Europeus se mobilizam contra o golpe de Estado e a prisão de Lula

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Publicado quinta-feira, 12 de abril de 2018 as 17:33, por: CdB

Intelectuais, artistas, estudantes e líderes políticos europeus de esquerda, reunidos em Lisboa, expõem o golpe no Brasil.

 

Por Redação, com agências internacionais – de Lisboa

 

A Fundação José Saramago (FJS) e o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES) realizaram ao longo desta quinta-feira, no Teatro Capitólio, Centro da capital lusitana, um encontro para debater o futuro das lutas democráticas e em defesa da democracia brasileira.

O sociólogo Boaventura Sousa Santos e a escritora Pilar Del Rio coordenaram o encontro
O sociólogo Boaventura Sousa Santos e a escritora Pilar Del Rio coordenaram o encontro da esquerda europeia, em Lisboa

O ato contou com a presença do ex-governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro; da deputada Manuela D’Ávila (PCdoB), pré-candidata à presidência da República; e de Guilherme Boulos, pré-candidato à presidência da República pelo PSOL.

— Quem serão os próximos? Se não botarmos limites, eles não se limitam por si próprios — alertou Boulos.

Escalada fascista

Boulos pontuou, ainda, que o momento não pode ser de acomodação.

— Não vamos descansar um só momento sem honrar a consciência democrática de Nadir Kfouri. Não vamos descansar um só momento sem cobrar a justiça por Marielle. E não vamos descansar um só momento até que Lula esteja solto — disse.

As divergências entre os partidos políticos do campo progressista, segundo ele, são uma “virtude e não problema”. Porém, afirmou que a gravidade do momento não pode impedir as forças de esquerda de estarem lado a lado para barrar a escalada fascista em curso no Brasil.

— Temos que ter grandeza de apresentar um projeto de futuro, junto com o desafio de enfrentar os retrocessos — acrescentou.

Esquerda europeia

Além dos convidados brasileiros, participaram do encontro Cristina Narbona (PSOE-Espanha), Pablo Iglesias (Podemos/Espanha), Catarina Martins (Bloco de Esquerda/Portugal) e Ana Catarina Mendes (PS/Portugal). A coordenação do debate ficou a cargo do sociólogo Boaventura de Sousa Santos (CES) e Pilar Del Rio (FJS).

Ainda durante o ato, no Capitólio, integrantes das várias tendências de esquerda, na Europa — a exemplo do que também ocorre, no Brasil — reuniram-se para formar uma frente capaz de deter o avanço do fascismo. O fenômeno ocorre nos principais países europeus e, também, na América Latina.

“Hoje em Lisboa damos um passo em frente. Apelamos aos povos da Europa para que se unam na tarefa de construir um movimento político internacional, popular e democrático de forma a organizarmos a defesa dos nossos direitos e a soberania dos nossos povos face a uma velha ordem, injusta e que nos conduzirá ao desastre”, diz a declaração “Agora, o povo”, subscrita e apresentada esta quinta-feira por Catarina Martins, Pablo Iglesias e Jean-Luc Mélenchon.

Bloco

“Trata-se da criação de um novo movimento político europeu que ofereça uma alternativa aos nossos povos em relação aos tratados que hoje estão a impor tantas dificuldades aos países europeus”, resumiu Catarina Martins.

Na conferência de imprensa que se seguiu à assinatura da declaração, que reproduzimos, adiante.

“Podemos fazer diferente e aqui estamos: três forças políticas do sul da Europa, empenhadas em criar uma nova cooperação europeia que em vez de retirar soberania, ponha a resposta aos povos no centro da política”, afirmou a coordenadora do Bloco.

França insubmissa

Por seu lado, Pablo Iglesias afirmou que este movimento quer dar “um passo em frente na Europa; para defender uma Europa que se fundamente nos direitos sociais; nos direitos humanos e nos direitos civis”. Para o líder do Podemos, “ante o fracasso das políticas neoliberais de austeridade na Europa; este movimento político que hoje nasce estende a mão a todos os setores sociais e políticos que estejam dispostos a construir uma Europa com base naqueles valores”.

Jean-Luc Mélenchon sublinhou tratar-se de um “dia de alegria” para a construção de uma alternativa política na Europa e deixou uma palavra de alerta a “uma Europa que caminha a passos largos para a guerra”. O líder da França Insubmissa voltou a estender o convite a outras organizações europeias que partilhem da análise e das propostas desta declaração para que participem neste espaço comum.

Leia, agora, os principais trechos da declaração:

“A Europa nunca foi tão rica como hoje. Ao mesmo tempo, nunca foi tão desigual. Dez anos depois da explosão de uma crise financeira que os nossos povos nunca deveriam pagar, vemos que os governantes europeus nos condenaram a uma década perdida.

A aplicação dogmática, irracional e ineficaz das políticas de austeridade não conseguiu resolver nenhum dos problemas estruturais causados por esta crise. Pelo contrário, gerou muito sofrimento desnecessário aos nossos povos.

Com o pretexto da crise e dos seus programas de ajustamento, os governantes tentaram desmantelar os direitos e os sistemas de bem-estar social que precisaram de décadas de lutas até serem garantidos.

Democracia

Condenaram gerações de jovens à imigração, ao desemprego, à precariedade e à pobreza. Atacaram com particular crueldade os mais vulneráveis, que são quem mais precisa da política e do Estado. Tentaram que nos habituássemos à ideia de que as eleições são uma escolha entre o status quo liberal e a ameaça da extrema-direita.

Chegou a hora de romper com os grilhões dos tratados europeus que impõem austeridade e promovem o dumping fiscal e social. Chegou a hora de quem acredita na democracia dar mais um passo para romper com esta espiral inaceitável. Devemos pôr um sistema económico injusto, ineficaz e insustentável ao serviço da vida e sob controle democrático dos cidadãos.

Movimento

Precisamos de instituições ao serviço das liberdades civis e dos direitos sociais, que são a base da democracia. Precisamos de um movimento popular, soberano e democrático; que defenda as melhores conquistas dos nossos antepassados e chegue uma ordem social justa, viável e sustentável às gerações futuras.

Neste espírito de insubmissão ao atual estado de coisas; de revolta cidadã, de confiança na capacidade democrática dos nossos povos perante o extinto projeto das elites de Bruxelas, hoje em Lisboa damos um passo em frente.

Apelamos aos povos da Europa para que se unam na tarefa de construir um movimento político internacional; popular e democrático de forma a organizarmos a defesa dos nossos direitos e a soberania dos nossos povos face a uma velha ordem, injusta e que nos conduzirá ao desastre.

Organização

Aqueles que querem a defesa da democracia econômica; contra os grandes infratores e o 1% que detém mais riqueza do que todo o resto do planeta; da democracia política; contra aqueles que reavivam as bandeiras do ódio e da xenofobia; da democracia feminista, contra um sistema que discrimina diariamente e em todas as áreas da vida metade da população.

E, ainda, da democracia ecológica, contra um sistema económico insustentável que ameaça a própria continuidade da vida no planeta; da democracia internacional e da paz, contra aqueles que querem construir mais uma vez a Europa da guerra; aqueles que defendem os direitos humanos e os princípios básicos da vida digna encontrarão um lugar neste movimento.

Estamos cansados de esperar. Estamos cansados de acreditar naqueles que nos governam de Berlim e de Bruxelas. Estamos a trabalhar arduamente para construir um novo projeto de organização para a Europa. Uma organização democrática, justa e equitativa que respeita a soberania dos povos. Uma organização que responde às nossas aspirações e necessidades. Uma nova organização ao serviço das pessoas”, conclui a declaração.

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