, artes de rua, nomes de ruas, estátuas e outros monumentos, para depois fazer recomendações.

– É uma verdade inconveniente que nossa nação e nossa cidade devem grande parte de sua riqueza ao papel desempenhado por elas no comércio de escravos e, embora isso esteja refletido no âmbito público, a contribuição de muitas de nossas comunidades para a vida da nossa capital foi deliberadamente ignorada – afirmou Khan. A intenção é que Londres dê espaço “às conquistas e à diversidade de todos” e também “questione quais legados são comemorados”.

Nos protestos de fim de semana em Londres, manifestantes picharam uma estátua de Winston Churchill com o dizer “era um racista”. Premiê britânico durante a Segunda Guerra, Churchill é reverenciado como o homem que liderou o país à vitória contra a Alemanha nazista. Mas ele era também um firme defensor do Império Britânico e expressou opiniões racistas.

A estátua de Churchill

Khan sugeriu que a estátua de Churchill fique de pé. “Ninguém é perfeito, seja Churchill, seja Gandhi, sej Malcolm X”, disse ele à agência britânica de notícias BBC. “Mas há algumas estátuas em que a questão é bem clara”, ressaltou. “Escravagistas são um caso bem claro na minha opinião, proprietários de plantations são casos bem claros.”

Em Edimburgo, na Escócia, há pedidos para derrubar uma estátua de Henry Dundas, um político do século 18 que atrasou em 15 anos a abolição da escravidão decidida pelo governo britânico.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, afirmou que há discriminação racial no Reino Unido, mas disse que aqueles que atacam a polícia ou profanam monumentos públicos devem enfrentar “toda a força da lei”.

Em Antuérpia, na Bélgica, autoridades usaram um guindaste nesta terça-feira para remover uma estátua do rei Leopoldo 2°, que havia sido manchada de tinta vermelha por manifestantes, levando-a para reparos. Não estava claro se o monumento voltará ao lugar.

Leopoldo 2° (1835-1909) é há muito uma figura polêmica na Bélgica pelos crimes do seu governo no antigo Congo belga, atual República Democrática do Congo, incluindo, segundo historiadores, a morte de cerca de 10 milhões de congoleses.

A colonização do Congo

O Congo foi declarado colônia da Bélgica em 1885, durante a Conferência de Berlim, que dividiu a África entre as potências coloniais europeias. A colonização do Congo permitiu a Leopoldo 2° transformar a Bélgica numa potência por meio da exploração dos recursos congoleses, principalmente a borracha.

Para competir com os países que exploravam as vastas plantações de borracha da América Latina e Sudeste da Ásia, Leopoldo 2° escravizou a população congolesa e submeteu-a a grande violência, com historiadores a estimarem que, durante o seu domínio, a população do Congo foi reduzida pela metade, em consequência da violência, fome, exaustão e doenças.

Na Exposição Universal realizada em Bruxelas em 1958, Leopoldo 2° aprovou a exibição de um zoológico humano de homens, mulheres e crianças congoleses, hoje um símbolo da desumanização dos congoleses promovida pelo monarca.

A fortuna reunida com a exploração e o comércio dos recursos congoleses foi aplicada pelo rei em grandes obras públicas, como o Palácio da Justiça de Bruxelas.

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