Evangélicos e neopentecostais formam base de Bolsonaro, diz pesquisa

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Publicado terça-feira, 23 de março de 2021 as 13:52, por: CdB

O Datafolha adianta também que metade dos brasileiros (50%) é contra o impedimento de Bolsonaro. O grupo é formado principalmente por cidadãos da região Sul (59%), empresários (81%) e evangélicos (59%).

Por Redação, com RBA – de São Paulo

Aumentou a parcela de eleitores declaradamente evangélicos e católicos ligados aos movimentos da Renovação Carismática Católica, integrados à direita e ao bolsonarismo. A parcela de 25% a 30% da população consiste na principal base de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Os dados constam de pesquisas dos mais diversos institutos.

Os chamados ‘cristão neopentecostais’ integram movimentos ligados à extrema direita

A mais atual, do Instituto DataFolha, divulgada há uma semana, aponta que 46% dos evangélicos não temem ser infectados pelo coronavírus, quando entre católicos regulares, o percentual chega a 32%. A ideia de que “Deus é por nós” embasa tal posição. Nas redes sociais, de acordo com resumo apurado por pesquisadores, a população descrente das vacinas acredita que ter medo da covid-19 é sinal de pouca fé.

O Datafolha adianta também que metade dos brasileiros (50%) é contra o impedimento de Bolsonaro. O grupo é formado principalmente por cidadãos da região Sul (59%), empresários (81%) e evangélicos (59%). “Perguntados sobre que tipo de estabelecimentos devem ser fechados para combater a transmissão do vírus, apenas 39% dos evangélicos foram a favor de que as igrejas entrem na proibição”, revela o estudo.

Visão capitalista

Para o sociólogo Cândido Grzybowski, do Ibase, as pesquisas de opinião mostram “uma fotografia” do atual momento. Por exemplo, pesquisa recente da revista Fórum constata o setor em que Bolsonaro encontra mais apoio é entre os evangélicos. Neste segmento, 38,4% afirmam que votariam no atual presidente, enquanto 27% dizem que votariam em Lula. Mas o fato de o fato de o eleitorado evangélico continuar majoritariamente sustentando seu “chefe” não quer dizer que esse momento vai se prolongar indefinidamente.

— A pandemia e a crise estão espantando as pessoas. A situação que estamos vivendo não é sustentável. E o discurso das igrejas não tem mais a resposta que a sociedade precisa ter a isso nesse momento — afirmou Grzybowski.

Em resumo, para sociólogo, se é enorme a tarefa de desconstruir o discurso capitalista que embasa o poder dessas igrejas, segundo o qual “vencem os que são capazes e Deus contribui”, a própria realidade pode desconstruir o poder do dízimo pelo qual se obtém a “salvação”. Porque as pessoas estão vivendo uma tragédia e, muitas delas, percebem que a salvação não está chegando.

Congresso

As comunidades carentes são formadas por pessoas que não tomam posições políticas por si mesmas. Elas não gostam de dúvidas, não as entendem, e são impulsionadas pela palavra do bispo ou pastor. Por isso, é fundamental que haja bispos e pastores progressistas, que introduzem o questionamento em suas mentes.

Na opinião do sociólogo, a falta histórica de apoio às populações periféricas pelo Estado criou o espaço que foi ocupado por bispos, alçados a expressões políticas. No Congresso, por exemplo, hoje se vê isso claramente: o Legislativo é marcado menos por opções partidárias do que por fidelidades e caciquismo. O pastor ganhou tal credibilidade nas localidades, que elegem, às vezes facilmente, os de sua “confiança”, muitas vezes eles próprios.

— Isso é a reprodução do velho coronelismo de base, agora na figura do pastor, que oferece o dízimo para você obter a salvação — acrescentou.

Negacionismo

Além de tudo, as igrejas evangélicas possuem redes de televisão. Os “crentes” não creem nem mesmo na TV Globo. Fiéis de igrejas são incentivados a pagar “contribuições” e dízimos em drive-thrus. Nesse quadro sombrio, existem ainda as milícias para “proteger” os cidadãos no lugar do Estado que os abandonou.

— Mas eu não diria que está tudo perdido. Inclusive porque a pandemia e a crise começam a colocar os pingos nos ‘is’ e mostrar que a situação é mais complicada do que o discurso das igrejas mostram — acredita Grzybowski.

O auxílio emergencial no valor médio de menos da metade do que era pago no ano passado já repercute na imagem de Bolsonaro. A rejeição ao negacionismo do presidente na pandemia o leva à sua maior rejeição desde o início do governo, apontou o mesmo DataFolha da semana passada.

Caso Crivella

O caso mais exemplar, para Grzybowski, de que as igrejas já não influenciam tanto quanto se acredita se deu nas últimas eleições municipais no Rio. O ex-prefeito Marcelo Crivella teve apenas cerca de 35% dos votos válidos. São Paulo, com a derrocada de Celso Russomanno, é outro exemplo de que a onda bolsonarista está em queda e não é de hoje, embora mais lentamente do que todos os democratas do país gostariam.

— Não sabemos ainda onde esse processo vai dar. Mas as igrejas não estão conseguindo responder aos desafios colocados pela crise. A corrente de evangélicos que esteve em torno de Bolsonaro, baseada também nas milícias, não foi nada bem em 2020 — pontua o sociólogo.

Há também práticas contrárias ao poder dominante nas igrejas neopentecostais, que também enfrenta adversários internos, observa.

— Existe um pensamento de esquerda mesmo entre essas igrejas. Há, sim, um movimento de resistência ali dentro — revela.

Vacinas

Quando candidato, o agora presidente soube captar uma situação grave, em um contexto em que “se tentava desmoralizar e criminalizar sistematicamente a esquerda”. Bolsonaro conquistou os evangélicos porque “se apresentou numa conjuntura de Deus, pátria e família”. Mas, para o sociólogo, os setores esquerdistas também têm parcela de responsabilidade no crescimento do neopentecostalismo, ao abandonar as bases e periferias. A retomada paulatina desse espaço é parte da “tarefa árdua” dos setores progressistas.

Para ilustrar sua avaliação de que “não está tudo perdido”, Grzybowski cita pesquisa mundial do Instituto Ipsos. Realizada em 15 países de 25 a 28 de fevereiro passados, o estudo mostra os brasileiros como os que mais querem ser vacinados contra a covid-19. Ante a questão “se uma vacina para covid-19 estiver disponível para mim, eu tomaria”, 76% dos brasileiros concordaram totalmente com a afirmação e 13% parcialmente.

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