Os estudantes se levantam

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Publicado sexta-feira, 10 de maio de 2019 as 09:53, por: CdB

No meses iniciais do seu governo, Bolsonaro demonstra um total desconhecimento da administração pública e dos desafios estruturais do Brasil. Impõe ao país uma agenda que representa um retrocesso civilizacional. Faz apologia à ignorância e ataca a cultura e as manifestações populares. Estimula o machismo e expõe o Brasil como uma rota de turismo sexual, além de estimular ataques frequentes contra os homossexuais. 

Por Wadson Ribeiro – de Belo Horizonte

Um governo que ataca as terras indígenas, quilombolas e nossos recursos naturais em nome da livre atuação do agronegócio. Que estimula a intolerância religiosa e compromete o caráter laico das escolas. Enfim, um governo paranoico que vive criando fantasmas ideológicos para dispersar a atenção do povo e impor seus objetivos reacionários.

Os estudantes são marcados por acreditarem em causas, não em “coisas”

Apesar do ataque constante que Bolsonaro promove contra o Estado de Direito, o país parecia viver numa espécie de letargia coletiva, até que os estudantes brasileiros foram às ruas e levantaram a bandeira em defesa da educação e da ciência, podendo impor a primeira derrota importante para o presidente e seu governo.

Nos momentos de efervescência política no Brasil, os estudantes sempre jogaram um papel de relevância. As históricas lutas dos estudantes, representadas pela União Nacional dos Estudantes e pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas, foram fundamentais nas campanhas contra o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial e na criação da Petrobras.

Foram forças expressivas na cadeia da legalidade de João Goulart e nas jornadas heroicas de lutas contra a Ditadura Militar. No início dos anos 90, pintaram a cara e derrubaram o ex-presidente Fernando Collor e nos anos que se seguiram resistiram ao desmonte da educação pública e denunciaram as políticas neoliberais do governo de Fernando Henrique Cardoso.

Nos governos Lula e Dilma, a pauta dos estudantes migra de um caráter reivindicatório para uma de conquistas. No período entre 2003 e 2016, 214 escolas técnicas e 18 instituições federais de ensino superior foram criadas. Os gastos públicos em educação subiram de R$ 17 bilhões, em 2002, para R$ 94 bilhões, em 2013.

Em 2003, o Brasil tinha 583,8 estudantes no ensino superior e saltou para 1.087.400 matrículas, em 2012. Entre 2003 e 2013, o Pronatec atendeu mais de 6 milhões de jovens oferecendo um aprendizado e uma profissão. O programa Ciência Sem Fronteiras beneficiou mais de 100 mil estudantes universitários com bolsas de estudos no exterior, aprimorando sua formação acadêmica e científica.

Estes dados ilustram um pouco o tamanho do retrocesso que o Ministério da Educação quer impor ao país ao cortar 30% do orçamento das universidades e escolas técnicas. A resposta foi imediata e os estudantes estão de novo nas ruas porque mais uma vez o destino do país está comprometido.

O corte de verbas é apenas o catalizador de uma insatisfação muito maior. O desemprego já atinge 13% da população e 25% dos jovens com até 25 anos.

Os estudantes são marcados por acreditarem em causas, não em “coisas”. Causas libertárias e democráticas. As vozes que vêm das ruas, num momento em que a população brasileira e a oposição ainda estão atônitas, não poderiam ser outras, senão as mesmas que a séculos perturbam o sono dos tiranos, as vozes dos estudantes. Que essas vozes ajudem ao Brasil reencontrar seu caminho de liberdade, de desenvolvimento, de justiça e de paz.

Wadson Ribeiro, é presidente do PCdoB-MG, foi presidente da UNE, da UJS e secretário de Estado.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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