EUA: revolta em Kenosha era só questão de tempo

Arquivado em: América do Norte, Destaque do Dia, Mundo, Últimas Notícias
Publicado sexta-feira, 28 de agosto de 2020 as 14:26, por: CdB

Tensão entre a polícia e a comunidade negra existe há anos no Wisconsin. Pesquisadora questiona mito do norte antirracista e afirma que Meio-Oeste dos EUA tem história antiga de racismo.

Por Redação, com DW – de Kenosha, EUA

Raramente, muito raramente aparecem nas manchetes de todo o mundo nomes de cidades até então amplamente desconhecidas, que jamais haviam dado o menor sinal de que algum evento impactante poderia por lá ocorrer. Christchurch, por exemplo, uma cidade pacífica na Ilha do Sul da Nova Zelândia e que foi inesperadamente palco de um ataque terrorista a uma mesquita, com 51 mortos.

Sigla do movimento Black Lives Matter em camiseta de manifestante em Kenosha
Sigla do movimento Black Lives Matter em camiseta de manifestante em Kenosha

Há até uma semana quase ninguém conhecia Kenosha, uma pacata cidade de 100 mil habitantes no Estado norte-americano do Wisconsin, cujo nome é de origem indígena. Hoje, o mundo inteiro sabe até soletrar Kenosha.

Isso por causa do racismo e da violência policial, dos incêndios de prédios e carros e das manifestações que já deixaram ao menos dois mortos. Tudo isso era mesmo impensável em Kenosha? Não. Foi a famosa última gota que fez o barril transbordar.

– Não estou exatamente surpresa com o que aconteceu em Kenosha – diz a historiadora Christy Clark-Pujara, que leciona no departamento de estudos afro-americanos da Universidade de Wisconsin-Madison. Há anos existem tensões entre a polícia e a comunidade negra, e elas resultaram nos sete tiros em Jacob Blake, de 29 anos.

Para Clark-Pujara, o que está acontecendo em Kenosha tem origens muito mais antigas. Quase 200 anos atrás, o Wisconsin era considerado um refúgio para muitas pessoas que haviam escapado da escravidão e precisavam de ajuda para chegar ao Canadá. “Quando elas tentavam escapar da escravidão e passavam pelo Wisconsin, conseguiam encontrar ajuda. Mas, quando elas tentavam se estabelecer no Wisconsin e viver sua vida como pessoas negras livres, eram marginalizadas”, explica Clark-Pujara.

Mito do norte antirracista

Ela acaba de publicar um artigo sobre como o mito do norte liberal ofuscou a longa história de violência branca nos Estados Unidos. Clark-Pujara refuta a afirmação de que os vencedores da Guerra Civil Americana, que aboliram a escravidão em 1865, não eram racistas.

– O povo do Meio-Oeste não entende sua história de racismo – diz a historiadora. Os eventos recentes em Kenosha eram previsíveis. “Essas coisas parecem surgir do nada ou serem novas, mas são um reflexo do que sempre fomos.”

Em 1848, o Wisconsin aprovou uma Constituição estadual que permitia apenas a homens brancos votar. Um projeto que previa um referendo sobre o direito de voto dos negros foi parar no lixo. Mesmo hoje, diz Clark-Pujara, “algumas das piores diferenças entre brancos e negros nos Estados Unidos estão no Meio-Oeste”.

Os estados de Dakota do Norte e do Sul, Nebraska, Kansas, Minnesota, Iowa, Missouri, Illinois, Michigan, Indiana, Ohio e também o Wisconsin lideram as estatísticas quando se trata da diferença entre brancos e negros na taxa de desemprego. A pobreza entre a população negra também é maior no centro-oeste do país.

Essa mistura é explosiva também em Kenosha, onde um de cada nove habitantes é negro. O racismo ferve sob a superfície e só às vezes é vivido abertamente. Em 2016, um aluno se fantasiou de membro da Ku Klux Klan para uma apresentação na escola. Para alguns, foi apenas uma piada de mau gosto, mas o terreno fértil existe: há 15 grupos, incluindo organizações nacionalistas e neonazistas, que têm problemas com a Justiça no Wisconsin.

Polícia sem controle

E ainda há uma polícia que, até agora, conseguiu escapar de qualquer controle: em 2017, a cidade aprovou por unanimidade uma resolução recomendando o uso de câmeras corporais. Ativistas de direitos civis vinham pedindo o uso de câmeras corporais há anos para monitorar e minimizar ataques violentos.

A medida ainda não foi implementada, e as autoridades municipais atribuem isso aos altos custos do equipamento. Agora, o prefeito de Kenosha, John Antaramian, confirmou que as câmeras corporais serão incluídas no orçamento para 2022.

Essas câmeras corporais também poderiam ajudar a população branca. Em 2004, o branco Michael Bell Jr., de 21 anos, foi morto a tiros pela polícia na frente de sua família. As autoridades tentaram primeiro encobrir o caso, e os policiais envolvidos foram absolvidos após uma investigação interna. Mais tarde, porém, a família de Bell ganhou um processo contra a cidade.

Como resultado, desde 2014 mortes envolvendo policiais são investigadas com mais cuidado. Os policiais que deram sete tiros à queima-roupa nas costas de Jacob Blake foram afastados logo após o crime.

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

*

code